quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Argentinos olham para o futuro com poucas esperanças, mergulhados em sua enésima crise econômica

Homem caminha em frente a uma casa de câmbio de Buenos Aires. JUAN IGNACIO RONCORONI / EFE


Do El País

 

“A situação econômica é catastrófica, as pessoas estão muito tristes”, diz Luis, atrás do balcão de sua loja de comida para animais de estimação em um bairro de classe média de Buenos Aires. A Argentina está acostumada a crises econômicas recorrentes, mas a pandemia de covid-19 agravou a enésima recessão que o país sofre, desta vez desde meados de 2018. O Produto Interno Bruto (PIB) da Argentina caiu 19,1% no segundo trimestre do ano, o maior colapso trimestral desde o início da série estatística em 1981. Entre janeiro e março de 2002, no pior momento da crise do corralito, que eclodiu no final de 2001, a economia havia retrocedido 16,3%.

 

A recessão atual teve um impacto severo sobre a parte inferior da classe média e, é claro, sobre os pobres. O Governo de Alberto Fernández protegeu o emprego formal com leis e subsídios, mas o golpe para quem não tinha contrato foi duro. Numerosos pedreiros, empregadas domésticas, garçons e trabalhadores do comércio, entre outras profissões com elevada proporção de trabalho informal, perderam os seus rendimentos ou os viram reduzidos a um valor abaixo do limiar da pobreza. O número de pobres cresceu mais de cinco pontos percentuais na primeira metade do ano: de 35,5% para 40,9%. Em 2017, último ano de crescimento da economia argentina, a pobreza era de 25,7%.

 

A pandemia também acabou com muitas empresas. Restaurantes, bares, salões de festas e academias baixaram as portas após meses de fechamento obrigatório para evitar a propagação da covid-19. Outros se transformaram em quitandas, lojas de ferragens ou de brinquedos. É o caso do negócio administrado por Federico Cillarroca. As piscinas de bolinhas e escorregadores que recebiam as crianças nesse salão de festas infantis de aniversário desapareceram e ele passou a colocar à venda brinquedos de todos os tipos. “Estamos fazendo o possível para superar o choque. Continuamos pagando os empregados, o que não é pouco. Há muitas famílias que dependem disso, animadores, garçons, maquiadores, mágicos, a moça que faz os bolos, os fornecedores de salgadinhos ... São 20 ou 30 famílias, por aí”, diz. Cillarroca.

 

“Estar na Argentina significa ter muitas crises, com quedas e altas no consumo, quedas e altas na lucratividade, e é preciso ir lidando com tudo isso, temos alma de empreendedores. Mas isto agora é diferente, todo fechou. Receita zero e as despesas se mantiveram”, lamenta Cillarroca. É a mesma opinião da gerente de uma academia próxima, Carolina Vielman. Reabriram as portas nesta semana, após 222 dias de fechamento obrigatório, e estão de volta à atividade com menos de um terço dos clientes que tinham em março: passaram de 1.400 para 400.

 

O subsídio que o Governo deu a milhares de empresas contribuiu para que pagassem parte dos salários aos empregados, mas muitos negócios acumulam grandes dívidas com a Receita ou com as empresas que fornecem luz, água e luz, e não sabem como vão saldá-las. “Está tudo muito tranquilo, não se vende quase nada”, lamenta Miriam, dona de uma papelaria que não se lembra de um momento mais difícil nos cinco anos em que está com a loja aberta.

 

Julio Cabrera escolheu o caminho oposto de muitos: crescer para sobreviver. “Cresci porque este item não caiu com a pandemia. Além disso, tinha que deixar as instalações anteriores e baixar as portas seria fechar definitivamente e parar de vender”, diz este vendedor de brinquedos de 44 anos, pai de três filhos.

 

Sem acesso aos mercados de crédito até que o Governo renegocie a dívida com o FMI, a Argentina financia a paralisação econômica da pandemia com a emissão de moeda. Somente no primeiro semestre, o Banco Central emitiu mais de 1,35 trilhão de pesos (98,3 milhões de reais) para cobrir o déficit fiscal e financiar subsídios como a Renda Familiar de Emergência, distribuída a nove milhões de pessoas. O nível de emissão é tão alto que a Argentina teve que importar 400 milhões de notas do Brasil.

 

 

À espera de uma desvalorização

 

 

A emissão aumenta a pressão inflacionária —em setembro houve alta de 37% em relação ao mesmo período do ano anterior—, mesmo neste contexto de crise e com severos controles do mercado de câmbio. O dólar é vendido a 83,50 pesos no mercado oficial, no qual há cada vez mais obstáculos para acesso, e a mais do que o dobro —169 pesos por dólar, mas chegou a 200 pesos há uma semana— no mercado paralelo.

 

Ninguém acredita que a defasagem cambial possa permanecer tão elevada, por isso há o temor de uma desvalorização que acelere ainda mais os preços.

