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sábado, 21 de março de 2020

Bolsonaro se nega a mostrar exames que, segundo ele, deram negativo para coronavírus


Por Gustavo Uribe e Ricardo Della Coletta do Jornal Folha de São Paulo

O presidente Jair Bolsonaro não divulgou até o momento cópia dos dois exames clínicos que realizou e que, segundo ele, deram negativo para o novo coronavírus.

O presidente fez dois testes, um no dia 12 e o outro no dia 17. Nas redes sociais, ele informou que ambos deram negativo, mas não mostrou documento formal das análises.

Quando realizou seu exame, o presidente Donald Trump (EUA) divulgou um memorando oficial assinado por seu médico, atestando que a análise não havia detectado o Covid-19.

A Folha solicitou à Secom (Secretaria Especial de Comunicação) da Presidência da República cópia do exame em duas oportunidades, mas não obteve resposta.

Até o momento, pelo menos 23 pessoas ligadas à comitiva presidencial que viajou aos Estados Unidos no início deste mês receberam o diagnóstico da doença.

Um deles foi o ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), Augusto Heleno, que um dia antes de seu teste ter dado positivo se reuniu três vezes com o presidente, sem máscara de proteção.

Nesta sexta-feira (20), outros assessores presidenciais foram confirmados com o coronavírus, sendo que dois deles têm contato frequente com Bolsonaro: o ajudante de ordem Mauro Cid e o assessor internacional Filipe Martins.

Na quarta-feira (18), em entrevista à imprensa, o presidente disse que poderia realizar um novo teste. A expectativa é de que ele seja feito na próxima segunda-feira (23).

Bolsonaro também foi alvo de críticas por dizer, em uma entrevista à rádio Super Tupi, na terça (17), que faria uma "festinha tradicional" para comemorar seus 65 anos no sábado (21). Uma das principais recomendações dos especialistas diante da crise sanitária é a redução do contato social.

Após a repercussão negativa, o presidente anunciou que passará a data apenas na companhia da primeira-dama Michelle Bolsonaro, de sua filha caçula Laura e de sua enteada Letícia.

Em live semanal, o presidente questionou na quinta (19) o efeito das medidas adotadas por governadores para tentar reduzir o risco de contágio da doença, como o fechamento de academias de ginástica e de fronteiras estaduais.

“O remédio quando é em excesso pode não fazer bem ao paciente. Uns fechando supermercado outros querendo fechar aeroporto. Outros querendo colocar uma barreira na divisa entre estados e fechando academias. A economia tem de funcionar”, disse.

Bolsonaro ressaltou que medidas que ele considera excessivas podem levar as pessoas a ficarem desabastecidas e a perderem seus empregos. “As pessoas não vão ficar em casa e se alimentar do nada. Tem de buscar meio de sobrevivência. E, se faltar o emprego, falta o pão em casa e os problemas se avolumam”, disse.

No último domingo, 15, o presidente ignorou orientações dadas por ele mesmo dias antes, ao estimular e participar dos protestos pró-governo sem demonstrar preocupação com a crise do coronavírus.

Sem máscara, participou das manifestações, tocando simpatizantes e manuseando o celular de alguns apoiadores para fazer selfies. "Isso não tem preço", disse, durante transmissão ao vivo em suas redes sociais.

quinta-feira, 19 de março de 2020

Gestão de Bolsonaro do coronavírus é reprovada por 64%, e 45% se dizem a favor de impeachment

Guedes, Bolsonaro e Mandetta em coletiva de imprensa. Foto: SERGIO LIMA / AFP (AFP)

Do El País

O comportamento errático de Jair Bolsonaro durante a crise do coronavírus aliado ao baixo desempenho econômico do Governo fizeram o humor do eleitor brasileiro mudar radicalmente em um mês. Um levantamento da consultoria Atlas Político, que em fevereiro apontava que o presidente seria capaz de se reeleger em qualquer cenário de disputa, agora mostra que os ventos de impeachment podem começar a soprar. De acordo com os dados, 64% dos entrevistados reprovam a forma como Bolsonaro questionou a chegada da Covid-19. E, se há um mês, 50,5% das pessoas tinham a expectativa de que a situação econômica do país melhoraria, agora, com a divulgação de um PIB fraco no período, 49,7% acreditam que ela vai piorar. O número dos que apoiam uma deposição do presidente chega a 44,8%.


A pesquisa entrevistou 2.000 pessoas entre os dias 16 e 18 de março, por meio de questionários randômicos respondidos pela Internet e calibrados por um algoritmo. Tem margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e um nível de confiança de 95%.

“Nossa última pesquisa mostrava todos os indicadores de otimismo e confiança melhorando. O ministro da Economia Paulo Guedes estava mais popular do que nunca. Bolsonaro ganhava de largada em 2022. Essa crise veio logo no momento de maior fôlego para o Governo desde que Bolsonaro assumiu. Neste momento, o humor mudou em relação a tudo”, explica o cientista político Andrei Roman, criador do Atlas Político.

