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| Membros da OMS e líderes mundiais participam de assembleia virtual do órgão, na segunda. / EL PAÍS |
El País
“Investigações preliminares realizadas pelas autoridades chinesas não encontraram uma clara evidência de transmissão do vírus de pessoa para pessoa.” Esta mensagem, publicada em 14 de janeiro pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em sua conta do Twitter, acabou virando munição contra sua gestão da epidemia.
A informação afinal era
falsa, como o mundo ficou sabendo de uma forma dolorosa, enquanto os
equilíbrios da geopolítica levaram a OMS a hesitar na hora de declarar
emergência sanitária internacional. Tampouco escapou aos críticos o delicado
tratamento que o diretor-geral do organismo, Tedros Adhanom Ghebreyesus, sempre
dispensou ao gigante asiático, com boas palavras que se mantinham apesar das
sucessivas mudanças que as novidades sobre o vírus obrigavam a adotar em
questões tão importantes como o uso de máscaras e os infectados assintomáticos.
“São críticas interessadas”,
lamenta Fernando García Benavides, catedrático de Saúde Pública na Universidade
Pompeu Fabra, de Barcelona. “Claro que a OMS se equivocou em algumas coisas,
como muitos de nós. Mas utilizar isso para desqualificar um organismo
necessário e que apesar de tudo tem feito um trabalho importante me parece um
erro”, acrescenta.
O tuíte da OMS foi publicado
quando fazia apenas uma semana que um vírus desconhecido era o responsável pelo
amontoado de pneumonias surgidas em Wuhan. “Estávamos diante de algo totalmente
novo. E não se deve esquecer que o conhecimento científico é um processo de
tentativa e erro”, acrescenta García Benavides.
A OMS recuou sobre as
máscaras em 6 de abril, quando, depois de várias semanas defendendo que não
eram recomendadas para pessoas saudáveis, começou a contemplar seu uso. Também
foi modificando posições sobre as restrições aos movimentos individuais. Mas,
de novo, os especialistas concordam: “Mudou o mundo, como não vão mudar algumas
posições dos organismos internacionais?”, questiona Daniel López Acuña,
ex-diretor de Ação Sanitária em Crises da OMS.
López Acuña nem sempre
aplaudiu as decisões do organismo. No fim de janeiro, criticou o fato de a OMS
ter precisado de três reuniões e sete dias para decretar a emergência internacional.
“Não ter feito isso na semana passada criou um vazio de autoridade sanitária
internacional, que é justamente o papel que ela deve exercer. Isto permitiu que
outros atores, como Governos e companhias aéreas, adotassem suas decisões de
forma unilateral, o que é o pior cenário”, recriminou na ocasião.
Isso não impede que, com
algumas ressalvas, continue defendendo o papel de organismos multilaterais que
são o principal alvo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “Isto é
uma guerra fria, neste caso econômica e contra a China, que também vai mudando
de cenário segundo o contexto. E agora este campo de batalha é a OMS”,
acrescenta López Acuña, professor na Escola Andaluza de Saúde.
“Mas também existem outras
críticas, neste caso estruturais, que não são novas e merecem ser ouvidas.
Refiro-me a potencializar o Regulamento Sanitário Internacional para dotar a
OMS de melhores ferramentas em caso de pandemia, tornar vinculantes algumas de
suas decisões e dar mais peso a outras”, acrescenta. Para os especialistas, o
organismo sofreu um duro golpe quando muitos países grandes resolveram ignorar
suas orientações sobre o fechamento de fronteiras, entre outros pontos-chave
para o combate à pandemia.
Levadas ao extremo, algumas
teorias conspiratórias acusam a China de ter desenvolvido o vírus em um
laboratório e consideram que a OMS ajudou o gigante asiático a ocultar este
fato com seu suposto adesismo inicial e com as posteriores mudanças em suas posições.
No final de abril, o diretor do laboratório de coronavírus do Centro Nacional
de Biotecnologia da Espanha, Luis Enjuanes, descartava essa hipótese: “É
absurda. Não se sustenta que nenhum laboratório esteja preparando um agente
patogênico sem ter de antemão a vacina, porque o primeiro alvo contra o qual [o
vírus] pode se voltar é esse mesmo laboratório”, observou.
Avaliação interna
Em um documento de sete
páginas aprovado na segunda-feira pela assembleia geral da OMS, os países
participantes se comprometem a “iniciar, assim que se der o momento propício, e
em consulta com os Estados membros, um processo imparcial, independente e
exaustivo de avaliação” da gestão da pandemia pelo organismo.
“É um mecanismo muito comum
nos organismos da ONU”, explica López Acuña. “Isto permite escapar de possíveis
vieses de uma avaliação interna. É melhor que seja externa, com especialistas
reconhecidos internacionalmente que agora serão escolhidos”, acrescenta. Esse
especialista considera que a abertura da investigação “é uma resposta a Donald
Trump, mas não só a ele”, e que também é um bom sinal, “já que mostra que os
dirigentes da OMS não estão entrincheirados, e sim abertos a uma avaliação de
sua gestão”.