 

“Não posso comprar dólares, então, estoco mercadorias”, diz Luis, mostrando um lugar por onde mal consegue se mover tantos são os sacos enormes de comida para cães e gatos. “No ano passado já vimos isso, o peso desvalorizou-se em 20% e de um dia para o outro essa perda foi transferida para os preços”, argumenta para justificar a compra antecipada.

 

“Há muita gente querendo trabalhar, mas tudo está parado por vários motivos. Um, porque as prefeituras não estão funcionando e não emitem alvarás de construção. Quando trabalharem, vai haver uma grande quantidade de licenças e um funil aí também. Depois, acontece que há obras que estão sendo feitas, mas não há nem ferro nem concreto porque as cimenteiras e as siderúrgicas não estão entregando, estão açambarcando, esperando a desvalorização. Mesmo se você quiser construir, não pode”, afirma Roberto Barcala, arquiteto autônomo.

 

Além da transformação de muitos negócios, este arquiteto acredita que a pandemia também trará mudanças urbanísticas importantes, como se vê no súbito interesse pelos countries, que é como chamam na Argentina os condomínios privados na periferia das cidades. Muitos escritórios do centro da cidade ficaram desertos e, pelo contrário, o teletrabalho obrigou a reorganizar o interior das casas.

 

O futuro imediato preocupa os argentinos. O aumento do preço das matérias-primas ajudou a Argentina a sair da crise de 2001-2002, mas o contexto internacional agora é muito diferente, com uma recessão mundial. "Ano que vem será pior, estou com muito medo. Acho que se não tivesse família iria morar no exterior ", prevê Luis, pai de dois filhos adolescentes. Outros, como Cabrera, o vendedor de brinquedos, confiam na recuperação do país: “Sempre penso para cima, senão, fecho e começo a vender sanduíches. A situação é muito complicada, mas sou muito otimista. No ano que vem estaremos melhor. O que mais podemos pensar? É preciso seguir de alguma maneira”.

sábado, 31 de outubro de 2020

Sean Connery, o ator que se consagrou como James Bond, mas não ficou refém do personagem

Sean Connery em um evento em Washington, em 2001. MARK WILSON / GETTY

 

Do El País

 

A fuga mais espetacular estrelada por Sean Connery foi associar sua imagem à de James Bond para a eternidade e conseguir deixar para trás o personagem para consolidar uma carreira artística de prestígio incomparável. O ator escocês (Edimburgo, 1930) morreu neste sábado, aos 90 anos, “pacificamente, enquanto dormia, em sua casa nas Bahamas, após um breve período de doença”, explicou seu filho Jason. Connery nunca esqueceu os dois traços principais que o marcaram desde o início: sua origem humilde e escocesa. E ele estava determinado a pagar as duas dívidas.

 

Nascido em um bairro da classe trabalhadora de Edimburgo, o filho de um motorista de caminhão e de uma faxineira tornou-se o ícone por excelência de elegância, classe e sucesso. E não precisava se livrar do forte sotaque escocês, embora durante anos tenha camuflado sua calvície: quando deixou Bond para trás, ele não dedicou mais nenhum minuto de suas preocupações ao personagem. A revista People o escolheu em 1999 como “o homem mais sexy do século”. O ator Alec Baldwin diz que, quando foi convidado para estrelar The Hunt for Red October e compartilhar o pôster com Connery, respirou aliviado. O escocês tinha então 60 anos. “Foi na primeira cena que filmamos, quando ele apareceu com aquele cabelo prateado e sua voz foi ouvida, e eu percebi que não tinha nada para fazer, meu papel já havia impregnado por todo o filme”.

 

O jovem Sean não imaginava que seu futuro estivesse no cinema. Ele se alistou na Marinha Real Inglesa em 1946 e, em seu retorno, trabalhou como leiteiro, praticou fisiculturismo e ganhou um terceiro lugar honroso em um concurso de Mister Universo. Até que ele se juntou a uma companhia de teatro itinerante e começou a conseguir papéis cada vez mais relevantes. Antes de ser o Agente 007, ele seduziu Lana Turner em Mists of Restlessness e foi o amante de Anna Karenina, o Conde Vronski, na adaptação da peça para a BBC em 1961. James Bond, então, mudaria sua vida. Era difícil pensar em um ator escocês personificando o sofisticado agente secreto da imaginação de Ian Fleming, um escritor culto, elegante e esnobe, educado em uma escola particular em Eton, o berço das elites britânicas. Fleming ficou horrorizado com a escolha, para a qual nomes como Cary Grant ou David Niven haviam sido cogitados.

