sábado, 31 de outubro de 2020

Sean Connery, o ator que se consagrou como James Bond, mas não ficou refém do personagem

Sean Connery em um evento em Washington, em 2001. MARK WILSON / GETTY

 

Do El País

 

A fuga mais espetacular estrelada por Sean Connery foi associar sua imagem à de James Bond para a eternidade e conseguir deixar para trás o personagem para consolidar uma carreira artística de prestígio incomparável. O ator escocês (Edimburgo, 1930) morreu neste sábado, aos 90 anos, “pacificamente, enquanto dormia, em sua casa nas Bahamas, após um breve período de doença”, explicou seu filho Jason. Connery nunca esqueceu os dois traços principais que o marcaram desde o início: sua origem humilde e escocesa. E ele estava determinado a pagar as duas dívidas.

 

Nascido em um bairro da classe trabalhadora de Edimburgo, o filho de um motorista de caminhão e de uma faxineira tornou-se o ícone por excelência de elegância, classe e sucesso. E não precisava se livrar do forte sotaque escocês, embora durante anos tenha camuflado sua calvície: quando deixou Bond para trás, ele não dedicou mais nenhum minuto de suas preocupações ao personagem. A revista People o escolheu em 1999 como “o homem mais sexy do século”. O ator Alec Baldwin diz que, quando foi convidado para estrelar The Hunt for Red October e compartilhar o pôster com Connery, respirou aliviado. O escocês tinha então 60 anos. “Foi na primeira cena que filmamos, quando ele apareceu com aquele cabelo prateado e sua voz foi ouvida, e eu percebi que não tinha nada para fazer, meu papel já havia impregnado por todo o filme”.

 

O jovem Sean não imaginava que seu futuro estivesse no cinema. Ele se alistou na Marinha Real Inglesa em 1946 e, em seu retorno, trabalhou como leiteiro, praticou fisiculturismo e ganhou um terceiro lugar honroso em um concurso de Mister Universo. Até que ele se juntou a uma companhia de teatro itinerante e começou a conseguir papéis cada vez mais relevantes. Antes de ser o Agente 007, ele seduziu Lana Turner em Mists of Restlessness e foi o amante de Anna Karenina, o Conde Vronski, na adaptação da peça para a BBC em 1961. James Bond, então, mudaria sua vida. Era difícil pensar em um ator escocês personificando o sofisticado agente secreto da imaginação de Ian Fleming, um escritor culto, elegante e esnobe, educado em uma escola particular em Eton, o berço das elites britânicas. Fleming ficou horrorizado com a escolha, para a qual nomes como Cary Grant ou David Niven haviam sido cogitados.

 

James Bond, seu personagem mais marcante


Quando viu Connery em Agente 007 vs. Doutor No, o escritor refez partes de seus romances e roteiros para dar ao protagonista uma ancestralidade meio escocesa. "Foi um privilégio conhecer o Sean. A última vez que falei com ele, ficou claro que sua saúde estava falhando, mas a voz, o espírito e a paixão que todos nós amamos nele ainda estavam lá. Eu vou sentir falta dele. A Escócia vai sentir sua falta. O mundo vai sentir falta dele ", escreveu o ministro-chefe escocês Nicola Sturgeon ao ouvir a notícia de sua morte. Apenas mais uma entre a enxurrada de vozes públicas que se somaram às condolências. Atores, produtores, políticos e até mesmo a montadora britânica Aston Martin, cujo nome sempre esteve associado à imagem de Bond, mas principalmente de Connery. “Descanse em paz, Sean Connery. Antes de interpretar James Bond, ele serviu seu país quando jovem, na Marinha Real, a bordo do HMS Formidable”, tuitou o Ministério da Defesa do Reino Unido.

 

Connery posa com um Aston Martin DB5, de 1964


A encarnação do espião “a serviço de Sua Majestade”, que consolidou a imagem do personagem ao longo de sete filmes, foi paradoxalmente escocesa e profundamente britânica. “Não somos deuses, mas somos ingleses, que é o mais próximo que você pode ser”, disse Peachy Carnehan, O Homem Que Poderia Reinar, na adaptação premiada do diretor John Huston do conto de Rudyard Kipling. Sean Connery e Michael Caine. Dois deliciosos iconoclastas que provaram que a elegância não tem outra receita senão a autenticidade.

