Givaldo
Calado de Freitas *
Estava a organizar e
ordenar alguns álbuns de família. Ofício que carrega a gente de saudade. De
emoção. De tantas emoções... De trabalho? Que nada! É prazeroso. De repente,
surpresas mil. E mais surpresas porque eles registram passagens de nossas
vidas, que imaginávamos apagadas de nossas memórias. E que, de chofre, a gente
volta ao passado, e se reencontra com momentos que gostaríamos que voltassem.
Em mãos, faz pouco, fotos de minhas filhas, Germana e Giovanna, com suas avós,
Deolinda e Eulália.
Bate-me intensa saudade.
Lembrança de momentos vividos com as duas. Uma, minha mãe. A outra, minha
sogra. Delas, sempre tenho grandes passagens e lembranças a recordar. Que me
apertam o coração. Para mim, duas Santas. No que pese de estilos de vida
diferentes. Minha mãe, mais afirmativa, corajosa e agitada. Minha sogra, mais
comedida, passiva e tranquila. Duas Santas, no entanto - repito. Santas pelo
carinho e pelo amor que dispensavam a todos, indistintamente. Pobres e ricos.
Brancos e pretos. Letrados e iletrados. Poderosos e oprimidos.
Irreprimivelmente dedico o
maior respeito a todos os meus que se foram. Olho-os. Volto a olhá-los com
solenidade e reverência. Que, às vezes, passa-me a lembrança do temor que deles
tinha no limiar de minha existência. Nos meus verdes anos de criança.
Dos meus ancestrais, só
conheci vovô Assis. “Coronel Assis”, como o chamavam. Não conheci minha avó
Flora.
Minha mãe falava muito de
sua doçura. De sua religiosidade. De seu apego às obras divinas. Foi meu “tio
Luiz”, irmão de minha mãe quem, em vida, me presenteou com uma pintura,
retratando a imagem de meus avós maternos. Há pouco mandei restaurá-la. E está,
lá, na minha Galeria.
Não tenho, no entanto, no
meu acervo, nada que me lembre de meus avós paternos. Por quê? Nunca soube.
Nunca me disseram. Gostaria tanto de vê-los em pintura para poder restaurar
como fiz com a pintura da imagem de meus avós Assis e Flora. E completar minha
galeria. Que cuido com tanta paixão. E com tanto orgulho.
Sou, incorrigivelmente,
adepto dessas fotos do passado. Recentes, distantes... Sou, nesse ponto, à
antiga. Gosto! Como diria a cronista Fátima Quintas, gosto de sentir a
"consanguinidade dos ancestrais, de modo a cultuá-los com
veemência.". Sobretudo quando registram encontros como esses: duas avós
que se foram com duas netas que as queriam tanto.
Em minha casa, tenho um
espaço só para esses registros. Aqueles que lá adentram, me dizem que gostam
muito. Cobrem-me de elogios. Que espero sinceros.
Cultuo fotos, sobretudo de
família. De ascendentes. De descendentes - avós, pais, irmãos, primos, filhos,
netos... Enfim, de todos. Da consanguinidade. E daqueles e daquelas que se
juntaram a ela. A essas fotos, dedico solenes altares e respeitáveis liturgias.
Que me conferem a sensação de estar mais próximo do meu Criador. E esse estado
me anima. E esse estado me enriquece. Faz-me bem. Deixa-me feliz.
Às vezes, em casa, desço
para contemplá-las. E fico a dizer-me: faltam tantas. Tantas...
* Figura pública. Advogado de empresas.
Empresário


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