 

James Bond, seu personagem mais marcante


Quando viu Connery em Agente 007 vs. Doutor No, o escritor refez partes de seus romances e roteiros para dar ao protagonista uma ancestralidade meio escocesa. "Foi um privilégio conhecer o Sean. A última vez que falei com ele, ficou claro que sua saúde estava falhando, mas a voz, o espírito e a paixão que todos nós amamos nele ainda estavam lá. Eu vou sentir falta dele. A Escócia vai sentir sua falta. O mundo vai sentir falta dele ", escreveu o ministro-chefe escocês Nicola Sturgeon ao ouvir a notícia de sua morte. Apenas mais uma entre a enxurrada de vozes públicas que se somaram às condolências. Atores, produtores, políticos e até mesmo a montadora britânica Aston Martin, cujo nome sempre esteve associado à imagem de Bond, mas principalmente de Connery. “Descanse em paz, Sean Connery. Antes de interpretar James Bond, ele serviu seu país quando jovem, na Marinha Real, a bordo do HMS Formidable”, tuitou o Ministério da Defesa do Reino Unido.

 

Connery posa com um Aston Martin DB5, de 1964


A encarnação do espião “a serviço de Sua Majestade”, que consolidou a imagem do personagem ao longo de sete filmes, foi paradoxalmente escocesa e profundamente britânica. “Não somos deuses, mas somos ingleses, que é o mais próximo que você pode ser”, disse Peachy Carnehan, O Homem Que Poderia Reinar, na adaptação premiada do diretor John Huston do conto de Rudyard Kipling. Sean Connery e Michael Caine. Dois deliciosos iconoclastas que provaram que a elegância não tem outra receita senão a autenticidade.

 

Enquanto o resto da humanidade debatia quem era o melhor Bond, Connery continuou a criar personagens humanos com incrível virilidade e firmeza. Ou com um magnetismo tão poderoso quanto a própria voz do ator. A busca do conhecimento, da ternura e da habilidade de detetive de Guillermo de Baskerville, em O Nome da Rosa (1987); a honestidade e dureza de Jim Malone, o veterano policial de Os Intocáveis (1987); o terno e crepuscular Robin Hood de Robin e Marian (1976); ou Henry Jones, o excêntrico, travesso e sedutor pai de Indiana Jones em Indiana Jones e a Última Cruzada (1989).

 

'Os Intocáveis', dirigido por Brian de Palma e interpretado por Andy García, Sean Connery, Kevin Costner y Charles Martin Smith


Connery nunca se esqueceu da Escócia. Em 1967, dirigiu pela primeira e última vez um documentário em preto e branco intitulado The Bowler And The Bunnet, no qual o ator narrava em primeira pessoa as ruínas deixadas pela reconversão dos estaleiros escoceses. E ele mostrou seu apoio ao movimento pela independência durante o referendo de 2016 e em anos anteriores. Parte de sua imensa fortuna como ator foi destinada para ajudar jovens escoceses com o Scottish International Educational Trust, que ele fundou em 1971. “Eles me pediram para fazer outro filme de James Bond, e eu disse que não, porque estava farto do personagem. Mas então percebi que seria uma boa ideia dedicar 14 semanas de trabalho a 007, os Diamantes são Eternos em troca do milhão de dólares do contrato indo direto para a fundação”, explicou o próprio ator em um documentário sobre sua vida produzido pela BBC.

 

“Ele tinha um carisma extraordinário”, diz a atriz Julia Ormond, que interpretou Guinevere em Lancelot, o primeiro cavaleiro diante de Connery como Rei Arthur. “E não sei se tem a ver com ter uma vagina ou não, porque conheço muitas pessoas sem vagina que consideram isso incrivelmente sexy.” Sua capacidade de sedução correspondia a uma época, agora muito distante, em que se tolerava certa condescendência verbal em relação à violência contra a mulher. E Connery tinha algo disso. Seu primeiro casamento, com a atriz Diane Cilento, durou 11 anos e foi marcado por acusações de maus-tratos. Seu segundo matrimônio, com a pintora franco-marroquina Micheline Roquebrune, durou até o fim de sua vida.

 

Sean Connery relaxa entre as filmagens de 'Diamantes são Eternos', em 1971.ANWAR HUSSEIN / GETTY


Frequentador de Marbella, paraíso turístico do litoral espanhol, o glamour do ator acabou maculado por uma questão judicial envolvendo a reclassificação irregular de terras. A essa altura, ele já havia estabelecido sua residência em Nassau e nunca compareceu ao julgamento alegando problemas de saúde. Hoje, o James Bond representado por Daniel Craig é um personagem complexo e atormentado que duvida da própria vida amorosa, mas o ator britânico definiu Connery como o homem que marcou uma época e um estilo, “com um brilho e elegância em tela que poderiam ser medidos em megawatts”. Ele sempre manteve as duas tatuagens de seu tempo na Marinha: “Mum and Daf” (mamãe e papai) e “Scotland Forever” (Escócia sempre). As duas origens que sempre o acompanharam, “agitadas, não mexidas”, como o Dry Martini de Bond.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Com bate-boca entre ministros, STF abre batalha interna sobre “superpoderes” ao presidente da Corte

O presidente do STF, Luiz Fux, durante julgamento do Tribunal. EVARISTO SA / AFP


 Do El País

 

Após dois dias de julgamento, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta quinta-feira, por 9 votos a 1, manter a decisão de Luiz Fux, presidente da corte, de derrubar uma liminar monocrática do ministro Marco Aurélio Mello que dava liberdade ao traficante André de Oliveira Macedo, o André do Rap, foragido desde o sábado (10). A votação, no entanto, acabou em segundo plano diante de uma discussão que começou a ganhar corpo na quarta-feira e explodiu com força no plenário hoje: a possibilidade de que o presidente da corte tenha o direito de cassar por conta própria uma decisão de outro ministro que, em teoria, é o seu par ―ou seja, conceder uma espécie de “superpoder” ao condutor do tribunal, cujo mandato dura dois anos.

