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| Logo da Uber em escritório na Califórnia -
Justin Sullivan/ AFP Photo |
Folha de São Paulo
Motoristas
ligados à Uber fizeram 500 milhões de viagens no Brasil nos últimos seis meses,
a mesma quantidade acumulada nos três anos e meio anteriores.
A
disseminação desse tipo de transporte também atingiu outros aplicativos —e
levou a chinesa Didi Chuxing, que desbancou a Uber na China, a adquirir a
brasileira 99 neste ano, num negócio de mais de US$ 1 bilhão.
A
aposta da Uber no Brasil a partir de agora, no entanto, estará atrelada às
normas fixadas para os serviços pela Câmara dos Deputados, diz Dara Khosrowshahi,
48, CEO (presidente-executivo) da Uber, em entrevista concedida por telefone à
Folha.
Qualquer
empresa assume riscos e há um “mercado promissor” no país, afirma ele, mas tudo
está condicionado às restrições que podem voltar à pauta dos deputados nesta
terça (27) —como as exigências de só atuar na cidade de registro do carro, de
ter placa vermelha e de os motoristas serem os donos dos veículos.
“O
nível do investimento, obviamente, depende dessa regulação”, diz, numa crítica
à imposição de regras que possam burocratizar os serviços.
Engenheiro
elétrico nascido no Irã e criado nos EUA, Khosrowshahi assumiu a Uber em agosto
de 2017, após uma série de escândalos envolvendo a empresa —de acusações de
tolerância com episódios de assédio sexual e moral a alegações de roubo de
segredos comerciais da tecnologia de veículos autônomos.
Na
semana passada, sob a justificativa de que não há regras claras e de que não
colocaria seu negócio sob risco, a Uber decidiu encerrar as suas atividades no
Marrocos.
Khosrowshahi
diz que a situação no Brasil (2º maior mercado da empresa no mundo, atrás dos
EUA) parece distante disso. “Seria um resultado trágico que eu não antevejo,
mas às vezes essas coisas acontecem pelo mundo.”
Os
projetos da Uber incluem outros modelos de transporte, como um sistema com
bicicletas pensado para cidades como São Paulo, e a tecnologia dos “carros
voadores” —com pousos verticais e que Khosrowshahi projeta no mercado em até
dez anos.
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| Dara Khosrowshahi, 48, CEO da Uber - Denis
Balibouse/ Reuters |
Nome
Dara
Khosrowshahi, 48
Origem
Nascido
em Teerã, Khosrowshahi foi para os EUA com a família durante a Revolução
Iraniana e cresceu em Tarrytown, Nova York
Formação
Engenheiro
elétrico
Carreira
Ex-presidente
da empresa de viagens Expedia. Assumiu como CEO da Uber em agosto de 2017, em
meio a uma série de escândalos na empresa
Folha - Em que medida a Uber depende da
decisão da Câmara dos Deputados? O serviço no Brasil pode ser suspenso
dependendo dessa regulação?
Dara Khosrowshahi - Qualquer operação nossa, incluindo o Brasil, exige
parcerias não só com governos locais, mas com motoristas e usuários vinculados
ao aplicativo. De modo geral, nosso diálogo com o Senado e o governo brasileiro
melhorou ultimamente.
A Uber planeja investir no Brasil mesmo
com o risco de mudança das regras?
Todo
negócio traz riscos. No Brasil, na última semana, nós ultrapassamos a marca de
1 bilhão de viagens. A companhia demorou três anos e meio para alcançar meio
bilhão de viagens e outros seis meses para alcançar mais meio bilhão. Portanto,
o negócio tem crescido muito no Brasil. Na medida do possível, vamos continuar
investindo no Brasil. O nível do investimento, obviamente, depende dessa
regulação. Podemos continuar sendo uma força econômica positiva no país não só
com os impostos pagos, quase R$ 1 bilhão em 2017, mas também com os mais de 500
mil motoristas que trabalham com nossa plataforma em época de turbulência
econômica.
Como foram as conversas com os
parlamentares?
Temos
tido contato com diversos agentes no governo, deputados e senadores nos últimos
anos. O texto que o Senado enviou à Câmara reflete o balanço apropriado. Uma
regulação que traga a segurança de motoristas e usuários, mas também a abertura
que garanta que a tecnologia continue avançando.
A chinesa Didi Chuxing adquiriu
recentemente a 99 e decidiu investir bastante no país. A Uber está perdendo
espaço para a empresa rival no Brasil?