Segundo os dados, 41% dos entrevistados consideram o Governo Bolsonaro ruim ou péssimo. O número dos que acreditam que sua gestão é regular é de 33%, e os que a consideram ótima ou boa são 26%. Roman explica ainda que a crise também contaminou a percepção das pessoas sobre outras áreas do Governo. “A expectativa sobre a economia levou o maior tombo. Mas o otimismo em relação à criminalidade e à corrupção caiu também”, explica. 52,4% das pessoas acreditam que a criminalidade está aumentando (eram 43,8% em fevereiro); 46,6% creem que a corrupção também está mais elevada (antes eram 39,2%).


Os entrevistados também se mostram pessimistas em relação ao enfrentamento do coronavírus. Para 80%, o sistema de saúde brasileiro não está preparado para enfrentar a pandemia. E 73% acreditam que a situação da saúde pública criada pela doença está piorando, apesar de 96% afirmarem que não conhecem pessoas em seus círculos íntimos que tenham contraído o novo vírus. O Brasil já tem cinco mortes relacionadas com a doença confirmadas, quatro delas em São Paulo e uma no Rio de Janeiro. Já há 428 casos de infecção no país e outros 11.278 aguardam confirmação. Quase sete entre dez pessoas dizem ter medo de sair de casa e contrair a doença.

Diante da economia em queda e da crise social gerada pela doença, que devem trazer a necessidade de ações mais radicais para isolar o vírus, como quarentenas e fechamento de comércios, os brasileiros se mostram confusos em relação ao futuro dos empregos de suas famílias. Quando perguntados se acreditam que algum familiar poderia perder o emprego, 40% respondem não saber. Para 29%, a expectativa é que sim, já outros 31% dizem não achar provável. Grande parte dos entrevistados (65%) também diz apoiar a medida anunciada pelo Governo de distribuir quatro mensalidades do Bolsa Família para trabalhadores informais.


Impeachment


O mau humor do brasileiro contra o presidente já se mostrou visível nos últimos dois dias das janelas de várias cidades brasileiras, de onde partiram panelaços vigorosos de protesto a ele. Na esteira dos atos, dois pedidos de impeachment já foram apresentados na Câmara. O primeiro foi feito na terça-feira, pelo deputado distrital Lenadro Grass (Rede-DF). O segundo, na quarta, por um grupo de intelectuais e parlamentares do esquerdista PSOL. Os dois documentos sustentam que o presidente cometeu crime de responsabilidade ao convocar e participar de atos que pediam o fechamento do Congresso Nacional e do STF, no domingo.

Bolsonaro, que teve dois testes negativos para a nova Covid-19, esteve na frente do Palácio do Planalto para cumprimentar manifestantes que o apoiavam, no domingo do ato. Sem máscara e contrariando as recomendações do próprio Ministério da Saúde, abraçou e tirou selfies com pessoas, manipulando telefones celulares de terceiros. Após as críticas, chegou a chamar de “histeria” a reação das pessoas, mas após o primeiro dia de panelaço mudou de tom e compareceu pela primeira vez em uma coletiva de imprensa com ministros, todos de máscaras, para anunciar medidas de enfrentamento à doença.

Para o cientista político autor da pesquisa, os dados relacionados ao impeachment captados pelo levantamento mostram que a adesão inicial ocorre entre os que já avaliavam mal o Governo. “Para esse grupo, essa crise parece ter sido a gota d'água. Mas também é possível que seja um pouco de comportamento estratégico. Que esses eleitores opostos a Bolsonaro sintam o enfraquecimento dele, então tenham decidido aderir ao impeachment”, ressalta.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Bolsonaro entre meias verdades e puras mentiras


Por Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

O presidente Jair Bolsonaro usou a primeira entrevista coletiva sobre a profunda crise do País e do mundo para fazer o que faz melhor: política, autopromoção, com meias verdades em meio a algumas puras mentiras. Enquanto os ministros falavam à população, Bolsonaro dirigia-se à tropa bolsonarista que teme perder.

Na questão central, sobre a liderança do chefe de Estado e o exemplo que precisa dar à sociedade, o presidente voltou a fingir que o grande problema de seu contato com manifestantes, no domingo, foi o risco de ele se contaminar. Ostensivamente, ele escapuliu do principal: o risco de contaminar centenas de pessoas, que poderiam ter efeito multiplicador na disseminação do Covid-19.

Além de tergiversar, tirou uma casquinha da pergunta para fazer o mais barato populismo em meio à crise, colocando-se como “um chefe da Nação ao lado do povo brasileiro, na alegria e na tristeza”, aventando até a hipótese de confraternizar com “o povo” num ônibus, num metrô. Se assim for, “o povo” deve seguir as recomendações das autoridades sanitárias e sair correndo.

Ontem, a lista de contaminados da comitiva a Miami subiu para 17, com os ministros Augusto Heleno (GSI) e Bento Albuquerque (Minas e Energia). Pela recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde, quem tem contato com contaminados deve se isolar. Bolsonaro fez dois testes, ambos negativos, mas depois deles continuou tendo contato constante com Heleno.


O presidente também classificou manifestações como “expressões da democracia” e aproveitou para convocar duas vezes seus apoiadores para fazer panelaço pró-governo à noite e para praticar seu esporte favorito: atacar e tentar desqualifcar a mídia.

