segunda-feira, 30 de novembro de 2020

PT não conquista nenhuma capital pela primeira vez desde 1985 e volta ao tamanho ‘pré-Lula’

Marília Arraes, derrotada no segundo turno em Recife, durante a campanha. ARTHUR MARROCOS


Do El País


O Partido dos Trabalhadores (PT) não elegeu nenhum candidato próprio nas capitais brasileiras nestas eleições até agora ― está ainda na disputa em Macapá, onde as eleições foram adiadas. É a primeira vez que isso acontece desde a redemocratização do país, em 1985. Em todo o Brasil, o partido conquistou apenas 183 prefeituras, enquanto outras siglas tiveram resultados muito superiores, como MDB e PP, que superaram as 600 prefeituras cada uma. Seguiu o encolhimento que já protagonizava desde 2016, quando fez 254 prefeitos e voltou, neste ano, a um tamanho semelhante ao que tinha antes dos Governos de Luiz Inácio Lula da Silva, iniciados em 2003 - cerca de 200 cidades com comando do partido.

 

Por um lado, é uma amostra que o antipetismo segue como uma força política significativa. De outro, trata-se do resultado de uma estratégia que optou por, quase sempre, lançar chapas próprias em detrimento de alianças com outras siglas de esquerda. É o caso de São Paulo, onde o candidato Jilmar Tatto amargou menos de 10% dos votos no primeiro turno, assistindo à ida de Guilherme Boulos, do PSOL, à segunda rodada eleitoral. O resultado foi a fragmentação dos votos e a consolidação de partidos como o PDT e o próprio PSOL como novas opções ao eleitorado de esquerda.

 

Apesar do resultado das urnas, analistas políticos afirmam, no entanto, que é prematuro falar em uma derrocada política completa. O PT ainda demonstra alguma força. Foi novamente às urnas em 20 das 57 cidades que tiveram segundo turno ― todas elas com colégios eleitorais significativos. E venceu em quatro delas: Contagem, Juiz de Fora, Diadema e Mauá.

 

Na maioria das cidades, o PT apostou em candidaturas de ex-prefeitos que contavam com a marca da experiência. O objetivo do partido era retomar espaço dentre os 96 maiores colégios eleitorais brasileiros, grupo que inclui as 26 capitais de estados e 70 cidades de interior com mais de 200 mil eleitores, um contingente em que, há quatro anos, o partido venceu apenas em Rio Branco (AC). A maior cidade que será governada por um petista a partir do ano que vem é Contagem, a terceira maior de Minas Gerais, onde a ex-prefeita Marília Campos venceu o advogado Felipe Saliba (DEM) por margem estreita (51,35% dos votos).

 

“Não posso cravar uma derrocada do PT, mesmo porque esteve em 15 das 57 grandes cidades que tiveram segundo turno. Não é porque perdeu em 11 que vou desconsiderar esta força e dizer que vão esquecer o partido”, declara o cientista político Rudá Ricci. Feita esta ponderação, Ricci avalia que o partido sai diferente destas eleições e prevê que deverá enfrentar um embate interno pela mudança de perfil de seus filiados com mandato. Isso porque candidaturas que tiveram êxito nas urnas, como por exemplo em Contagem e Juiz de Fora, não representam a ala majoritária do PT, ligada ao ex-presidente Lula. “Acho que vai ter um embate interno muito importante porque a corrente majoritária saiu derrotada. Mudou a conjuntura política de quem tem mandato no PT. E não dá pra fazer mais a narrativa que coloca a culpa nos outros”, analisa Ricci.

 

Já Wilson Gomes, filósofo, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital, diz que “o PT estancou a sangria de 2016, mas teve uma grande perda nos dez maiores colégios eleitorais do país [São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Fortaleza, Curitiba, Manaus, Recife, Porto Alegre e Belém]”, explica

 

A presidente nacional do partido, Gleisi Hoffmann, tentou defender os resultados alcançados. Destacou que o PT venceu em quatro das 15 cidades que disputava neste domingo e que teve mais de 40% dos votos em nove delas. “Vencemos com o PSOL em Belém, lutamos ao lado de Boulos e Manuela. E o Brasil viu o q fizeram p/ barrar Marília em Recife. O PT segue junto com o povo”, acrescentou. E arrematou dizendo que o “segundo turno mostrou que a esquerda sabe lutar”.

