Ex-ministro de Lula, Ciro
Gomes (PDT-CE) torce para que o petista não concorra à Presidência. Pelo país
("seria um desserviço") e por ele, que se vende como o nome
progressista para 2018. "Não tenho a menor vontade de ser candidato se o
Lula for", diz.
Ele já tentou chegar ao
Planalto em 1998 (11% dos votos) e 2002 (12%). Diz o anedotário político que,
na última tentativa, morreu pela boca, ao chamar um eleitor de
"burro" e dizer que Patricia Pillar, então sua esposa, tinha o
crucial papel de "dormir comigo".
A língua continua afiada.
Em uma hora de conversa, critica o "farsante" João Doria, o
"exibicionista" Sergio Moro e o "golpista" Michel Temer.
Folha - Em outubro, o Sr.
disse que Lula brincou de Deus e se queimou. Ele seria seu maior rival?
Ciro Gomes - Temos longa
história de parcerias e diferenças. Votei nele em 1989 [no segundo turno], 2002
e 2006. Na Dilma em 2010 e 2014. Entretanto, acho que nesse momento a
candidatura do Lula desserve a ele e ao país. Na melhor das hipóteses, ganha e
projeta essa confrontação odienta que está rachando o país. Mas a probabilidade
de polarizar e perder é muito alta.
É hora do PT apoiá-lo?
A natureza do PT, e é
legítimo isso, é ter candidato próprio. Talvez o ideal fosse apresentar uma
nova liderança.
Em 2008, a Folha o
questionou se aceitaria ser vice de Lula. O sr. respondeu: "Admito ser
qualquer coisa. Não fui ministro com a maior honra?"
Serei bastante categórico:
não serei vice de ninguém.
Em vídeo, o Sr. aparece
dizendo que ele é "um merda" que não é "inocente de nada".
As pessoas editam.
Falaram: "Você é um aliado do Lula, o Lula é um merda". Eu disse:
"O Lula é um merda, mas tem direito a presunção de inocência". É
totalmente o oposto do que pareceu [no vídeo, um manifestante questiona:
"Onde é que na história está escrito que o Lula é inocente, doutor?"
Ciro: " Inocente nada, o Lula é um merda"].
Marina Silva é a única, em
Datafolha de dezembro, que venceria Lula no segundo turno.
Veja, Marina é uma boa
pessoa. Mas não tem visão administrativa. Hostiliza, no simbólico, o
agronegócio, a mineração. Evidentemente nada autoriza nenhum deles a nenhum
tipo de abuso. Mas o descuido da Marina com a vida real faz com que ela
apresente, como sua única proposta que conheço concreta, uma aberração, que é a
independência do Banco Central.
Bolsonaro tem 9% das
intenções de voto, quase o dobro do que o sr. registra [5%].
Há um pensamento que se
representa no que Bolsonaro diz, e que tem direito de se expressar. E
taticamente ele presta ao país um serviço, pois esse eleitorado do antipetismo
se concentrava todo no PSDB.
O que representa o avanço
de um candidato tão extremista?
Esse pensamento sempre
existiu. O que fez foi sair do armário, pela debacle do PT. Nós do mundo
progressista deixamos parte da população imaginar que nosso apreço aos direitos
humanos parece contemporizar com a impunidade. Há pessoas que imaginam soluções
toscas, que veem muita verdade em "bandido bom é bandido morto".
Temer, a quem você chama
de golpista salafrário, disse que será o presidente mais nordestino que o país
já teve.
Bote aí que dei uma
risada. Ele, para além de ser essa coisa constrangedora de chefe de quadrilha,
sendo um velho e notório malversador de dinheiros públicos, virou chefe de um
governo de patetas.
O Sr. disse que o
"dr. da Lava Jato [Sergio Moro] errou".
O exibicionismo midiático,
ir ao Facebook agradecer o apoio de todos, as gravatinhas borboletas em todo
tipo de solenidade, a confraternização descuidada com possíveis réus, a fraude
com a gravação da presidente [divulgação do grampo de ligação entre Dilma e
Lula] – o que nos EUA é considerado traição e gera até pena de morte, só para
ter a relativização dessa leviandade. Isso tudo semeia a semente de matar essa
coisa importante que seria a Lava Jato, que ainda pode ser o momento de virada
na impunidade. Mandar prender um blogueiro, tem uma coisa patológica nisso. Não
falo com prazer, falo com dor. Operação Satiagraha? Anulada inteira. Daniel
Dantas, culpado de tudo? Tá com atestado de inocente.
Em entrevista, o sr.
criticou a condução coercitiva do blogueiro Eduardo Guimarães, desafiou Moro a
prendê-lo e disse que receberia "a turma dele na bala". O que quis
dizer?
Desta vez foi um
blogueiro, mas amanhã pode ser um repórter da Folha. Não está certo. No momento
que o país passa por um golpe de Estado, não podemos nos acovardar diante do
autoritarismo.
O sr. disse que prefere
mil vezes Bolsonaro ao prefeito de SP, João Doria. Por quê?