Depois de voltar a negar todas as evidências e dizer que os vídeos de convocação da manifestação do dia 15 divulgados pela colunista Vera Magalhães eram de 2015, o presidente se esqueceu de que tornou a estimular o movimento no sábado, 7/3. Jurou que nunca convocara manifestação nenhuma, assim como jurou que nunca atacou o Congresso. Aliás, enviou mensagens de paz para Legislativo e Judiciário. Deve ter muita gente achando que foi cara-de-pau... Há um fosso entre a realidade e o que o presidente diz.

Na coletiva, ele fez com o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, o que já fizera com o da Justiça, Sérgio Moro: mostrou quem manda. Pôs o diretor substituto da Anvisa, contra almirante Antonio Barras Torres, no meio dos ministros, com direto a ser o segundo a falar depois dele próprio e Paulo Guedes. Mandetta reagiu como Moro: passou sua fala toda _ clara e firme, a melhor da entrevista _ desmanchando-se em reverências ao presidente, a quem chamou de “grande timoneiro”.

Pois esse “grande timoneiro” reclamou que o brasileiro não tem cultura de prevenção e pediu a todos para seguirem “os preceitos” do Ministério da Saúde. Só que ele próprio nem previu ou preveniu coisa nenhuma, insistindo que o novo coronavírus era “fantasia” e “histeria” da mídia, nem seguiu os “preceitos” das autoridades de saúde ao sair do isolamento e colocar seus apoiadores em risco. É a tal história: “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. O presidente continua numa realidade paralela.

terça-feira, 17 de março de 2020

Bolsonaro fala em 'certa histeria' sobre vírus e diz que fará 'festinha' de aniversário

O presidente Jair Bolsonaro cumprimenta apoiadores na frente do palácio do planalto, ao final da manifestação em favor do seu governo - Pedro Ladeira - 15.mar.2020/Folhapress

Por Ricardo Della Coletta, Folha de São Paulo

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou a afirmar, nesta terça-feira (17), que existe uma "histeria" em relação à crise do novo coronavírus e disse que fará uma "festinha tradicional" para celebrar seus 65 anos.

O presidente faz aniversário no sábado (21). Especialistas em saúde recomendam evitar aglomerações e reduzir o contato social para fazer frente à crise sanitária.

"Eu faço 65 [anos] daqui a quatro dias. Vai ter uma festinha tradicional aqui. Até porque eu faço aniversário dia 21 e minha esposa dia 22. São dois dias de festa aqui", disse, em entrevista à rádio Super Tupi.

Além da falar que realizará o evento para o seu aniversário, Bolsonaro afirmou que medidas adotadas por governadores para conter o Covid-19 vão prejudicar muito a economia.

"Esse vírus trouxe uma certa histeria. Tem alguns governadores, no meu entender, posso até estar errado, que estão tomando medidas que vão prejudicar e muito a nossa economia", declarou.

"A vida continua, não tem que ter histeria. Não é porque tem uma aglomeração de pessoas aqui e acolá esporadicamente [que] tem que ser atacado exatamente isso. [É] tirar a histeria. Agora, o que acontece? Prejudica", acrescentou.

O chefe da Secom, Fabio Wajngarten, teve o diagnóstico positivo para o novo coronavírus confirmado pelo governo na quinta-feira (12) – Foto: Sergio Lila/AFP

Wajngarten participou de encontro com Donald Trump e Jair Bolsonaro nos EUA – Foto: Alan Santos/AFP

O prefeito de Miami, Francis Suarez, entrega a chave da cidade ao presidente Jair Bolsonaro, nos EUA; Suarez teve diagnóstico positivo para o novo coronavírus – Foto: Alan Santos/AFP

A advogada Karina Kufa, que trabalhou para o presidente Jair Bolsonaro e esteve com ele em visita da comitiva presidencial aos EUA, recebeu resultado positivo em teste para o novo coronavírus – Foto: Pedro Ladeira / Folhapress

O diplomata Nestor Forster, indicado para o cargo de embaixador do Brasil nos Estados Unidos, esteve com a comitiva de Jair Bolsonaro nos EUA e também recebeu resultado positivo para o novo coronavírus - Foto: Claudio Reis / FramePhoto / Folhapress

O secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia, Marcos Troyjo, teve a confirmação de que está com a doença; ele também esteve nos EUA com Bolsonaro - Foto: Keiny Andrade / Folhapress

O senador Nelsinho Trad (PSD-MS), que integrou comitiva do presidente Jair Bolsonaro nos EUA, teve resultado positivo no teste para detecção do novo coronavírus - Foto: Fátima Meira / Futura Press / Folhapress

sábado, 14 de março de 2020

Com a morte de Bebianno, segredos de campanha de Bolsonaro ficarão enterrados para sempre


Por Lauro Jardim, O Globo

Com a morte de Gustavo Bebianno, aos 56 anos por infarto fulminante, uma parte da verdadeira história da campanha de Jair Bolsonaro à Presidência também será enterrada para sempre.

Bebianno detinha segredos da escalada de Bolsonaro ao poder — e de como realmente se passou nos bastidores o ano de 2018, o da eleição. Não era o único. Mas era talvez quem possuía mais informações até hoje não reveladas.