 

A disputa em torno do tema foi explicitada pelo próprio Marco Aurélio Mello. Durante seu voto – o único a favor da manutenção da própria liminar ―, ele afirmou que “o que está em jogo nesse julgamento é saber se o presidente pode tirar a tutela de um caso jurídico de um par da corte”. Disse ainda que o presidente “não pode ser um censor entre seus iguais, levando o Supremo ao descrédito”. Na mesma linha, Ricardo Lewandowski disse que isso significaria transformar os presidentes dos tribunais em “superministros”, com mais poderes que os demais integrantes da corte. Ele defendeu que os magistrados mantenham o poder de tomar decisões monocráticas com maior facilidade em casos urgentes, citando como exemplo sua decisão que permitiu ao EL PAÍS e à Folha de S. Paulo entrevistarem em abril de 2019 o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, então encarcerado em Curitiba.

 

Gilmar Mendes, um dos mais veementes contra os “superpoderes”, disse que, caso essa possibilidade seja aceita, ela teria que ser estendida para todos os demais tribunais do país ―o que geraria, segundo ele, “uma grande jabuticaba, toda uma jabuticabeira, uma verdadeira confusão”. Para o ministro, caso a decisão seja adotada, a presidência das cortes passaria a funcionar como “censura da ordem pública”, criando “uma hierarquia que não existe dentro do tribunal”. A própria fala de Mendes dá uma ideia da dimensão que a disputa ganhou sobre o Supremo. Ele falou por quase uma hora sobre a questão dos “superpoderes” ―e menos de 30 minutos sobre a decisão supostamente principal em jogo.

 

Por sua vez, ao final do voto de Mello, Fux tentou negar a possibilidade de ganhar novos poderes. Segundo ele, a decisão adotada no caso de André do Rap foi uma “circunstância excepcionalíssima”. Em sua fala, afirmou que “não tenho nenhuma pretensão de ter superpoderes, mas tenho toda a intenção de manter a imagem do Supremo Tribunal Federal”. Não parece ter sido o suficiente para acalmar os ânimos. A tensão foi detonada no final do julgamento, com um início de bate-boca entre Fux e Mello. “Só falta essa, Vossa Excelência querer me ensinar como votar. Não imaginava que seu autoritarismo chegasse a tanto”, disse Mello, achando que estava sendo pressionado pelo presidente. “Só falta Vossa Excelência querer me peitar para eu modificar meu voto”. Fux se limitou a responder pedindo respeito a ele e ao tribunal como um todo.

 

“Uma só voz”

 

Negativas à parte, ontem mesmo uma outra ala dos ministros havia sinalizado a possibilidade de diminuir o poder individual dos magistrados, com uma alteração no regimento interno que faria com que a maior parte das decisões monocráticas tivesse que ser analisada de forma rápida pelo pleno do colegiado, formado por 11 ministros, que poderia ou não confirmar a decisão. Nas palavras do ministro Luís Roberto Barroso, “devemos falar sempre a uma só voz, sem que ninguém possa individualmente personificar o tribunal. Importa em perda de poder do relator mas, ao meu ver, é compensado pelo fortalecimento do tribunal”. Algo que deverá enfrentar forte resistência de parte dos ministros, como evidenciado hoje.

 

Caso essa medida avance, seria uma espécie de desdobramento da decisão tomada no início do mês de devolver ao plenário ―ao invés de deixar os julgamentos concentrados nas duas turmas da instituição ―todos os inquéritos e ações penais envolvendo autoridades com foro privilegiado, como políticos, ministros e juízes de outros tribunais. Na ocasião, o movimento foi visto como uma tentativa de blindar a corte da influência do presidente da República, Jair Bolsonaro, que deverá indicar pelo menos dois ministros para o STF até 2022 ―mas com a consequência de diminuir o peso individual dos ministros.

 

Sem surpresas

 

No julgamento do caso propriamente dito de André do Rap, não houve surpresas. A decisão estava desenhada desde ontem, quando seis integrantes do Supremo haviam formado maioria para a decisão de Fux em derrubar a liminar de Mello. Hoje, mais três ministros ―Cármen Lúcia, Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes ―também se manifestaram favoravelmente à decisão, argumentando que a soltura do preso não deve ser automática após o fim do prazo legal, o principal argumento usado por Mello para libertar o criminoso.