 

Enquanto o resto da humanidade debatia quem era o melhor Bond, Connery continuou a criar personagens humanos com incrível virilidade e firmeza. Ou com um magnetismo tão poderoso quanto a própria voz do ator. A busca do conhecimento, da ternura e da habilidade de detetive de Guillermo de Baskerville, em O Nome da Rosa (1987); a honestidade e dureza de Jim Malone, o veterano policial de Os Intocáveis (1987); o terno e crepuscular Robin Hood de Robin e Marian (1976); ou Henry Jones, o excêntrico, travesso e sedutor pai de Indiana Jones em Indiana Jones e a Última Cruzada (1989).

 

'Os Intocáveis', dirigido por Brian de Palma e interpretado por Andy García, Sean Connery, Kevin Costner y Charles Martin Smith


Connery nunca se esqueceu da Escócia. Em 1967, dirigiu pela primeira e última vez um documentário em preto e branco intitulado The Bowler And The Bunnet, no qual o ator narrava em primeira pessoa as ruínas deixadas pela reconversão dos estaleiros escoceses. E ele mostrou seu apoio ao movimento pela independência durante o referendo de 2016 e em anos anteriores. Parte de sua imensa fortuna como ator foi destinada para ajudar jovens escoceses com o Scottish International Educational Trust, que ele fundou em 1971. “Eles me pediram para fazer outro filme de James Bond, e eu disse que não, porque estava farto do personagem. Mas então percebi que seria uma boa ideia dedicar 14 semanas de trabalho a 007, os Diamantes são Eternos em troca do milhão de dólares do contrato indo direto para a fundação”, explicou o próprio ator em um documentário sobre sua vida produzido pela BBC.

 

“Ele tinha um carisma extraordinário”, diz a atriz Julia Ormond, que interpretou Guinevere em Lancelot, o primeiro cavaleiro diante de Connery como Rei Arthur. “E não sei se tem a ver com ter uma vagina ou não, porque conheço muitas pessoas sem vagina que consideram isso incrivelmente sexy.” Sua capacidade de sedução correspondia a uma época, agora muito distante, em que se tolerava certa condescendência verbal em relação à violência contra a mulher. E Connery tinha algo disso. Seu primeiro casamento, com a atriz Diane Cilento, durou 11 anos e foi marcado por acusações de maus-tratos. Seu segundo matrimônio, com a pintora franco-marroquina Micheline Roquebrune, durou até o fim de sua vida.

 

Sean Connery relaxa entre as filmagens de 'Diamantes são Eternos', em 1971.ANWAR HUSSEIN / GETTY


Frequentador de Marbella, paraíso turístico do litoral espanhol, o glamour do ator acabou maculado por uma questão judicial envolvendo a reclassificação irregular de terras. A essa altura, ele já havia estabelecido sua residência em Nassau e nunca compareceu ao julgamento alegando problemas de saúde. Hoje, o James Bond representado por Daniel Craig é um personagem complexo e atormentado que duvida da própria vida amorosa, mas o ator britânico definiu Connery como o homem que marcou uma época e um estilo, “com um brilho e elegância em tela que poderiam ser medidos em megawatts”. Ele sempre manteve as duas tatuagens de seu tempo na Marinha: “Mum and Daf” (mamãe e papai) e “Scotland Forever” (Escócia sempre). As duas origens que sempre o acompanharam, “agitadas, não mexidas”, como o Dry Martini de Bond.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Com bate-boca entre ministros, STF abre batalha interna sobre “superpoderes” ao presidente da Corte

O presidente do STF, Luiz Fux, durante julgamento do Tribunal. EVARISTO SA / AFP


 Do El País

 

Após dois dias de julgamento, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta quinta-feira, por 9 votos a 1, manter a decisão de Luiz Fux, presidente da corte, de derrubar uma liminar monocrática do ministro Marco Aurélio Mello que dava liberdade ao traficante André de Oliveira Macedo, o André do Rap, foragido desde o sábado (10). A votação, no entanto, acabou em segundo plano diante de uma discussão que começou a ganhar corpo na quarta-feira e explodiu com força no plenário hoje: a possibilidade de que o presidente da corte tenha o direito de cassar por conta própria uma decisão de outro ministro que, em teoria, é o seu par ―ou seja, conceder uma espécie de “superpoder” ao condutor do tribunal, cujo mandato dura dois anos.