A não ser que tenha deixado algo gravado ou escrito para a posteridade — e ninguém tem certeza de que tal documento exista — esse pedaço de história do Brasil real nunca virá a público, exceto por certos relatos que fez a pessoas próximas.

Desde que brigou com Bolsonaro, no início do ano passado, Bebianno contou algumas passagens ocorridas durante a campanha eleitoral, em que era o mais próximo dos mais próximos auxiliares do atual presidente. Mas, em conversas privadas, costumava observar que dizia em entrevistas apenas um pedaço ínfimo do que viu, participou e viveu.

A morte de Bebianno e as técnicas de assassinato simulado em ataque cardíaco, por Luis Nassif


Por Luis Nassif

Vamos por partes.

É cedo para qualquer conclusão sobre a morte do advogado Gustavo Bebianno. Ressalve-se o fato de que o filho estava com Bebianno na hora de sua morte, o que reforçaria a ideia de causa natural. Mas,

1. Adriano da Nóbrega e Gustavo Bebbiano eram testemunhas centrais, capazes de produzir um terremoto político no país, em função das informações que detinham sobre a família Bolsonaro.

2. Adriano foi executado no interior da Bahia, em uma operação mal explicada até agora.

3. Bebianno morreu esta noite, vítima de infarto.

Em conversas com jornalistas, no final da entrevista ao Roda Viva, Babianno evitou responder algumas perguntas, alegando receio de sofrer algum atentado.


O know how da CIA


No dia 14 de novembro de 1975, o New York Times publicou reportagem vinculando a CIA a assassinatos cometidos dentro dos Estados Unidos. A técnica utilizada era da simulação de ataque cardíaco.

As investigações foram conduzidas pelo Comitê de Inteligência do Senado, investigando um assassinato ocorrido em Nova Orlens no final dos anos 50, ou início dos anos 60.

As investigações estavam sob comando do respeitado senador Frank Church, democrata de Idaho e uma das vozes mais influentes da política americana dos anos 70.

Pela descrição da vítima, tratava-se de alguém que havia trabalhado na agência em Washington e Las Vegas. O funcionário morreu em um hotel local, onde ele e a família estavam hospedados.

A CIA tentou qualifica-lo apenas como um “oficial de suprimentos”. Mas a comissão apurou que ele havia participado da invasão da Normandia e chefiado operações de combate realizadas pela CIA em Taiwan.

O relatório do Senado juntou 400 páginas com evidências de tentativas da CIA em atentar contra a vida de lideranças estrangeiras, principalmente Fidel Castro. O caso McNamara foi o primeiro que revelaria “como a agência lida com pessoas que tentam chantageá-la”.

O relatório de Frank Church se tornou um marco na tentativa do Congresso de controlar os poderes da CIA, que se transformara em opder autônomo dentro dos EUA.

Um dos capítulos do relatório era sobre os diversos instrumentos de assassinato da CIA.

Foi convocado o então diretor da CIA, William Colby que, pressionado, acabou trazendo uma das últimas armas desenvolvidas: uma pistola desenvolvida especificamente para assassinar seres humanos de forma silenciosa.


Aqui, o senador Church mostra a arma.




Depois de aposentado, Colby escreveu um livro sobre a CIA, revelando seus segredos mais sombrios. Colby era de formação católica e achava que a CIA só iria se salvar se confessasse todos seus pecados, conforme seu necrológio.

No dia 27 de abril  de 1996 foi encontrado afogado em um afluente do rio Potomac.

A morte dividiu a própria família. Em 2011, um de seus filhos, Carl Colby, produziu um documnentário, “O homem que ninguém sabia”, mostrando o pai cheio de culpa por suas ações na guerra do Vietnã e cuja vida adabou quando deixou a CIA em 1975. Sugeria que teria se suicidado. O laudo policial não permitia ir nessa direção. O filho mais velho, Jonhathan Colby discordou do irmão.


A indústria do crime


É possível que tenha sido vítima de um AVC ou um ataque cardíaco e tenha se afogado. Para nosso caso interessa saber que, desde 1974, já se sabia de armas que permitiam assassinar pessoas e simular ataques cardíacos. É evidente que essa tecnologia não ficou, desde aquela época, restrita à CIA.

Conforme vimos mostrando em várias reportagens, Bolsonaro é apoiado pelo que existe de mais barra-pesada na indústria da contravenção internacional e nas organizações criminosas internas.

É cedo para avançar em qualquer conclusão. E há circunstâncias que reforçam a ideia de morte natural. Em todo caso, a morte de Bebianno é um capítulo a mais na tenebrosa história do país rumo à era do crime institucionalizado.

Morre o ex-ministro Gustavo Bebianno, pré-candidato do PSDB à prefeitura do Rio


O Globo

O ex-secretário geral da Presidência e pré-candidato a prefeito do Rio, Gustavo Bebianno, morreu esta manhã após um infarto fulminante, aos 56 anos. A informação é do presidente estadual do PSDB, Paulo Marinho.

