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| O ex-presidente Lula participa de debate em Berlim, Alemanha, em 10 de março. RICARDO STUCKERT/INSTITUTO LULA |
Do El País
Na semana em que se
comemorou a independência do Brasil, um movimento atraiu as atenções. O
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) claramente mostrou que estava de
volta ao ringue político-eleitoral. Aproveitou a data patriótica do 7 de
Setembro para, em um vídeo divulgado nas redes sociais, fortalecer a
polarização com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Apostou como nunca
num discurso pró-minorias, teceu críticas ao Governo e ao manejo da pandemia,
falou de economia e política externa. Ensaiou apontar soluções. Fez questão de
publicar versões do discurso em espanhol, inglês e francês. Com seus 23 minutos
de vídeo, lançou de vez um questionamento: Lula será candidato à sucessão
presidencial em 2022? A pergunta foi feita até pela consultoria de risco
político internacional Eurasia. No que depender do Judiciário, a resposta hoje
seria não. Ele tem condenações por corrupção em segunda instância na Justiça e,
portanto, é considerado ficha-suja. Pelas regras atuais, quem for condenado por
um colegiado de juízes não pode disputar o pleito.
E os embates com a Justiça
estão longe de acabar. Além de ser réu em seis processos, nesta segunda a
força-tarefa da Operação Lava Jato resolveu fazer uma nova denúncia contra
Lula, acusando-o de lavagem de dinheiro ao receber doação da Odebrecht para seu
instituto. A defesa do petista rebateu: disse que os procuradores não têm
nenhuma prova nas mãos e apenas reagem aos reveses recentes que a Lava Jato
sofreu no Supremo Tribunal Federal.
De fato, o clima tem estado
mais hostil para a Lava Jato na mais alta Corte. O que eleva a esperança dos
petistas de que Lula possa sonhar com a candidatura é uma possível vitória no
Supremo nos processos que pedem que o ex-juiz Sergio Moro, que deixou a
magistratura para se tornar ministro de Bolsonaro, seja considerado suspeito
por ter condenado pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Um deles,
que deve ser julgado até novembro, trata da sentença de nove anos e meio de
prisão que Moro emitiu contra Lula no caso do tríplex do Guarujá ―a condenação
foi aumentada para 12 anos posteriormente pela segunda instância. Esse processo
tramita na Segunda Turma do STF, já tem dois votos contrários a Lula (Cármen
Lúcia e Edson Fachin) e duas sinalizações de apoio ao petista (Gilmar Mendes e
Ricardo Lewandowski). Mendes pediu vistas do processo e prometeu levá-lo a
julgamento antes de novembro, quando o outro ministro da turma e potencial voto
de minerva, Celso de Mello, deverá se aposentar compulsoriamente.
Para o cientista político
Paulo Cesar Nascimento, professor da Universidade de Brasília (UnB), a fala do
ex-presidente serve para incentivar o clima de radicalização e polarização com
Bolsonaro, num momento em que o presidente vive um momento de alta de
popularidade. O sucesso da estratégia ainda é incerto. “O Lula está de volta ao
ringue. Mas ele já não depende mais só de si mesmo. Sua vida está presa ao que
o Judiciário decidir. Enquanto isso, o PT continua se prendendo a figura de seu
principal líder”. E essa polarização é que os dois lados querem.
Na direção petista, há a
forte defesa da candidatura do ex-presidente. “Não há outra liderança que faça
um contraponto ao Bolsonaro como ele faz. Por isso insistimos no nome do Lula”,
diz a presidenta da legenda, a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR). A
aparição de Lula nas redes sociais estava sendo programada há alguns meses. E a
ideia era de parecer com um discurso de estadista, preocupado com a população.
“Há tempos ele queria falar do Brasil, para o Brasil. E principalmente da
questão da soberania, da democracia e da liberdade. Queria fazer um discurso
que tivesse começo, meio e fim”, afirmou a deputada.
Prova de fogo
Um teste para saber se seu
discurso ainda está reverberando junto aos seus eleitores será nas eleições
municipais de novembro próximo. Lula será cabo eleitoral nas principais cidades
em que o PT tiver candidato. Com a pandemia de coronavírus, sua participação
será virtual, com a gravação de vídeos para seus aliados. Como estratégia de
fortalecer sua hegemonia na esquerda, o PT prevê lançar concorrentes às
prefeituras de 1.531 dos 5.568 municípios brasileiros ―mas,mesmo em bastiões
tradicionais como São Paulo, enfrenta problemas, com candidatos pouco
competitivos. A legenda deve fazer poucas alianças com outras siglas, como o
próprio Lula sinalizou no discurso de 7 de setembro. Em nenhum momento ele
tratou do tema em sua fala. O mais próximo que chegou disso, conforme a própria
presidenta da legenda, foi quando disse: “Não contem comigo para qualquer
acordo em que o povo seja mero coadjuvante”.
Ao decidir fazer um longo
discurso exclusivo nas redes sociais, Lula tenta expandir sua influência para
uma rede até então dominada por bolsonaristas. Até esta segunda-feira, dia 14,
o longo discurso de Lula tinha cerca de 740.000 visualizações ―quase sete vezes
mais que os quatro minutos da fala de Bolsonaro em rede nacional no mesmo dia
7. Em seu discurso, o atual mandatário falou que é a favor da liberdade das
pessoas, que defende a Constituição e a democracia, e citou, entre outros
temas, a “sombra do comunismo”.
Um comparativo feito por
Pedro Bruzzi, sócio da consultoria de análise de mídias sociais Arquimedes, e
publicado no site da revista Piauí, mostra que Lula conseguiu o raro feito de
superar Bolsonaro no YouTube. Mas ambos perderam para o neófito deputado André
Janones (AVANTE-MG) que em duas lives no Facebook no mesmo 7 de setembro obteve
quase 4 milhões de visualizações, ultrapassando Bolsonaro e Lula ao falar do
alto preço do arroz, um fantasma que vem assombrando o Governo e que não aparece
no radar do petista. Ainda é cedo para dizer o quanto de estrago a inflação dos
alimentos fará na recém reforçada popularidade de Jair Bolsonaro, que angariou
mais simpatia nas classes mais pobres justamente por causa do amplo programa de
transferência de renda iniciado durante a pandemia, cujo futuro no ano que vem
ainda é incerto. O auxílio emergencial pago também aos beneficiários do Bolsa
Família, uma marca dos anos Lula, pode ser o atalho perfeito para os planos de
Bolsonaro de rebatizar de vez o programa e apagar o que resta da memória de
bonança dos anos de seu maior adversário.

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