 

A disputa em torno do tema foi explicitada pelo próprio Marco Aurélio Mello. Durante seu voto – o único a favor da manutenção da própria liminar ―, ele afirmou que “o que está em jogo nesse julgamento é saber se o presidente pode tirar a tutela de um caso jurídico de um par da corte”. Disse ainda que o presidente “não pode ser um censor entre seus iguais, levando o Supremo ao descrédito”. Na mesma linha, Ricardo Lewandowski disse que isso significaria transformar os presidentes dos tribunais em “superministros”, com mais poderes que os demais integrantes da corte. Ele defendeu que os magistrados mantenham o poder de tomar decisões monocráticas com maior facilidade em casos urgentes, citando como exemplo sua decisão que permitiu ao EL PAÍS e à Folha de S. Paulo entrevistarem em abril de 2019 o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, então encarcerado em Curitiba.

 

Gilmar Mendes, um dos mais veementes contra os “superpoderes”, disse que, caso essa possibilidade seja aceita, ela teria que ser estendida para todos os demais tribunais do país ―o que geraria, segundo ele, “uma grande jabuticaba, toda uma jabuticabeira, uma verdadeira confusão”. Para o ministro, caso a decisão seja adotada, a presidência das cortes passaria a funcionar como “censura da ordem pública”, criando “uma hierarquia que não existe dentro do tribunal”. A própria fala de Mendes dá uma ideia da dimensão que a disputa ganhou sobre o Supremo. Ele falou por quase uma hora sobre a questão dos “superpoderes” ―e menos de 30 minutos sobre a decisão supostamente principal em jogo.

 

Por sua vez, ao final do voto de Mello, Fux tentou negar a possibilidade de ganhar novos poderes. Segundo ele, a decisão adotada no caso de André do Rap foi uma “circunstância excepcionalíssima”. Em sua fala, afirmou que “não tenho nenhuma pretensão de ter superpoderes, mas tenho toda a intenção de manter a imagem do Supremo Tribunal Federal”. Não parece ter sido o suficiente para acalmar os ânimos. A tensão foi detonada no final do julgamento, com um início de bate-boca entre Fux e Mello. “Só falta essa, Vossa Excelência querer me ensinar como votar. Não imaginava que seu autoritarismo chegasse a tanto”, disse Mello, achando que estava sendo pressionado pelo presidente. “Só falta Vossa Excelência querer me peitar para eu modificar meu voto”. Fux se limitou a responder pedindo respeito a ele e ao tribunal como um todo.

 

“Uma só voz”

 

Negativas à parte, ontem mesmo uma outra ala dos ministros havia sinalizado a possibilidade de diminuir o poder individual dos magistrados, com uma alteração no regimento interno que faria com que a maior parte das decisões monocráticas tivesse que ser analisada de forma rápida pelo pleno do colegiado, formado por 11 ministros, que poderia ou não confirmar a decisão. Nas palavras do ministro Luís Roberto Barroso, “devemos falar sempre a uma só voz, sem que ninguém possa individualmente personificar o tribunal. Importa em perda de poder do relator mas, ao meu ver, é compensado pelo fortalecimento do tribunal”. Algo que deverá enfrentar forte resistência de parte dos ministros, como evidenciado hoje.

 

Caso essa medida avance, seria uma espécie de desdobramento da decisão tomada no início do mês de devolver ao plenário ―ao invés de deixar os julgamentos concentrados nas duas turmas da instituição ―todos os inquéritos e ações penais envolvendo autoridades com foro privilegiado, como políticos, ministros e juízes de outros tribunais. Na ocasião, o movimento foi visto como uma tentativa de blindar a corte da influência do presidente da República, Jair Bolsonaro, que deverá indicar pelo menos dois ministros para o STF até 2022 ―mas com a consequência de diminuir o peso individual dos ministros.