Bebianno estava em seu sítio em Teresópolis com um caseiro e seu filho. Segundo Marinho, por volta de 4h30 ele comunicou ao filho que estava passando mal e se dirigiu ao banheiro para ingerir um remédio. Minutos depois, sofreu uma queda e teve ferimentos na cabeça.

Bebianno foi levado para uma unidade hospitalar da cidade, mas não resistiu.

O ex-ministro, neto do ex-presidente do Botafogo, Adhemar Bebianno, era um apaixonado por jiu-jitsu. Em 1990, depois de receber a faixa preta, o advogado trancou o curso de Direito na PUC do Rio e foi tentar a vida dando aulas da arte marcial em Miami. Abriu uma academia na cidade que chegou a ter cem alunos. Mas, quatro anos depois, voltou ao Rio para retomar os estudos e se formou.

Em 2006, voltou à Flórida, desta vez como sócio de Rilion Gracie, um dos filhos da família de lutadores. Investiu cerca de US$ 60 mil em uma academia com Gracie, com quem treinava desde os 18 anos em Ipanema. Em 2008, voltou ao Brasil.

Seu contato com o então candidato Jair Bolsonaro aconteceu por intermédio do engenheiro Carlos Favoretto, amigo do ex-publicitário Gutemberg Fonseca, ex-secretário de governo de Wilson Witzel, governador do Rio.

Ainda durante a campanha, Bebianno, na condição de fã, apareceu em um estúdio na Barra da Tijuca onde Bolsonaro era fotografado. Se aproximou oferecendo auxílio jurídico voluntário à campanha do atual presidente da República.

De outsider político, manobrou para arrancar a candidatura de Bolsonaro do nanico Patriota e levá-la ao PSL de Luciano Bivar. O êxito na manobra lhe garantiu a vaga de presidente interino do partido e culminou com a sua nomeação para o primeiro escalão do governo, com gabinete no Palácio do Planalto.

Depois de diversas crises e brigas internas, inclusive com filhos do presidente Bolsonaro, foi demitido o cargo de ministro da Secretaria-Geral da Presidência em 18 de fevereiro do ano passado. Sua pré-candidatura à prefeitura do Rio foi lançada no início do mês.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Bolsonaristas terão pré candidato a prefeito em Garanhuns

Pastor Rômulo Falcão

No último dia 19 de novembro, grupo ligado ao presidente Jair Bolsonaro se reuniu no hotel Tavares Correia para discutir os rumos políticos que irão tomar em Garanhuns nas próximas eleições municipais de 2020, e da criação do partido Aliança pelo Brasil.

O evento contou com mais de 140 pessoas, onde na ocasião foram apresentados alguns pré-candidatos a vereador e dito que o grupo terá candidato a prefeito.

Apesar de não cravarem um nome, alguns nomes já vêm sendo especulados. Entre eles o nome do Pastor Rômulo Falcão, que foi um dos organizadores da reunião e conta com bastante simpatia sobretudo no meio cristão. Procurado por nossa redação, o pastor Rômulo Falcão preferiu não se adiantar, mas afirmou: " Temos um grupo muito forte e unido com o objetivo de fazer Garanhuns melhor. Se for da vontade de Deus e do grupo estarei pronto e preparado para essa missão." Pastor Rômulo Falcão tem 34 anos, e além de formado em teologia é Tenente R2 do exército, professor e possui especialização em gestão pública.





terça-feira, 8 de outubro de 2019

Bolsonaro diz que Bivar está 'queimado' e pede: 'Esquece o PSL'


Ao ser abordado por um apoiador na porta do Palácio da Alvorada, em Brasília, nesta terça-feira, 8, o presidente Jair Bolsonaro pediu a um apoiador do Recife, que “esquecesse” o PSL, afirmando que o presidente da sigla, o deputado pernambucano Luciano Bivar, estava “queimado para caramba”.

A declaração de Bolsonaro para “esquecer” o partido ocorreu após um apoiador abordá-lo dizendo ser pré-candidato no Recife (PE) pelo PSL. O presidente costuma atender quem o espera na porta do Alvorada, pela manhã, para conversar e tirar fotos.  Logo após a abordagem, Bolsonaro cochichou em seu ouvido: "Esquece o PSL".

Ainda assim, o homem gravou um vídeo junto ao presidente em que diz: "Eu, Bolsonaro e Bivar, juntos por um novo Recife". Bolsonaro, então, pediu para que ele não divulgasse a gravação. "Oh, cara, não divulga isso não. O cara (Bivar) está queimado para caramba lá. Vai queimar o meu filme também. Esquece esse cara, esquece o partido", disse. 

A conversa foi gravada por um outro apoiador que também aguardava o presidente no local e publicada no canal do YouTube "Cafezinho com pimenta". Jornalistas são proibidos pela segurança presidencial de ficar no mesmo local dos apoiadores.

A saída de Bolsonaro do PSL já vem sendo ventilada pela mídia já a algum tempo, a qual foi negado ainda nesta segunda-feira (07) pelo porta voz da presidência o General Otávio Santana do Rêgo Barros.

Segundo informações, dentre os muitos motivos dos desentendimentos entre Bivar e Bolsonaro, estaria o controle do fundo partidário do partido para as próximas eleições, que pode chegar a 103 milhões de reais.