 

Já o próprio Marco Aurélio Mello defendeu sua postura: “não me sinto, em que pesem as inúmeras críticas, no banco dos réus”. Segundo ele, “a regra é a liberdade, e a exceção é a prisão, embora os que têm a chibata na mão não pensem assim”. Em seu voto, o ministro afirmou que houve falha do juiz responsável por analisar o afastamento de André do Rap antes do vencimento do prazo de 90 dias da prisão preventiva, como prevê a lei aprovada recentemente. Segundo ele, boa parte dos detidos no sistema penitenciário brasileiro está em situação inconstitucional. Foram dez votos, uma vez que a vaga do ministro Celso de Mello – aposentado oficialmente esta semana – ainda não foi preenchida. Kássio Nunes, indicado por Bolsonaro, deverá ser sabatinado pelo Senado na próxima semana.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Bolsonaro anuncia Kássio Nunes para o STF, para crítica de aliados que pediam alguém mais conservador

 

O desembargador Kássio Nunes. SAMUEL FIGUEIRA/TRF-1 /

Do El País

 

O presidente Jair Bolsonaro oficializou nesta quinta-feira a indicação do desembargador Kássio Nunes Marques, de 48 anos, para a vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), que será aberta em 13 de outubro com a aposentadoria de Celso de Mello. A indicação ocorreu em transmissão ao vivo em suas redes sociais. Segundo o mandatário, o nome de Nunes Marques constará do diário oficial desta sexta-feira, dia 2. O magistrado tem apoio do Centrão, fisiológico grupo de centro direita que tem comandado a base de apoio de Bolsonaro no Congresso Nacional. O presidente do Progressistas e investigado na Operação Lava Jato, o senador Ciro Nogueira, é o seu principal cabo eleitoral no Senado. Para ser nomeado, o desembargador passará uma sabatina no Senado.

 

O nome de Nunes Marques passou a ser ventilado pelo presidente na quarta-feira passada e foi considerado uma surpresa até pelos aliados mais próximos, já que o mandatário tinha dito em diversas ocasiões que indicaria uma pessoa “terrivelmente evangélica” para a Corte. Ele é católico e sem trajetória explícita de votos conservadores nos costumes. Foi advogado entre 1994 e 2011, quando foi indicado passou a compor o Tribunal Regional Federal da 1ª Região por indicação da presidenta Dilma Rousseff (PT).

 

A confirmação do presidente ocorre antes mesmo da aposentadoria oficial de Celso de Mello, o que foi considerada uma indelicadeza do Planalto com o decano, uma autoridade moral na Corte. A pressa de Bolsonaro foi uma tentativa de diminuir as críticas vindas da militância bolsonarista, que sempre esperou um juiz conservador no tribunal. Nunes Marques é um crítico das posições da Lava Jato, o que sinaliza que o presidente decidiu acenar à sua base de apoio no Congresso, acossada pela operação.

 

Nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp que servem de base de sustentação ao bolsonarismo, as críticas eram de que o presidente estaria privilegiando um “petista de carteirinha”. Uma das mensagens que circulou foi de que, à diferença de seu ídolo Donald Trump, que nomeou uma conservadora antiaborto ao Supremo, Bolsonaro se dobra ao sistema: “Acorda, Bolsonaro!!! Enquanto Donald Trump coloca na sua alta corte uma juíza conservadora, aqui o presidente que se elegeu com a pauta conservadora quer colocar um juiz alinhado com a esquerda progressista e com o pior da politicagem no Congresso”.

 

Até então, Nunes Marques tinha um perfil discreto. Em Brasília ele vinha se apresentando como potencial ministro do Superior Tribunal de Justiça, o tribunal imediatamente anterior ao STF. Teve destaque no noticiário nacional quando decidiu derrubar liminar da primeira instância que havia suspendido uma licitação do STF para contratar fornecimento de comida, que incluía insumos de luxo, como lagosta. As compras foram mais um episódio usado por críticos, em especial estridentes nomes da base bolsonarista, contra a Corte. Segundo análise da BBC Brasil, o desembargador também se mostra próximo do Governo Bolsonaro ao julgar questões indígenas, ambientais e de interesse do setor agropecuário. Em 2019, o desembargador vetou a retirada de não indígenas do território da etnia Bororo, no Mato Grosso.

 

“Queriam quem? Sergio Moro?”

 

Nesta quinta, Bolsonaro aproveitou a transmissão ao vivo para responder aos críticos. Afirmou que seu indicado estava levando “tiros” à toa. “Todo mundo aqui ao longo de 14 anos de PT teve alguma ligação”. E complementou: “Ano passado todo e até abril neste ano, vocês [militantes] queriam quem para o Supremo? O Sergio Moro”, o ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro da Justiça que rompeu ruidosamente com o Governo no primeiro semestre. Bolsonaro lembrou que, quando Moro deixou o Governo, recebeu várias queixas em suas redes sociais. “Diziam no meu Facebook: Acabou, acabou!”.