 

Sem surpresas

 

No julgamento do caso propriamente dito de André do Rap, não houve surpresas. A decisão estava desenhada desde ontem, quando seis integrantes do Supremo haviam formado maioria para a decisão de Fux em derrubar a liminar de Mello. Hoje, mais três ministros ―Cármen Lúcia, Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes ―também se manifestaram favoravelmente à decisão, argumentando que a soltura do preso não deve ser automática após o fim do prazo legal, o principal argumento usado por Mello para libertar o criminoso.

 

Já o próprio Marco Aurélio Mello defendeu sua postura: “não me sinto, em que pesem as inúmeras críticas, no banco dos réus”. Segundo ele, “a regra é a liberdade, e a exceção é a prisão, embora os que têm a chibata na mão não pensem assim”. Em seu voto, o ministro afirmou que houve falha do juiz responsável por analisar o afastamento de André do Rap antes do vencimento do prazo de 90 dias da prisão preventiva, como prevê a lei aprovada recentemente. Segundo ele, boa parte dos detidos no sistema penitenciário brasileiro está em situação inconstitucional. Foram dez votos, uma vez que a vaga do ministro Celso de Mello – aposentado oficialmente esta semana – ainda não foi preenchida. Kássio Nunes, indicado por Bolsonaro, deverá ser sabatinado pelo Senado na próxima semana.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Bolsonaro anuncia Kássio Nunes para o STF, para crítica de aliados que pediam alguém mais conservador

 

O desembargador Kássio Nunes. SAMUEL FIGUEIRA/TRF-1 /

Do El País

 

O presidente Jair Bolsonaro oficializou nesta quinta-feira a indicação do desembargador Kássio Nunes Marques, de 48 anos, para a vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), que será aberta em 13 de outubro com a aposentadoria de Celso de Mello. A indicação ocorreu em transmissão ao vivo em suas redes sociais. Segundo o mandatário, o nome de Nunes Marques constará do diário oficial desta sexta-feira, dia 2. O magistrado tem apoio do Centrão, fisiológico grupo de centro direita que tem comandado a base de apoio de Bolsonaro no Congresso Nacional. O presidente do Progressistas e investigado na Operação Lava Jato, o senador Ciro Nogueira, é o seu principal cabo eleitoral no Senado. Para ser nomeado, o desembargador passará uma sabatina no Senado.

 

O nome de Nunes Marques passou a ser ventilado pelo presidente na quarta-feira passada e foi considerado uma surpresa até pelos aliados mais próximos, já que o mandatário tinha dito em diversas ocasiões que indicaria uma pessoa “terrivelmente evangélica” para a Corte. Ele é católico e sem trajetória explícita de votos conservadores nos costumes. Foi advogado entre 1994 e 2011, quando foi indicado passou a compor o Tribunal Regional Federal da 1ª Região por indicação da presidenta Dilma Rousseff (PT).

 

A confirmação do presidente ocorre antes mesmo da aposentadoria oficial de Celso de Mello, o que foi considerada uma indelicadeza do Planalto com o decano, uma autoridade moral na Corte. A pressa de Bolsonaro foi uma tentativa de diminuir as críticas vindas da militância bolsonarista, que sempre esperou um juiz conservador no tribunal. Nunes Marques é um crítico das posições da Lava Jato, o que sinaliza que o presidente decidiu acenar à sua base de apoio no Congresso, acossada pela operação.

 

Nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp que servem de base de sustentação ao bolsonarismo, as críticas eram de que o presidente estaria privilegiando um “petista de carteirinha”. Uma das mensagens que circulou foi de que, à diferença de seu ídolo Donald Trump, que nomeou uma conservadora antiaborto ao Supremo, Bolsonaro se dobra ao sistema: “Acorda, Bolsonaro!!! Enquanto Donald Trump coloca na sua alta corte uma juíza conservadora, aqui o presidente que se elegeu com a pauta conservadora quer colocar um juiz alinhado com a esquerda progressista e com o pior da politicagem no Congresso”.