Quem também já vem cantando está bola da saída de Bolsonaro da legenda, é o garanhuense Edu Cabral, que ocupa um cargo no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos em Brasília. (Com informações do Jornal Estadão)


domingo, 17 de fevereiro de 2019

'O problema não é o pimpolho. O Jair é o problema', diz Bebianno

Jair Bolsonaro e Gustavo Bebianno – Foto: Mauro Pimentel | AFP

O jornalista Lauro Jardim do Jornal O Globo, traz hoje (17) em seu Blog a informação de que Gustavo Bebianno, hoje Secretário-geral da Presidência da República, tem dito a interlocutores que já não culpa só Carlos Bolsonaro por sua fritura no governo, mas sim o próprio presidente Jair Bolsonaro.

A um interlocutor, disse:

— O problema não é o pimpolho. O Jair é o problema. Ele usa o Carlos como instrumento. É assustador.

Na tarde de sexta-feira, quando o incêndio de sua demissão parecia debelado, Bebianno demonstrava que a temperatura ainda ardia. Ao mesmo interlocutor, desabafou:

— Perdi a confiança no Jair. Tenho vergonha de ter acreditado nele. É uma pessoa louca, um perigo para o Brasil.

domingo, 14 de outubro de 2018

Tempos de Bolsonaro

Jair Bolsonaro, o 11 de outubro de 2018. MAURO PIMENTEL (AFP)

ÁLVARO GUZMÁN BASTIDA (CTXT), Jornal El País

O terremoto ultradireitista de Jair Bolsonaro sacudiu os alicerces da democracia brasileira. Sua onda expansiva percorre a América Latina e é sentida também na Europa e nos Estados Unidos. Quem é Bolsonaro? Por que arrasou no primeiro turno das eleições brasileiras? Quem o apoia e quais interesses representa? Que consequências tem sua vitória nos âmbitos regional e global? São algumas das perguntas que pairam sobre a imprensa internacional desde que terminou a contagem dos votos do primeiro turno da disputa pela presidência.

O que transparece é um movimento político construído a partir das rejeições − às minorias, aos pobres, às mulheres, à esquerda, à democracia − e de um indisfarçado gosto pela violência. Mas, aprofundando um pouco, encontra-se um projeto com três fundamentos claros: a sintonia total com o mercado, a homenagem aos altares das Igrejas pentecostais e a inquietante conexão com certos setores obscuros das Forças Armadas.

A rede de notícias alemã Deutsche Welle traz em seu site em espanhol na Internet um autorretrato do vitorioso candidato da extrema direita em 15 frases ditas pelo próprio Bolsonaro. Ele aparece como abertamente misógino (“é muito feia, não é do meu gosto, jamais a estupraria. Não sou estuprador, mas se fosse, não a estupraria porque não merece”), apaixonado pela violência das ditaduras da direita latino-americana (“Pinochet deveria ter matado a mais gente”), flertando com o uso da violência como arma política (“o grande erro da ditadura foi torturar e não matar”) e contrário aos pobres (“defendo a pena de morte e o rígido controle de natalidade, porque vejo a violência e a miséria que cada vez se estende mais pelo nosso país. Quem não tem condições de ter filhos não deve tê-los”); além de resistente à própria ideia de democracia (“uma merda”) e convencido da necessidade de acabar com ela (“se eu fosse presidente, sem a menor dúvida fecharia o Congresso e daria um golpe no mesmo dia”).

Faixa contra Bolsonaro exibida durante manifestação na quarta-feira. ANDRE PENNER (AP)

Como pôde um homem assim chegar às portas do Palácio da Alvorada? Nas vésperas das eleições, o site norte-americano The Intercept levou seus leitores ao coração de um país dividido. Coincidindo com a saída do hospital do candidato ultradireitista, esfaqueado em um comício no início da campanha, o repórter Sam Cowie percorreu as ruas de uma São Paulo convulsionada por protestos do movimento feminista contra Bolsonaro e contra os partidários do candidato. Ali, o repórter britânico encontrou um eleitorado em frenesi depois de uma campanha estrambótica marcada não só pelo esfaqueamento de Bolsonaro por um desequilibrado mental, mas também pelo cancelamento do título eleitoral de mais de três milhões de pessoas e a polêmica inabilitação do grande favorito: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, a quem o ilustre linguista e dissidente Noam Chomsky visitou na prisão dias antes das eleições, para publicar também um relato no The Intercept.