 

 

Mudança de perfil

 

 

Neste ano, o eleitor que votou nas candidaturas de centro-esquerda não mais associou este campo diretamente ao PT, pontua Ricci. Este eleitorado votou de forma mais plural, em candidatos do PSOL e do PDT, por exemplo. “O PT vinha crescendo desde os anos 1980 e fez quatro vezes a presidência, então ofuscava estes partidos, que agora cresceram”, avalia. O cientista político vê uma transição se formando no campo de centro-esquerda brasileiro, cujas inovações estariam sendo protagonizadas especialmente por mulheres e suas candidaturas coletivas às câmaras municipais. O campo começa, ainda, a apresentar uma pluralidade de lideranças. Ele cita como exemplo nomes como Manuela D’Ávila (PCdoB), Guilherme Boulos (PSOL) e Marília Arraes (PT). Embora nenhum deles tenha vencido no segundo turno, ganharam destaque e foram competitivos. Seria, portanto, uma pluralidade de lideranças que o cientista político não vê no campo de centro-direita.

 

O Partido dos Trabalhadores começou a crescer nos anos 1980, mas a partir do final dos anos 1990 afastou-se do “modo petista de governar” no âmbito local, representado, por exemplo, pela ideia de um orçamento participativo, conselhos e inversão de prioridades. Com a chegada de Lula ao poder, em 2002, o partido montou um modelo de coalizão ampla que o aproximou do modelo de centro-direita que tradicionalmente domina as prefeituras brasileiras. Nunca chegou a ser um partido majoritário nas municipais, mas ganhou fôlego. Em 2008, fez 557 prefeitos e se tornou a terceira força política do país. Em 2012, chegou a 632 prefeituras. No âmbito nacional, se afastou das bases e dos movimentos sociais e foi se parlamentarizando, com deputados em postos de liderança interna. A partir de 2016, voltou a encolher nos municípios. “Lula não mudou essa lógica do centro-direita da política brasileira. Ele a reforçou. É como se tivéssemos uma cabeça de esquerda e o corpo todo de centro-direita”, compara Ricci. Esta trajetória, para o cientista político, soma uma sucessão de erros estratégicos.

 

Para Wilson Gomes, um dos maiores equívocos é a resistência a olhar o espelho. “O PT está muito envelhecido, sua cúpula está envelhecida, mas o partido não faz nenhuma mudança em sua autoimagem, nenhuma autocrítica, nada”, diz.

 

“O PT se tornou um partido com a lógica tradicional, mas que tinha relações com a base marginalizada. É um partido funcional do sistema, mas a base não romperia com este sistema porque tinha o PT e as instituições como canal. Chegou um momento que este canal ficou interditado”, aponta Ricci. Gomes, que considera que o “antipetismo foi o maior eleitor em 2016 e em 2018″, avalia que esse sentimento demonstrou ter ainda grande poder eleitoral em 2020. “Vimos, por exemplo, até um vídeo de Silas Malafaia apoiando João Campos, um candidato supostamente progressista, só para fazer oposição ao PT de Marília Arraes, mesmo em um estado em que ele não tem interesses diretos”.

 

Mas os resultados deste ano pouco apontam para a discuta de 2022, considera Ricci. “O eleitor está procurando outros caminhos”, analisa. Após uma decepção com o bolsonarismo, o eleitor médio voltou à moderação e ao conhecido e fez dos partidos de centro-direita os grandes vitoriosos desta eleição. “Ele está em transição, abandonando a extrema direita e o totalmente novo de 2016 e de 2018. Ao mesmo tempo, o campo do centro-esquerda também está tendo uma transição importante”, diz.

 

O antibolsonarismo cresceu e tornou-se uma força política. Prova disso é que 11 dos 13 candidatos apoiados pelo presidente da República não foram eleitos. “Mas isso não significa que o antipetismo diminuiu”, pondera Gomes. “A questão é que o que demorou 13 anos para chegar para o PT chegou em apenas dois para Bolsonaro. Não sei se o que mais prejudicou ele foram as eleições nos Estados Unidos ou as municipais brasileiras”, acrescenta.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Pfizer solicita autorização de emergência para sua vacina contra a covid-19 nos Estados Unidos

Voluntário nos Estados Unidos recebe a vacina desenvolvida pela Pfizer e a BioNTech. AP

 

Do El País

 

A agência de medicamentos dos Estados Unidos (FDA na sigla em inglês) estava avisada: a empresa farmacêutica Pfizer e sua parceira alemã BioNTech solicitaram nesta sexta-feira uma autorização de emergência para sua vacina contra a covid-19, tornando-se os primeiros fabricantes a fazê-lo nos Estados Unidos ou na Europa. A vacina poderia estar disponível em meados ou no final de dezembro para grupos de risco, segundo afirmou a empresa em um comunicado.