 

Até então, Nunes Marques tinha um perfil discreto. Em Brasília ele vinha se apresentando como potencial ministro do Superior Tribunal de Justiça, o tribunal imediatamente anterior ao STF. Teve destaque no noticiário nacional quando decidiu derrubar liminar da primeira instância que havia suspendido uma licitação do STF para contratar fornecimento de comida, que incluía insumos de luxo, como lagosta. As compras foram mais um episódio usado por críticos, em especial estridentes nomes da base bolsonarista, contra a Corte. Segundo análise da BBC Brasil, o desembargador também se mostra próximo do Governo Bolsonaro ao julgar questões indígenas, ambientais e de interesse do setor agropecuário. Em 2019, o desembargador vetou a retirada de não indígenas do território da etnia Bororo, no Mato Grosso.

 

“Queriam quem? Sergio Moro?”

 

Nesta quinta, Bolsonaro aproveitou a transmissão ao vivo para responder aos críticos. Afirmou que seu indicado estava levando “tiros” à toa. “Todo mundo aqui ao longo de 14 anos de PT teve alguma ligação”. E complementou: “Ano passado todo e até abril neste ano, vocês [militantes] queriam quem para o Supremo? O Sergio Moro”, o ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro da Justiça que rompeu ruidosamente com o Governo no primeiro semestre. Bolsonaro lembrou que, quando Moro deixou o Governo, recebeu várias queixas em suas redes sociais. “Diziam no meu Facebook: Acabou, acabou!”.

 

O presidente disse que havia dez excelentes currículos sobre sua mesa, mas que queria indicar ao STF alguém quem conhecia, com quem se relacionava. Por isso, escolheu Kássio Nunes, com quem já tomou umas “tubaínas”. Enquanto a transmissão ocorria, diversos internautas reclamavam: “#conservador no STF”, “decepção”, “Kássio Nunes não”. Foi a deixa para que o mandatário provocasse seus aliados. “E daí? Quer que eu faça o quê? Vocês querem o Sergio Moro para o Supremo? Será que ele será um ministro leal às nossas causas? Será que ele será aprovado no Senado Federal?”.

 

Apesar do enfrentamento, durante a transmissão, Bolsonaro renovou as promessas para a sua próxima indicação, em junho do ano que vem, com a aposentadoria compulsória do ministro do Supremo Marco Aurélio Mello, que completará 75 anos: “Tem de ser terrivelmente evangélico. E tem de tomar tubaína comigo”. Entre os ainda cotados estão os ministros Jorge Oliveira (Secretaria-Geral) e André Mendonça (Justiça).

 

No meio jurídico a indicação recebeu elogios e críticas. Entre os que criticaram está a Associação dos Magistrados do Brasil, que defende que a vaga do STF deveria ser ocupada por um juiz de carreira, não por um advogado que virou desembargador. Entre parte dos advogados, contudo, a indicação é bem vista. “Aparentemente preenche os requisitos para ministro do STF, de notável saber jurídico e reputação ilibada. Não estará sendo indicado por critérios políticos ou religiosos, mas por preencher critérios constitucionais”, afirmou o advogado Belisário dos Santos Júnior, ex-secretário de Justiça de São Paulo.

 

O substituto de um ministro do STF costuma herdar todos os processos de quem sai. Porém, no caso de Nunes Marques, não está claro se ele vai receber todos os casos em que Celso de Mello atuava como relator. A dúvida surge, principalmente, porque Mello relata o inquérito em que Bolsonaro é acusado de interferir politicamente na Polícia Federal, um caso levantado por Moro. O decano também é o responsável pelo processo em que o senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, pede que a investigação contra ele por supostos desvio de recursos de antigos assessores de seu gabinete ―a rachadinha―, seja julgada por um tribunal colegiado, não por um juiz de primeira instância. Há uma tentativa dentro do Supremo de repassar esses processos para outro ministro relatar para trazer isenção ao julgamento, já que não seria um indicado pelo presidente Bolsonaro que estaria analisando diretamente uma queixa que o envolva.

 

No Senado, a expectativa é que os parlamentares agendem a sabatina de Nunes Marques para o dia 14 de outubro.