 

O presidente disse que havia dez excelentes currículos sobre sua mesa, mas que queria indicar ao STF alguém quem conhecia, com quem se relacionava. Por isso, escolheu Kássio Nunes, com quem já tomou umas “tubaínas”. Enquanto a transmissão ocorria, diversos internautas reclamavam: “#conservador no STF”, “decepção”, “Kássio Nunes não”. Foi a deixa para que o mandatário provocasse seus aliados. “E daí? Quer que eu faça o quê? Vocês querem o Sergio Moro para o Supremo? Será que ele será um ministro leal às nossas causas? Será que ele será aprovado no Senado Federal?”.

 

Apesar do enfrentamento, durante a transmissão, Bolsonaro renovou as promessas para a sua próxima indicação, em junho do ano que vem, com a aposentadoria compulsória do ministro do Supremo Marco Aurélio Mello, que completará 75 anos: “Tem de ser terrivelmente evangélico. E tem de tomar tubaína comigo”. Entre os ainda cotados estão os ministros Jorge Oliveira (Secretaria-Geral) e André Mendonça (Justiça).

 

No meio jurídico a indicação recebeu elogios e críticas. Entre os que criticaram está a Associação dos Magistrados do Brasil, que defende que a vaga do STF deveria ser ocupada por um juiz de carreira, não por um advogado que virou desembargador. Entre parte dos advogados, contudo, a indicação é bem vista. “Aparentemente preenche os requisitos para ministro do STF, de notável saber jurídico e reputação ilibada. Não estará sendo indicado por critérios políticos ou religiosos, mas por preencher critérios constitucionais”, afirmou o advogado Belisário dos Santos Júnior, ex-secretário de Justiça de São Paulo.

 

O substituto de um ministro do STF costuma herdar todos os processos de quem sai. Porém, no caso de Nunes Marques, não está claro se ele vai receber todos os casos em que Celso de Mello atuava como relator. A dúvida surge, principalmente, porque Mello relata o inquérito em que Bolsonaro é acusado de interferir politicamente na Polícia Federal, um caso levantado por Moro. O decano também é o responsável pelo processo em que o senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, pede que a investigação contra ele por supostos desvio de recursos de antigos assessores de seu gabinete ―a rachadinha―, seja julgada por um tribunal colegiado, não por um juiz de primeira instância. Há uma tentativa dentro do Supremo de repassar esses processos para outro ministro relatar para trazer isenção ao julgamento, já que não seria um indicado pelo presidente Bolsonaro que estaria analisando diretamente uma queixa que o envolva.

 

No Senado, a expectativa é que os parlamentares agendem a sabatina de Nunes Marques para o dia 14 de outubro.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Encontro na casa de Gilmar selou indicação de Kassio Marques ao Supremo

 

Desembargador Kassio Nunes Marques, indicado por Bolsonaro para o STF. Foto: Ramon Pereira/Ascom TRF1

Do Estadão

 

Uma reunião na casa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, na noite dessa terça-feira, 29, selou a escolha do desembargador Kassio Nunes Marques para ocupar a cadeira de Celso de Mello na Corte. Na tentativa de se aproximar do STF e da classe política, o presidente Jair Bolsonaro pediu ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), que fizesse a intermediação para o encontro.

 

Alcolumbre ligou, então, para Gilmar, que logo providenciou uma reunião em sua casa. O ministro Dias Toffoli, que deixou a presidência do Supremo no último dia 10, também foi convidado para a conversa. Com Kassio Nunes Marques a tiracolo, Bolsonaro fez elogios à Corte e afirmou estar confiante na independência e harmonia entre os Poderes.

 

Ex-vice-presidente do Tribunal Regional Federal da 1.ª Região, Kassio teve a indicação aprovada pelos magistrados do STF, que foram surpreendidos com a escolha. O decano Celso de Mello vai se aposentar no próximo dia 13 e, até pouco tempo atrás, Kassio era cotado não para essa vaga, mas para ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

 

A conversa na casa de Gilmar durou duas horas, das 19h às 21h, e ocorreu em clima descontraído. Toffoli e Gilmar são os dois principais integrantes da ala crítica à Lava Jato no Supremo e têm uma relação próxima com Bolsonaro. Os dois sempre aconselharam o presidente a baixar o tom quando protestos contra a Corte faziam barulho na Praça dos Três Poderes.

 

Assessores do presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, não souberam informar se o ministro foi informado por Bolsonaro da escolha.

 

O favoritismo de Kassio na corrida ao Supremo pegou boa parte do governo de surpresa na manhã desta quarta-feira, 30. O Estadão apurou que o seu bom trânsito,  tanto no Congresso quanto no Judiciário, pesaram a favor da indicação. O desembargador já tinha bom relacionamento com Gilmar e com Toffoli.

 

Outro ponto a favor foi o fato de ele ser do Piauí. A possível indicação de Kassio é um gesto de Bolsonaro ao Nordeste, região da qual o presidente busca se aproximar, já de olho nas eleições de 2022.

 

Nas redes sociais, o senador Ciro Nogueira (PI), presidente do Progressistas, comemorou o favoritismo do conterrâneo.

