O
site do jornal paulista Estadão traz nesta segunda-feira (20) uma extensa
matéria a respeito da briga familiar que divide clã Campos-Arraes.
Com
o título ”Uma guerra fratura a família Arraes”, a matéria discorre pela briga
protagoniza por João Campos e Renata Campos de um lado, filho e viúva do ex-governador
e já falecido, em acidente aéreo no ano de 2014, Eduardo Campos, e Antônio Arraes e
Ana Arraes do outro, irmão e mãe de Eduardo.
A
matéria fala ainda da possível briga pela disputa pela prefeitura do Recife
entre João Campos e sua prima em segundo grau Marilia Arraes, ambos deputados
federais. Isso se Marilia não for mais uma vez rifada pelo PT, como aconteceu
em 2018, para o partido manter aliança com o PSB no Estado apoiando a candidatura
de João, como observa o jornal paulista.
Veja
matéria completa do Estadão:
Uma
guerra fratura a família Arraes
O
núcleo de uma das mais tradicionais famílias da política brasileira vive uma
briga fratricida. Os atritos superaram o terreno privado do clã Campos-Arraes e
a lavação de roupa suja se tornou pública. Antigas diferenças políticas se
converteram em um fogo cruzado que é influenciado pela polarização nacional e
se volta até mesmo contra o legado do seu quadro mais proeminente, o
ex-governador Eduardo Campos, morto em acidente aéreo na campanha presidencial
de 2014.
As
divergências alcançaram outro patamar depois que o deputado federal João Campos
(PSB-PE), filho de Eduardo, atacou o tio, o advogado Antônio Campos, o Tonca,
em dezembro passado, na Câmara dos Deputados. Em reunião da Comissão de
Educação, o ministro da área, Abraham Weintraub, lembrou ao parlamentar que
Antônio contribui com o governo que ele critica porque é presidente da Fundação
Joaquim Nabuco (Fundaj). “Eu nem relação tenho com ele, ministro. Ele é um
sujeito pior que você”, retrucou o deputado, em referência ao tio.
Tão
duro quanto o tom foi a forma. Em Pernambuco, “sujeito” pode não significar
meramente uma pessoa indeterminada, mas alguém desqualificado socialmente. Nos
bastidores, políticos da região disseram que essa expressão pesou mais do que
qualquer coisa porque chamar alguém de sujeito, naquele Estado, equivale quase
a um palavrão.
Mãe
de Eduardo Campos, a ministra do Tribunal de Contas da União (TCU) Ana Arraes
comprou a briga do filho e repreendeu o neto publicamente, numa rara entrevista
concedida ao jornalista Magno Martins, na Rede Nordeste de Rádios, no início do
mês. Disse ter ficado “entristecida” e “indignada” com a “má educação” e com a
“prepotência” do neto, com quem parou de falar.
O
presidente do TCU, José Múcio Monteiro, interferiu na tentativa de atuar como
uma espécie de bombeiro. Amigo de Ana Arraes e também pernambucano, Múcio disse
a Antonio e a João Campos, em conversas separadas, que era melhor serenar os
ânimos porque em briga de família não há vencedores. Todos perdem, concluiu. Os
conselhos, porém, não adiantaram. No rodízio do tribunal, Ana substituirá Múcio
na presidência da Corte, no próximo ano.
Antes
mesmo de a mãe tomar partido no conflito, Antônio Campos havia soltado uma nota
por meio da qual acusava o sobrinho de ter sido “nutrido na mamadeira da
empresa Odebrecht”. Antônio disse, ainda, que Pernambuco precisava conhecer o
“lado obscuro” do sobrinho e da viúva de Eduardo, Renata Campos. João é
considerado um representante da “nova política”, ao lado dos deputados Tabata
Amaral (PDT-SP) e Felipe Rigoni (PSB-ES).