Entre os partidários de Bolsonaro, contava Cowie, circulavam como pólvora as notícias falsas em grupos de WhatsApp, impulsionadas pela ânsia por soluções rápidas para a crise de delinquência de um dos países mais desiguais do planeta. Só assim se entende o apoio incondicional de líderes sindicais caminhoneiros e trabalhadores da construção, em outros tempos organizadores de greves em defesa de seus grupos: “Votarei nele por suas propostas sobre segurança”, contava um. “De que adianta ter trabalho se você não sabe se chegará vivo a ele?”. Bolsonaro prometeu “lutar com violência contra a violência” e seu discurso calou fundo em quem mais a sofre. Também colam − principalmente no cada vez mais poderoso, organizado e radicalizado eleitorado evangélico radiografado pelo jornal argentino Página 12 − os rumores sobre políticas “de gênero” supostamente defendidas pelo partido de Lula, cuja sucessora, Dilma Rousseff, foi destituída por um julgamento parlamentar com forte cheiro de golpe “‘brando”. Entre os partidários de Bolsonaro, muitos acreditam que o candidato do PT está disposto a distribuir mamadeiras com forma de pênis para combater a homofobia ou a financiar “operações sexuais” em crianças de três anos. Nesse substrato cresceu o candidato radical, estimulado por uma legião de sabujos paramilitares aparentemente dispostos a impor seu programa a todo custo, abordados pelo jornalista David Noriega para o noticiário Vice no canal HBO.

Jair Bolsonaro. MARCELO SAYÃO (EFE)

O que está subjacente à esmagadora vitória de Bolsonaro é, segundo Pablo Stefanoni, algo muito mais profundo e com lições que ultrapassam as fronteiras do Brasil: a rejeição frontal à “luta de classes branda” defendida pelo PT. O editor da revista Nueva Sociedad fala de um fantasma que percorre a América Latina, que ele chama de “antiprogressismo”. No Brasil, essa corrente se manifesta em forma de censura ao PT, que “melhorou a situação dos que estão nas camadas mais baixas sem remover os que estão em cima” e acabou sendo devorado pelas elites com as quais quis se acomodar. Entre quem votou em Bolsonaro, portanto, havia muito de antipetismo. Precisamente por isso se estruturou em forma de revolta contra os avanços obtidos por Lula e Rousseff, com aríetes como “o racismo diante de uma visão radicalizada da pobreza” e o conservadorismo “diante dos avanços do feminismo e das minorias sexuais” de um movimento antiprogressista cada vez mais virulento e ascendente da Costa Rica até o Chile, que se cristalizou primeiro no Brasil. O dia 7 de outubro foi, portanto, o primeiro turno de uma contrarrevolução.

Talvez isso explique o interesse que os banqueiros de dentro e fora do Brasil − os mesmos que saudaram com satisfação o turvo uso do instrumento constitucional do impeachment contra Dilma e a polêmica condenação e inabilitação de Lula − têm por Bolsonaro. O Financial Times descreve o entusiasmo que despertou nas elites financeiras brasileiras a possibilidade de um Governo de Bolsonaro − que, acreditam elas, “adotará um programa econômico de liberalização” e colocará fim a “décadas de políticas estatistas”. O jornal britânico se detém na figura de Paulo Guedes, o banqueiro de investimento formado na Escola de Chicago que assessora Bolsonaro em assuntos econômicos e que já está procurando outros “financistas de altos voos” para integrar a equipe de transição se o candidato derrotar no segundo turno Fernando Haddad, ungido por Lula como “plano B” do PT. “Há uma sensação de entusiasmo contido”, diz o “alto executivo de um banco” ao jornal londrino. “Talvez Bolsonaro não seja o catalisador da mudança que eu teria escolhido, mas é aquele que a democracia brasileira proporcionou. Muitos de meus colegas se perguntam como podem ajudar.”

Marcha contra de Bolsonaro, no dia 11 de outubro de 2018. REUTERS

O capitão Bolsonaro tem, portanto, muito de seu admirado Pinochet, e chegaria ao poder bem flanqueado por seus militares da reserva e seus Chicago Boys. E, diante da perspectiva de voltar a um governo de centro-esquerda gradualista, a oligarquia brasileira apostou forte na ultradireita.

O coração das finanças globais tampouco dissimula seu apoio ao candidato do Partido Social Liberal. Em um editorial triunfalista publicado na manhã seguinte de sua retumbante vitória, o Wall Street Journal celebrava o resultado eleitoral: “Os progressistas globais estão sofrendo um ataque de ansiedade devido à vitória quase absoluta de domingo do candidato conservador à presidência do Brasil, Jair Bolsonaro”, assinalava o jornal nova-iorquino. “Depois de anos de corrupção e recessão, parece que milhões de brasileiros acreditam que um outsider seja exatamente aquele de quem o país necessita. Talvez saibam mais sobre o assunto do que os resmungões do mundo”. A versão de Wall Street do “ladram, Sancho...” de Cervantes.

A extrema direita cresce até onde menos se espera. O Financial Times se concentrou, dois dias antes das eleições brasileiras, em uma expressão particularmente surpreendente do fenômeno: a dos judeus que aderem com cada vez mais frequência ao partido ultradireitista alemão Alternative für Deutschland. É difícil vislumbrar uma aliança mais contrária à natureza, pelo menos superficialmente. Mas o correspondente do jornal na Alemanha, Guy Chazan, assinala que o ódio ao islã e a defesa de Israel servem de sutura suficiente para que essa aliança não se debilite por suas contradições. O inimigo do meu inimigo é meu amigo.