 

Segundo integrantes do governo, o nome do desembargador surgiu e se apresentou como uma solução para os problemas de Bolsonaro, que tinha como opções os ministros da Secretaria-Geral, Jorge Oliveira, e da Justiça, André Mendonça.

 

A avaliação é a de que os dois ministros ocupam cargos-chave e a indicação de qualquer um deles implicaria em uma obrigatória mexida no governo. Oliveira está também no comando da Subchefia de Assuntos Jurídicos (SAJ), órgão responsável pelos atos jurídicos do presidente, e para o qual Bolsonaro não abre mão de uma pessoa de confiança.

 

Oliveira poderá ser indicado para uma segunda vaga no STF, no ano que vem. Até lá o escolhido por Bolsonaro para a Corte terá a tarefa de criar um ambiente menos hostil ao ministro da Secretaria-Geral, criticado por não ter um currículo jurídico robusto.

 

Bolsonaro já havia dito a auxiliares que queria para o Supremo um ministro com idade de até 50 anos – Kassio tem 48 –, e com bom relacionamento no Judiciário e no Congresso. O mandato de ministro do STF é vitalício e a aposentadoria compulsória ocorre somente aos 75 anos. O presidente estava atrás de um nome de confiança, que contemplasse seus interesses e ficasse por muito tempo à frente da Corte. (COLABOROU TÂNIA MONTEIRO)

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Lula volta ao ringue político e se prepara para testar influência nas municipais

O ex-presidente Lula participa de debate em Berlim, Alemanha, em 10 de março. RICARDO STUCKERT/INSTITUTO LULA

Do El País

Na semana em que se comemorou a independência do Brasil, um movimento atraiu as atenções. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) claramente mostrou que estava de volta ao ringue político-eleitoral. Aproveitou a data patriótica do 7 de Setembro para, em um vídeo divulgado nas redes sociais, fortalecer a polarização com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Apostou como nunca num discurso pró-minorias, teceu críticas ao Governo e ao manejo da pandemia, falou de economia e política externa. Ensaiou apontar soluções. Fez questão de publicar versões do discurso em espanhol, inglês e francês. Com seus 23 minutos de vídeo, lançou de vez um questionamento: Lula será candidato à sucessão presidencial em 2022? A pergunta foi feita até pela consultoria de risco político internacional Eurasia. No que depender do Judiciário, a resposta hoje seria não. Ele tem condenações por corrupção em segunda instância na Justiça e, portanto, é considerado ficha-suja. Pelas regras atuais, quem for condenado por um colegiado de juízes não pode disputar o pleito.

E os embates com a Justiça estão longe de acabar. Além de ser réu em seis processos, nesta segunda a força-tarefa da Operação Lava Jato resolveu fazer uma nova denúncia contra Lula, acusando-o de lavagem de dinheiro ao receber doação da Odebrecht para seu instituto. A defesa do petista rebateu: disse que os procuradores não têm nenhuma prova nas mãos e apenas reagem aos reveses recentes que a Lava Jato sofreu no Supremo Tribunal Federal.

De fato, o clima tem estado mais hostil para a Lava Jato na mais alta Corte. O que eleva a esperança dos petistas de que Lula possa sonhar com a candidatura é uma possível vitória no Supremo nos processos que pedem que o ex-juiz Sergio Moro, que deixou a magistratura para se tornar ministro de Bolsonaro, seja considerado suspeito por ter condenado pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Um deles, que deve ser julgado até novembro, trata da sentença de nove anos e meio de prisão que Moro emitiu contra Lula no caso do tríplex do Guarujá ―a condenação foi aumentada para 12 anos posteriormente pela segunda instância. Esse processo tramita na Segunda Turma do STF, já tem dois votos contrários a Lula (Cármen Lúcia e Edson Fachin) e duas sinalizações de apoio ao petista (Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski). Mendes pediu vistas do processo e prometeu levá-lo a julgamento antes de novembro, quando o outro ministro da turma e potencial voto de minerva, Celso de Mello, deverá se aposentar compulsoriamente.

Para o cientista político Paulo Cesar Nascimento, professor da Universidade de Brasília (UnB), a fala do ex-presidente serve para incentivar o clima de radicalização e polarização com Bolsonaro, num momento em que o presidente vive um momento de alta de popularidade. O sucesso da estratégia ainda é incerto. “O Lula está de volta ao ringue. Mas ele já não depende mais só de si mesmo. Sua vida está presa ao que o Judiciário decidir. Enquanto isso, o PT continua se prendendo a figura de seu principal líder”. E essa polarização é que os dois lados querem.

Na direção petista, há a forte defesa da candidatura do ex-presidente. “Não há outra liderança que faça um contraponto ao Bolsonaro como ele faz. Por isso insistimos no nome do Lula”, diz a presidenta da legenda, a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR). A aparição de Lula nas redes sociais estava sendo programada há alguns meses. E a ideia era de parecer com um discurso de estadista, preocupado com a população. “Há tempos ele queria falar do Brasil, para o Brasil. E principalmente da questão da soberania, da democracia e da liberdade. Queria fazer um discurso que tivesse começo, meio e fim”, afirmou a deputada.