Antes eu perguntei se,
entre os dois, vale morrer. Dito isso, prefiro um cara tosco e franco a um
farsante. Conheço [Doria] de longuíssima data. O antipolítico, o empresário...
Tem dois probleminhas básicos [nessa imagem]. Doria foi chefe da Embratur no
governo Sarney. Saiu debaixo de muitas irregularidades no Tribunal de Contas da
União e foi violentamente criticado por uma propaganda do turismo brasileiro
com bundas de mulher na praia, estimulando claramente o turismo sexual. A
segunda coisa: Doria reforçou muito a grande fortuna dele, do liberal, com
dinheiro público dos governos do PSDB de Minas e SP, por exemplo.
Doria afirmou que o Sr. é
emocionalmente instável. Não é o primeiro. Você tem um problema de
temperamento?
Não me parece. Quem deve
dizer isso é o meu psiquiatra.
O sr. tem um psiquiatra?
Não [risos]. Mas repare
uma coisa: tenho 37 anos de vida pública. Não tenho rádio, TV, empresa, nunca
aceitei receber as pensões imorais que a Legislação me deu direito. Isso tudo
me faz um cara meio estranho mesmo. E o que dizem de mim é que eu sou o cara
que fala muito, que fala as coisas por destempero. Não é. Arroubos, se algum
ser humano não tiver, me ensine.
Muitos políticos fazem
"media training" para contê-los.
Já fiz com os melhores do
mundo.
Carrega alguma lição?
[Uma especialista] sempre
me estimulou a manter minha linguagem, meu sotaque, meu jeito de ser. Só tenho
como ferramenta minha língua. Fui governador, prefeito, comandei a economia
como ministro da Fazenda, fui ministro da Integração Nacional. Eu que fiz este
projeto do rio São Francisco que tá cheio de pai, e vai ver se não entreguei
serenamente essas tarefas?
Donald Trump, outro
acusado de destempero, virou presidente dos EUA. O estilo "direto ao
ponto" virou um ativo?
Em tempos bicudos, as
pessoas procuram franqueza. Estão percebendo que um dos elementos fracos da
política é o moralismo de goela pra depois roubar. Nunca tive tanta audiência nessa
vida.
Já ser de esquerda hoje
parece um passivo no mundo todo.
Não vejo esse pensamento
de direita florescer, não. Por que o Trump é de direita? Populista, sim, ok.
Mas a vitória dele foi importante. Ele representa a negação da perversão
neoliberal. E, no Brasil, o problema não é de direita e esquerda. A política
econômica do Lula é igual à do FHC.
O Sr. já passou por sete
partidos. Começou no PDS, sucessor do militar Arena. Por que tanto troca-troca?
Meu problema é que eu
tento ser correto. Ajudo a fundar o PSDB, por exemplo. Elegemos o FHC, que
escolhe o PFL [atual DEM] para vice, diz para o povo esquecer o que ele
escreveu, faz o PMDB entrar no governo com Eliseu Padilha, Romero Jucá, essa
mesma turma. Para ser coerente, fico ali calado ou criando caso?
Acha que eleição deve ter
financiamento público?
Em 1995, escrevi um livro
com Mangabeira Unger ["Uma Alternativa Prática ao Neoliberalismo"].
Está lá que devíamos ter voto distrital misto, lista fechada e financiamento
público de campanhas. Evidentemente que hoje não posso aceitar que essas ideias
sejam feitas pelo expediente golpista dos canalhocratas querendo escapar da
severidade do voto popular.
Aceitaria para sua
campanha dinheiro de empreiteiras envolvidas na Lava Jato?
Se a lei permitir, sem
dúvida. O que é corrupto é ter toma lá dá cá, superfaturar obras, exigir
propina. No Brasil estamos confundindo corrupto com empresa. Isso é sandice.
O Sr. é próximo de algum
político envolvido na Lava Jato?
Sempre fui muito amigo do
Aécio [Neves]. É constrangedor. Do Ciro Nogueira [presidente do PP]. Quem mais?
O Léo Pinheiro [ex-presidente da OAS]. O que pega é catapora.
O Sr. é acusado de
truculência no trato com manifestantes, como rasgar cartazes.
Vou ali conversar sem
segurança, a pessoa esfrega papel no seu rosto, o que você faz? Me liga a
cunhada à 1h30 dizendo que ameaçam de morte meu irmão. Vou deixar bater nele?
Sou pessoa física, não tenho cargo de majestade.
Qual sua estratégia para
2018?
Tenho que manter minha
intransigência sem parecer um cara incapaz de dialogar e tenho que olhar para o
futuro, se Lula é candidato ou não.
Recuaria com Lula no
páreo?
Não tenho a menor vontade
de ser candidato se o Lula for. Menos em homenagem a ele e mais porque a
tendência é ele polarizar o processo. E eu ficar falando de modelo econômico...
Vou ter um papel nobre, vou lá para meus 12%, 15% no mínimo, mas daí dizer para
o povo que acredito que vou ser presidente... Não consigo mentir desse jeito.