‘Quis
se mostrar para nova namorada’
Ao
Estado, Antônio admitiu que a confusão não é boa para a família, mas continuou
com as críticas e provocou o sobrinho. “Ele quis se mostrar para a sua nova
namorada, a deputada Tabata Amaral”, disse o tio. “Foi um ataque gratuito
porque estava fora do contexto. Fui o homem que mais defendeu o pai dele,
inclusive no complexo caso dos precatórios, em que Eduardo teve denúncia
rejeitada pelo Supremo Tribunal Federal. E, hoje, eu o vejo abraçado e
defendendo vários que chamavam o pai dele de ladrão. Não consigo entender.”
O
PSB de João Campos atua no espectro da esquerda. Antônio, por sua vez, é
crítico dos petistas e de alianças com o partido do ex-presidente Luiz Inácio
Lula da Silva. “Vejo o governo Bolsonaro saneando muita coisa errada feita na
era PT. O Brasil precisava virar essa página, que a coragem de Bolsonaro tem
realizado. Tenho mais convergências do que divergências com o presidente”,
disse o advogado.
Políticos
próximos de João Campos admitem que os dois lados da família saem perdendo com
a briga, mas contam que as divergências são antigas. Tonca não tem boa relação
com o núcleo de Eduardo desde antes de 2014. Mas, como o ex-governador
emprestava sua habilidade política para apaziguar os ânimos, o clã permanecia
unido.
O
que não era tão ruim piorou em 2016, quando Antônio quis disputar a prefeitura
de Olinda. Perdeu no segundo turno e se queixou da falta de apoio do PSB, além
da suposta influência da viúva Renata contra ele. Na avaliação do irmão de
Eduardo Campos, o seu crescimento político não interessava a uma parte da
família e, por essa razão, ele teria sido alvo de isolamento e de perseguições.
Após
a morte de Eduardo, o clã entrou em disputa pelo espólio eleitoral dele e do
avô paterno, o ex-governador Miguel Arraes, o “Pai Arraia”, como o patriarca da
família era conhecido na Zona da Mata. O PSB tratou de capitalizar, fazendo um
esforço robusto para lançar João Campos e, mais do que isso, dar ao filho de
Eduardo uma votação expressiva. Na eleição de outubro, por exemplo, ele é o
favorito do grupo para suceder Geraldo Júlio (PSB) na prefeitura do Recife.
“A
seção pernambucana é, sem dúvida, a mais forte do nosso partido. Por isso,
penso que a situação do PSB em Pernambuco é muito boa e tem o candidato mais
competitivo à prefeitura da capital, o deputado João Campos”, disse o
presidente nacional do partido, Carlos Siqueira. “No tocante a eventuais
problemas familiares, não me compete falar. Eles devem ser separados da
política e tratados no âmbito apropriado.”
Outros
integrantes da família, no entanto, também se veem no direito de recorrer à
memória de Eduardo e de Miguel Arraes. No Recife, a também deputada federal
Marília Arraes, do PT, prima de João em segundo grau, quer entrar na corrida
eleitoral deste ano. Além disso, a própria Ana Arraes não descarta abrir mão da
cadeira no TCU para disputar o governo de Pernambuco, em 2022. Procurados, Ana,
João e Renata Campos não se manifestaram. Marília Arraes, por sua vez, enviou
nota na qual disse que a briga pública dos parentes é algo que não lhe diz
respeito.
Para
lembrar: a disputa por Recife
A
disputa pela prefeitura do Recife na eleição municipal deste ano também deve
colocar em lados opostos os dois principais herdeiros políticos do
ex-governador Miguel Arraes, que morreu em 2005, como mostrou reportagem do
Estado publicada em dezembro. O deputado federal João Campos (PSB), de 26 anos,
foi escolhido pelo partido disputar a capital pernambucana. Sua principal
adversária, no entanto, é a também deputada Marília Arraes (PT), 35 anos, que é
neta de Arraes e prima de segundo grau de João. Essa disputa familiar só não
deve ocorrer se o PT mantiver aliança com o próprio PSB no Estado e ‘rifar’ a
candidatura de Marília para apoiar João.