O ‘efeito sutura’ de Brett Kavanaugh


O “efeito sutura” funcionou também no processo de confirmação do juiz da Suprema Corte dos EUA Brett Kavanaugh, acusado de abusos sexuais por três mulheres. Os republicanos mal podiam perder um voto entre seus 51 senadores para alçar Kavanaugh à Suprema Corte de forma vitalícia e mudar o equilíbrio de poder de uma das instituições mais importantes do país, que terá maioria conservadora durante décadas. Diante de tamanha empreitada, os líderes republicanos e Trump, que tantas vezes entraram em confronto e foram incapazes de se entender, “partiram juntos para a trincheira”, como conta o redator-chefe em Washington do Wall Street Journal, Gerald Seib. Ele assinala que “não é nenhuma coincidência que tenham feito isso em busca do único objetivo com o qual sempre estiveram de acordo: encher a Suprema Corte de juízes conservadores”. Kavanaugh foi indicado a Trump pela ala mais conservadora do partido. Embora relutasse, o presidente acabou concordando − e viu como o político mais implacável e ardiloso da direita norte-americana, Mitch McConnell, sustentava sua nomeação contra tudo e contra todos.

Manifestantes contra a nomeação do juiz Kavanaugh protestam diante da Suprema Corte dos EUA. CHIP SOMODEVILLA (AFP)

De nada serviram as históricas mobilizações do movimento feminista que tomou Washington nas semanas prévias à sessão plenária de confirmação do juiz. Nem as inconsistências no testemunho inflamado e desbocado que o juiz proferiu ante a Comissão de Justiça do Senado depois do comparecimento de uma das mulheres que o acusaram, a psicóloga Christine Blasey Ford. Em uma monumental análise forense, o diretor da revista Current Affairs, Nathan Robinson, examina os testemunhos e acusa Kavanaugh de mentir até não poder mais ante o Senado, o que seria um delito de perjúrio.

Mas Kavanaugh, um juiz acusado de assédio por pelo menos 3 mulheres e nomeado por um presidente acusado de assédio por 20 mulheres, já está na Suprema Corte. Ali poderá ficar durante três ou quatro décadas, até que morra ou se canse, para decidir sobre temas como a questão de se as mulheres têm direito a abortar depois de ser estupradas. Direito que o próprio Kavanaugh negou a uma refugiada de 17 anos quando era juiz de uma instância inferior.

A pomposa nomeação de Kavanaugh, que ocorre um ano depois da reportagem do New York Times que inaugurou o movimento #MeToo, não poderia ser mais emblemática da existência do patriarcado para Mehdi Hassan, apresentador do podcast Deconstructed. O programa dedica um episódio fundamental a explicar a natureza sui generis da Suprema Corte dos EUA e as linhas de batalha política que se desenham depois da confirmação de Kavanaugh. Hassan, aliás, publicou dias atrás um maravilhoso ensaio em vídeo, intitulado A Short History of U.S. Meddling in Foreign Elections (“breve história das intromissões dos EUA em eleições estrangeiras”). Não deixe de vê-lo.

Brett Kavanaugh e o presidente dos EUA, Donald Trump, durante a cerimônia em que foi nomeado juiz da Suprema Corte, no dia 8. JIM WATSON (AFP)

Para o crítico Hamid Dabashi, professor iraniano da Universidade de Columbia, a declaração da mulher que acusou Kavanaugh − e a reação daquele que acabou se tornando juiz do tribunal de última instância do país − expôs como a supremacia de classe do dinheiro e do poder dos brancos recorre à raiva e à fúria vingativa para silenciar e desdenhar de qualquer um que se atreva a pôr em dúvida seus privilégios institucionais”. Em um artigo publicado no site da TV Al-Jazeera, Dabashi disseca a imagem de uma mulher prestando depoimento com precisão clínica diante de 11 senadores brancos e a de um homem insolente que nega tudo, “como o garoto de 17 anos na manhã seguinte à bebedeira”. Isso, assinala Dabashi, é a essência da questão: “A masculinidade branca estrutural no coração da política da direita norte-americana”, que circula dos neonazistas da marcha de Charlottesville até “o espetáculo do privilégio branco e masculino unido ante uma mulher vulnerável”, como “dois polos que conectam o mesmo espectro de poder masculino”.

A questão da responsabilidade em casos de abuso sexual é abordada pela ensaísta Lauren Oyer em seu artigo para a revista dominical do New York Times. “Quem ou o que tem a culpa pelo assédio sexual? É o indivíduo que o comete? Ou são as condições ambientais que fazem com que esse indivíduo acredite que pode atuar impunemente?” Oyer examina a partir de sua raiz etimológica o conceito da toxicidade, em particular a toxicidade masculina, que, diz a ensaísta, “é invocada como causa principal de tudo, do assédio sexual à violência contra as mulheres, passando pela popularidade de David Foster Wallace”.

O conceito é enganoso e tende a errar o alvo, sustenta Oyer, que recorre a exemplos sugestivos, como a crise financeira: “Em vez de esclarecer a causa de um caso obscuro, o tóxico geralmente faz o contrário. O epíteto concentra a crítica estrutural no sintoma, não na causa, sugerindo que um pouco de limpeza será suficiente para resolver o problema”. Se você quer mais do que se sentir satisfeito com sua pureza, aponte para a causa, não para os sintomas, afirma Oyer. Algo parecido ocorre com o fascismo.