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| A Bolsa de Nova York, em 4 de dezembro. COURTNEY CROW / AP |
El País
A água começou a ser
cotizada nesta semana no mercado de futuros de Wall Street como acontece com o
petróleo e o trigo, tendo como base o índice Nasdaq Veles California Water
(NQH2O). Alguns especialistas defendem que, se bem utilizado, este mecanismo financeiro
pode ajudar a conseguir um uso mais eficiente da água. Mas também se considera
um absurdo deixar que se especule com esse recurso tão sensível à vida no
planeta. Aqui respondemos a algumas perguntas para tentar explicar o que
realmente significa esse passo dado nos EUA:
De que forma pode ser
vendido e comprado um bem comum como a água?
Em quase todo o planeta, as
leis consideram a água como um bem comum de domínio público. Mas é possível
outorgar direitos de uso dessa água através de concessões e licenças
administrativas (seja para utilizar e para despejar resíduos nela). O que
começou a ser cotizado em Wall Street não é a água em si mesma, e sim os
direitos de uso. “Isso sempre funcionou informalmente em todos os lugares do
mundo com sistema de irrigação, assim como na Espanha”, diz Gonzalo Delacámara,
diretor de Economia da Água no Instituto Imdea, “uma pessoa A diz à B, neste
mês não vou irrigar, te cedo meus direitos em troca de uma compensação”. O que
é muito menos comum é a existência de um mercado formal para realizar essas
transações de direitos.
Como funcionam os mercados
de uso e aproveitamento da água?
Em boa parte dos Estados do
oeste dos EUA, com climas bastante parecidos aos da Espanha e um alto risco de
seca, se desenvolveram mercados para realizar transações desse tipo, como o da
Califórnia. “Quando se gera um direito de uso e aproveitamento de água, por um
lado está o que poderíamos chamar a via do recurso natural, a mais importante,
a água que permite manter caudais ecológicos, recarregar aquíferos, abastecer
cidades como Las Vegas, irrigar plantações... E, por outro, há uma via que é
estritamente financeira: é gerado um título, que se transforma em um ativo
financeiro”, diz Delacámara. Assim, podem existir, por exemplo, agricultores
que queiram trocar direitos de uso para ter água para regar suas colheitas, mas
também outros atores que queiram ganhar dinheiro com esses ativos financeiros.
Como funciona o mercado de
futuros?
Ao contrário dos mercados
spot, onde podem ser feitas transações de direitos de água imediatamente, como
quem vai a um supermercado e compra maçãs, nos mercados de derivados (opções ou
de futuros) estas trocas são a longo prazo. Nas áreas de escassez crônica de
água como a Califórnia e o sudeste espanhol, uma pessoa pode não precisar de
água no momento, mas sim estar interessada, por exemplo, em garantir sua
disponibilidade para uma campanha de irrigação no futuro e para um período de
alguns anos.
O que é então o Nasdaq Veles
California Water Index?
Este índice começou a
funcionar em outubro de 2018 e é formado a partir dos preços dos direitos de
água no mercado de futuros das cinco regiões da Califórnia com maior volume de
transações deste tipo. Nessa semana a cotação está em 486,53 dólares (2.480
reais) por acre pie, uma medida que equivale a aproximadamente 1,4 milhão de
litros.
De que modo isso pode ajudar
a gerir a água de maneira mais eficiente?
“Teoricamente, desse modo o
que se faz é gerar incentivos para que as pessoas sejam mais eficientes porque
os direitos excedentes de água podem ser enviados ao mercado”, diz Delacámara.
“Além disso, isso serve para garantir que a água disponível chegue a priori
onde é necessária e conseguir liquidez no mercado que eventualmente pode financiar
investimentos de melhora, orientados à conservação do recurso”. Para o
economista que assessora as Nações Unidas, a Comissão Europeia e o Banco
Mundial, “os mercados de direitos podem ser uma ferramenta de conservação, se
bem utilizados, o que nem sempre acontece”. Como detalha, se o modelo de
mercados dos EUA inclui mais cautelas, há casos muito mais controversos na
Austrália e no Chile, onde foi priorizado o desenvolvimento agrícola em
detrimento de objetivos ambientais, algumas vezes outorgando direitos gratuitos
e perpetuidade para garantir segurança jurídica aos que possuem os direitos da
água. Chegou a níveis absurdos. Como diz Delacámara, “no vale de Copiapó no
norte do Chile foram entregues mais direitos de uso do que a água efetivamente
disponível na bacia”.
Por que esses mercados são
tão controversos?

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