Achamos
que ainda é muito cedo. Qualquer mercado atrativo irá atrair competição, o que
nos fará melhor. Nós investimos significativamente no Brasil por anos. Temos 77
pontos de apoio a motoristas, cinco escritórios no país e recentemente
investimos mais de R$ 200 milhões em um call center de excelência na América
Latina. Respeitamos a 99 e o investimento da Didi, a posição competitiva deles,
mas não acho que eles estejam tão dedicados ao Brasil há tanto tempo como nós
estamos. Nossa visão do Brasil é de um mercado muito promissor, queremos nos
dedicar a ele, desde que o ambiente regulatório nos permita continuar
investindo no país. Pretendemos continuar a investir não só em tecnologia,
talvez possamos contratar engenheiros.
Uma agência de trânsito em Boston fez
uma pesquisa sugerindo que Uber e Lift [concorrente americana] tiravam pessoas
de transportes públicos e acrescentavam novas viagens nas ruas. Em Nova York há
a discussão de que empresas como Uber possam deixar o trânsito mais lento. Como
o sr. rebate o argumento de que a Uber pode piorar o trânsito?
Acredito
que os dados nessa área ainda são novos e ainda estão em desenvolvimento. Eu
diria que toda vez que se introduz uma tecnologia nova e acessível, toda vez
que se introduz mobilidade, haverá o aumento da demanda. O fato de a Uber ser
um serviço conveniente que provê ganhos a diversos motoristas, isso toma certo
volume [de passageiros] de outros meios de transporte, é inevitável. Estamos investindo
agressivamente em tecnologias como Uber Pool, que permite mais de um passageiro
compartilhar um carro. Essa modalidade tira carros das ruas e diminui
congestionamentos. Em São Francisco, introduzimos uma tecnologia que queremos
disseminar pelo mundo na qual abrimos a nossa plataforma para outros meios de
transporte, incluindo bicicletas. Esperamos ver essa tecnologia mundialmente
implantada, o que inclui o Brasil e a cidade de São Paulo. Ajudar a combater o
problema dos congestionamentos é parte da nossa missão.
A Uber tem trabalhado em projetos de
carros autônomos (sem motorista) e voadores (Uber Elevate, aeronaves leves
capazes de pousar e decolar na vertical). O quanto tudo isso ainda está
distante?
Essas
são tecnologias muito estimulantes e caras. Acreditamos que a tecnologia dos
carros autônomos estará nas ruas dentro de um ano, em uma escala muito reduzida
e com base comercial somente nos Estados Unidos. O Uber Elevate é uma outra
história. As cidades se tornaram verticais, devido aos seus prédios comerciais
e arranha-céus. Acreditamos que o transporte também será vertical. Precisaremos
usar o céu para tirar os carros da rua. Achamos que o primeiro modelo com
decolagem e pouso vertical sairá em cinco anos. E para que eles estejam
completamente prontos para operarem comercialmente, entre cinco a dez anos.
A Uber se envolveu nos últimos anos em
escândalos pelo mundo, de relatos de assédio sexual a estratégias agressivas de
competição empresarial...
Acredito
que parte das críticas sobre nossa atividade no passado é justificada e uma das
minhas primeiras ações ao me tornar CEO foi introduzir novos valores culturais.
E uma das novas regras mais importantes é: nós fazemos a coisa certa, ponto.
Podemos nos tornar uma empresa de sucesso, mas também uma empresa a se
orgulhar.
No Brasil, há críticas sobre a falta de
transparência nos dados da empresa. A Uber abriria seus dados para ajudar São
Paulo a planejar o trânsito?
Queremos
ser muito atenciosos com a privacidade dos nossos usuários e motoristas, mas seremos
muito mais abertos a abrir informações com as autoridades das cidades nas quais
operamos. Por exemplo, para encontrar soluções conjuntas para ajudar no
tráfego. Então, esse é o tipo de parceria para a qual certamente estamos
abertos. Sendo o Brasil um mercado tão importante para nós, isso é algo para o
qual estamos dispostos a desenvolver, dentro de determinadas circunstâncias.
Recentemente, a Uber suspendeu suas
operações no Marrocos. De que maneira o quadro é comparável ao do Brasil?
Uma
vez que estamos em um país, esperamos regras claras em que a tecnologia possa
prosperar e os motoristas possam ter a oportunidade de ganhar a vida. Algumas
cidades e países querem avançar e usar o poder da tecnologia, enquanto outras
olham para trás. Enquanto nosso negócio é global, em último caso uma abordagem
local depende de um ambiente regulatório específico. Marrocos é um exemplo de
como nós não tínhamos clareza, e não estávamos dispostos a colocar nossos
parceiros motoristas e nosso negócio em risco por lá. Decidimos que tínhamos
que sair. Acho que [o Brasil] está longe desta circunstância. Seria um
resultado trágico que eu não antevejo, mas às vezes essas coisas acontecem pelo
mundo.