 

O anúncio era esperado há vários dias, depois da publicação dos resultados do teste clínico da fase 3 da vacina, que está em andamento desde julho com 44.000 voluntários em vários países e segundo os quais a vacina contra a covid-19 não teria efeitos colaterais graves. Na quarta-feira, a Pfizer anunciou que a vacina tem 95% de eficácia a partir de 28 dias após a primeira dose.

 

A Pfizer informou em um comunicado que, caso o pedido seja aprovado, sua vacina poderia começar a ser distribuída em dezembro em fases, começando pelos grupos de alto risco, incluindo profissionais de saúde, idosos e pessoas com problemas de saúde. Os trabalhadores essenciais, professores e pessoas sem-teto, bem como as que vivem em abrigos e prisões, provavelmente seriam os seguintes, e depois crianças e adultos jovens.

 

O Governo de Donald Trump planejou vacinar 20 milhões de pessoas pertencentes a esses grupos de risco, e depois entre 25 e 30 milhões de pessoas por mês. A velocidade desse processo não tem precedentes na história das vacinas. Em média, foram necessários oito anos para desenvolver as vacinas autorizadas na última década nos Estados Unidos.

 

Em março, a BioNTech propôs à Pfizer usar sua tecnologia inédita de RNA mensageiro no momento em que o mundo passava pelo primeiro confinamento. O primeiro voluntário recebeu a vacina no dia 23 de abril, na Alemanha, na primeira fase de testes. A fase 3, e última, começou em 27 de julho. Metade dos voluntários recebeu um placebo e a outra metade a vacina experimental, sem saber quem recebeu o quê. Os voluntários continuaram suas vidas normalmente, tomando os mesmos cuidados que a população em geral e progressivamente —com a explosão da pandemia nos Estados Unidos no outono— o número de casos de covid-19 entre o grupo placebo cresceu, mas não entre o grupo dos vacinados. Dos 170 casos registrados entre os participantes, 162 receberam o placebo e 8 a vacina, de acordo com comunicados dos fabricantes. As estatísticas indicam que uma pessoa vacinada tem 95% menos risco de contrair a doença do que uma não vacinada.

 

 

Uma vacina para o mundo

 

 

Espera-se que o processo de controle da FDA deve levar algumas semanas, e uma reunião do comitê assessor para analisar a vacina foi agendada para o início de dezembro. “A apresentação nos Estados Unidos representa um marco fundamental em nossa viagem para entregar uma vacina contra a covid-19 ao mundo, e agora temos uma imagem mais completa da eficácia e do perfil de segurança da nossa vacina, o que nos dá confiança em seu potencial”, disse o presidente e diretor executivo da Pfizer, Albert Bourla, em um comunicado.

 

O anúncio acontece dois dias depois de a Pfizer ter informado que em sua última avaliação da fase 3 a eficácia da vacina “era consistente segundo a idade, o gênero, a raça e a etnia” e que “a eficácia observada em adultos com mais de 65 anos era superior a 94%”. De acordo com a Pfizer, os dados demonstram que a vacina foi bem tolerada em todas as populações de seus participantes inscritos e que nenhum problema de segurança grave foi observado. Os únicos efeitos colaterais importantes foram fadiga (3,8%) e dor de cabeça (2%).

 

A Pfizer anunciou em 22 de julho que os Estados Unidos fizeram um acordo para comprar 100 milhões de doses de sua vacina por um total de 1,95 bilhão de dólares (cerca de 10,49 bilhões de reais) e a possibilidade de comprar 500 milhões de doses adicionais. A empresa espera produzir até 50 milhões de doses em nível mundial em 2020 e até 1,3 bilhão de doses até o final de 2021. Os Estados Unidos registraram 11.698.661 casos confirmados de coronavírus nesta quinta-feira e 252.419 mortes por covid-19, de acordo com a contagem independente da Universidade Johns Hopkins. O balanço representa um recorde absoluto de novos contágios, com 200.146 a mais em um dia, e também o maior número de mortes em 24 horas (2.239) desde o início de maio, em plena explosão da pandemia.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Democracia em suspense

O presidente dos EUA, Donald Trump, na Casa Branca nesta quarta-feira. MANDEL NGAN / AFP

 

Do El País

 

A democracia norte-americana, a principal potência mundial, enfrenta um de seus momentos mais importantes desde a Segunda Guerra Mundial. Donald Trump e Joe Biden lutam voto a voto em uma eleição presidencial com potencial para deixar uma marca duradoura no futuro do país e das relações internacionais, em uma tensa apuração que mantém em suspenso uma sociedade muito dividida e o mundo inteiro. A eleição parece que vai se tornar o maior teste em décadas para a solidez dos equilíbrios institucionais norte-americanos ―admirados desde os tempos de Alexis de Tocqueville―, cada vez mais questionados hoje.

 

Estão em jogo interesses de importância quase incomensurável. Certamente, um novo mandato para o projeto Trump, para o seu nacional-populismo incendiário, a explosão da multipolaridade como base das relações internacionais, o negacionismo climático e a polarização social como tática política; ou um retorno, pelas mãos de Biden, a políticas moderadas de progresso, inclusão e relações internacionais construtivas. Mas, antes de qualquer coisa e principalmente, estão em jogo a união da sociedade norte-americana e a estabilidade de sua democracia, que encara o tremendo desafio de um processo eleitoral questionado sem nenhum argumento ou escrúpulo pelo líder instalado na Casa Branca.

 

A desfaçatez e a temeridade do presidente em se considerar vencedor ―"francamente, nós ganhamos estas eleições"– quando havia milhões de votos a apurar, ou em acusar os adversários de “tentarem roubar” as eleições sem prova alguma, evidencia a falta de qualquer sentido de Estado por parte do presidente. Trata-se de um comportamento que não atende aos mínimos padrões democráticos. No entanto, nem essas características, amplamente mostradas ao longo dos últimos quatro anos, nem a péssima gestão da pandemia erodiram o enorme empuxo de seu projeto radical entre os cidadãos norte-americanos. Ganhe quem for, o ponto de partida do novo período político é novamente um país fraturado, onde a preferência radical conta com a dedicação de metade dos eleitores. É uma mensagem que ultrapassa as fronteiras da potência americana e da qual tomam nota os nacional-populistas de outros países do Ocidente, bem como os regimes autoritários que gozam diante do espetáculo da autodegradação das democracias liberais.

 

Trump construiu conscientemente este momento de tensão máxima ao longo dos últimos meses, desacreditando seguidamente o processo eleitoral. A gasolina que agora acrescenta a esse fogo bem preparado tem um perigo enorme, considerando a tensão acumulada na sociedade norte-americana. Uma nação dividida ―em grande parte pela própria ação polarizadora do presidente―que assistiu nos últimos meses protestos maciços pela situação insustentável da violência policial contra a população negra e pela discriminação que essa violência evidencia. Uma sociedade marcada por profundas desigualdades, pela explosão das pontes de diálogo político e que, além disso, sofre o terrível ataque da pandemia, em boa medida devido à gestão temerária desta realizada pela atual Administração norte-americana. A incerteza destas horas obviamente não contribuirá para fechar estas divisões; provavelmente irá ampliá-las, o que desperta grandes preocupações em um país muito armado.

 

Muito provavelmente o papel decisivo agora será desempenhado pelos juízes. Trump já anunciou que recorrerá à Suprema Corte, bastião ultraconservador graças às nomeações que o presidente fez ao longo de seu mandato. Não é a primeira vez que os Estados Unidos vivenciam apurações disputadas. Podem ser lembradas as eleições do ano 2000, disputadas por George Bush Filho e Al Gore. O braço de ferro foi resolvido pela Suprema Corte, que suspendeu a apuração. A solução não esteve isenta de polêmica, mas foi acatada de maneira exemplar. Hoje a situação é diferente: um dos adversários está na Casa Branca e a fratura no seio da sociedade parece enorme.

 

A tentativa deliberada de dividir seus concidadãos para fins partidaristas será um dos principais capítulos do julgamento da história sobre Trump. No aspecto internacional, o veredito versará sobre a sistemática explosão ou erosão de alianças, tratados e instituições globais: da saída do acordo contra a mudança climática à erosão da OTAN; da quebra da relação histórica com a Europa ao rompimento de pactos comerciais ou do acordo nuclear com o Irã; do questionamento da ONU aos ataques à OMC e à OMS. Em um novo período de quatro anos, caberia esperar mais do mesmo; mais protecionismo, mais negacionismo climático, mais xenofobia, mais unilateralismo. Possivelmente em doses reforçadas em relação ao primeiro mandato, graças à valentia insuflada pela reeleição.

 

Mesmo que acabem ganhando a presidência, Biden e o Partido Democrata, por sua vez, terão de refletir sobre como o projeto moderado do candidato e sua coalizão de voto urbano e minorias não consegue uma vitória convincente mesmo contra um oponente tão extremo como Trump. O Partido Republicano, mais cedo ou mais tarde, deverá refletir sobre como o furacão Trump o deixou desfigurado e irreconhecível.

 

A incerteza obviamente também mantém a comunidade internacional no suspense. As democracias liberais desejam uma vitória de Biden; os regimes autoritários, os partidários do Brexit, o Israel de Netanyahu e os nacional-populistas de todo o mundo, que Trump seja o vencedor. O resultado final, evidentemente, mas também a maneira como a democracia norte-americana irá administrá-lo, deixará uma marca profunda. O momento é grave e muita coisa está em jogo: sete décadas de florescimento desses valores democrático-liberais estão ameaçados por algo mais do que nuvens escuras. Os Estados Unidos e o Ocidente precisam de um desenlace à altura de sua história e de seu futuro.

Argentinos olham para o futuro com poucas esperanças, mergulhados em sua enésima crise econômica

Homem caminha em frente a uma casa de câmbio de Buenos Aires. JUAN IGNACIO RONCORONI / EFE


Do El País

 

“A situação econômica é catastrófica, as pessoas estão muito tristes”, diz Luis, atrás do balcão de sua loja de comida para animais de estimação em um bairro de classe média de Buenos Aires. A Argentina está acostumada a crises econômicas recorrentes, mas a pandemia de covid-19 agravou a enésima recessão que o país sofre, desta vez desde meados de 2018. O Produto Interno Bruto (PIB) da Argentina caiu 19,1% no segundo trimestre do ano, o maior colapso trimestral desde o início da série estatística em 1981. Entre janeiro e março de 2002, no pior momento da crise do corralito, que eclodiu no final de 2001, a economia havia retrocedido 16,3%.

 

A recessão atual teve um impacto severo sobre a parte inferior da classe média e, é claro, sobre os pobres. O Governo de Alberto Fernández protegeu o emprego formal com leis e subsídios, mas o golpe para quem não tinha contrato foi duro. Numerosos pedreiros, empregadas domésticas, garçons e trabalhadores do comércio, entre outras profissões com elevada proporção de trabalho informal, perderam os seus rendimentos ou os viram reduzidos a um valor abaixo do limiar da pobreza. O número de pobres cresceu mais de cinco pontos percentuais na primeira metade do ano: de 35,5% para 40,9%. Em 2017, último ano de crescimento da economia argentina, a pobreza era de 25,7%.

 

A pandemia também acabou com muitas empresas. Restaurantes, bares, salões de festas e academias baixaram as portas após meses de fechamento obrigatório para evitar a propagação da covid-19. Outros se transformaram em quitandas, lojas de ferragens ou de brinquedos. É o caso do negócio administrado por Federico Cillarroca. As piscinas de bolinhas e escorregadores que recebiam as crianças nesse salão de festas infantis de aniversário desapareceram e ele passou a colocar à venda brinquedos de todos os tipos. “Estamos fazendo o possível para superar o choque. Continuamos pagando os empregados, o que não é pouco. Há muitas famílias que dependem disso, animadores, garçons, maquiadores, mágicos, a moça que faz os bolos, os fornecedores de salgadinhos ... São 20 ou 30 famílias, por aí”, diz. Cillarroca.

 

“Estar na Argentina significa ter muitas crises, com quedas e altas no consumo, quedas e altas na lucratividade, e é preciso ir lidando com tudo isso, temos alma de empreendedores. Mas isto agora é diferente, todo fechou. Receita zero e as despesas se mantiveram”, lamenta Cillarroca. É a mesma opinião da gerente de uma academia próxima, Carolina Vielman. Reabriram as portas nesta semana, após 222 dias de fechamento obrigatório, e estão de volta à atividade com menos de um terço dos clientes que tinham em março: passaram de 1.400 para 400.

 

O subsídio que o Governo deu a milhares de empresas contribuiu para que pagassem parte dos salários aos empregados, mas muitos negócios acumulam grandes dívidas com a Receita ou com as empresas que fornecem luz, água e luz, e não sabem como vão saldá-las. “Está tudo muito tranquilo, não se vende quase nada”, lamenta Miriam, dona de uma papelaria que não se lembra de um momento mais difícil nos cinco anos em que está com a loja aberta.

 

Julio Cabrera escolheu o caminho oposto de muitos: crescer para sobreviver. “Cresci porque este item não caiu com a pandemia. Além disso, tinha que deixar as instalações anteriores e baixar as portas seria fechar definitivamente e parar de vender”, diz este vendedor de brinquedos de 44 anos, pai de três filhos.

 

Sem acesso aos mercados de crédito até que o Governo renegocie a dívida com o FMI, a Argentina financia a paralisação econômica da pandemia com a emissão de moeda. Somente no primeiro semestre, o Banco Central emitiu mais de 1,35 trilhão de pesos (98,3 milhões de reais) para cobrir o déficit fiscal e financiar subsídios como a Renda Familiar de Emergência, distribuída a nove milhões de pessoas. O nível de emissão é tão alto que a Argentina teve que importar 400 milhões de notas do Brasil.

 

 

À espera de uma desvalorização

 

 

A emissão aumenta a pressão inflacionária —em setembro houve alta de 37% em relação ao mesmo período do ano anterior—, mesmo neste contexto de crise e com severos controles do mercado de câmbio. O dólar é vendido a 83,50 pesos no mercado oficial, no qual há cada vez mais obstáculos para acesso, e a mais do que o dobro —169 pesos por dólar, mas chegou a 200 pesos há uma semana— no mercado paralelo.

 

Ninguém acredita que a defasagem cambial possa permanecer tão elevada, por isso há o temor de uma desvalorização que acelere ainda mais os preços.

 

“Não posso comprar dólares, então, estoco mercadorias”, diz Luis, mostrando um lugar por onde mal consegue se mover tantos são os sacos enormes de comida para cães e gatos. “No ano passado já vimos isso, o peso desvalorizou-se em 20% e de um dia para o outro essa perda foi transferida para os preços”, argumenta para justificar a compra antecipada.

 

“Há muita gente querendo trabalhar, mas tudo está parado por vários motivos. Um, porque as prefeituras não estão funcionando e não emitem alvarás de construção. Quando trabalharem, vai haver uma grande quantidade de licenças e um funil aí também. Depois, acontece que há obras que estão sendo feitas, mas não há nem ferro nem concreto porque as cimenteiras e as siderúrgicas não estão entregando, estão açambarcando, esperando a desvalorização. Mesmo se você quiser construir, não pode”, afirma Roberto Barcala, arquiteto autônomo.

 

Além da transformação de muitos negócios, este arquiteto acredita que a pandemia também trará mudanças urbanísticas importantes, como se vê no súbito interesse pelos countries, que é como chamam na Argentina os condomínios privados na periferia das cidades. Muitos escritórios do centro da cidade ficaram desertos e, pelo contrário, o teletrabalho obrigou a reorganizar o interior das casas.

 

O futuro imediato preocupa os argentinos. O aumento do preço das matérias-primas ajudou a Argentina a sair da crise de 2001-2002, mas o contexto internacional agora é muito diferente, com uma recessão mundial. "Ano que vem será pior, estou com muito medo. Acho que se não tivesse família iria morar no exterior ", prevê Luis, pai de dois filhos adolescentes. Outros, como Cabrera, o vendedor de brinquedos, confiam na recuperação do país: “Sempre penso para cima, senão, fecho e começo a vender sanduíches. A situação é muito complicada, mas sou muito otimista. No ano que vem estaremos melhor. O que mais podemos pensar? É preciso seguir de alguma maneira”.