Prova de fogo


Um teste para saber se seu discurso ainda está reverberando junto aos seus eleitores será nas eleições municipais de novembro próximo. Lula será cabo eleitoral nas principais cidades em que o PT tiver candidato. Com a pandemia de coronavírus, sua participação será virtual, com a gravação de vídeos para seus aliados. Como estratégia de fortalecer sua hegemonia na esquerda, o PT prevê lançar concorrentes às prefeituras de 1.531 dos 5.568 municípios brasileiros ―mas,mesmo em bastiões tradicionais como São Paulo, enfrenta problemas, com candidatos pouco competitivos. A legenda deve fazer poucas alianças com outras siglas, como o próprio Lula sinalizou no discurso de 7 de setembro. Em nenhum momento ele tratou do tema em sua fala. O mais próximo que chegou disso, conforme a própria presidenta da legenda, foi quando disse: “Não contem comigo para qualquer acordo em que o povo seja mero coadjuvante”.

Ao decidir fazer um longo discurso exclusivo nas redes sociais, Lula tenta expandir sua influência para uma rede até então dominada por bolsonaristas. Até esta segunda-feira, dia 14, o longo discurso de Lula tinha cerca de 740.000 visualizações ―quase sete vezes mais que os quatro minutos da fala de Bolsonaro em rede nacional no mesmo dia 7. Em seu discurso, o atual mandatário falou que é a favor da liberdade das pessoas, que defende a Constituição e a democracia, e citou, entre outros temas, a “sombra do comunismo”.

Um comparativo feito por Pedro Bruzzi, sócio da consultoria de análise de mídias sociais Arquimedes, e publicado no site da revista Piauí, mostra que Lula conseguiu o raro feito de superar Bolsonaro no YouTube. Mas ambos perderam para o neófito deputado André Janones (AVANTE-MG) que em duas lives no Facebook no mesmo 7 de setembro obteve quase 4 milhões de visualizações, ultrapassando Bolsonaro e Lula ao falar do alto preço do arroz, um fantasma que vem assombrando o Governo e que não aparece no radar do petista. Ainda é cedo para dizer o quanto de estrago a inflação dos alimentos fará na recém reforçada popularidade de Jair Bolsonaro, que angariou mais simpatia nas classes mais pobres justamente por causa do amplo programa de transferência de renda iniciado durante a pandemia, cujo futuro no ano que vem ainda é incerto. O auxílio emergencial pago também aos beneficiários do Bolsa Família, uma marca dos anos Lula, pode ser o atalho perfeito para os planos de Bolsonaro de rebatizar de vez o programa e apagar o que resta da memória de bonança dos anos de seu maior adversário.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Áureo Cisneiros é o nome que mais agrega ao lado de Marília como candidato a vice


Dos três nomes mais cotados do Partido Socialismo e Liberdade – Psol para ocupar a vaga de vice na chapa da pré-candidata Marília Arraes ao cargo de prefeita da capital pernambucana, com total certeza o nome que mais agrega é o do presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Pernambuco (Sinpol), Áureo Cisneiros.

Os outros dois nomes que também figuram entre os cotados está o de Dani Portela, que foi candidata a governadora de Pernambuco em 2018, o da deputada estadual Jô Cavalcanti, que integra o coletivo Juntas na Assembleia Legislativa do Estado – Alepe.

Como presidente do Sinpol, Áureo pode trazer a simpatia da categoria das forças policiais a candidatura de Marilia, agregando a sua história de lutas pela esquerda no estado, Áureo também lidera o movimento antifascista na polícia.

Para o Psol não seria interessante indicar o nome da deputada estadual Jô Cavalcanti, já que ela vem fazendo um bom trabalho na Alepe, sua indicação deixaria o partido sem sua representatividade naquela casa legislativa.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Vacina da gripe não supera 50% de eficácia, após décadas de aperfeiçoamentos

Enfermeira prepara vacina para a campanha sazonal contra a gripe. IVAN ALVARADO / REUTERS

Do El País

Há dois anos, quando o coronavírus ainda não se tornara o patógeno que mais concentra a atenção do mundo, o vírus da gripe matou, só na Espanha, cerca de 15.000 pessoas e levou 52.000 a serem hospitalizados. Em um momento em que se busca obter uma vacina eficaz para evitar a covid-19, a imunização contra a gripe mostra a dificuldade de se criar profiláticos eficazes. Em um bom ano, a vacina contra a gripe protege entre 50% e 60% dos que a recebem. Em 2018, sua eficácia só chegou a 25%.

O vírus da gripe é elusivo, muito diverso e com rápida mutação, algo que o mantém atualizado na corrida armamentista com o sistema imunológico humano e contra as vacinas que são criadas todos os anos. Como no caso do SARS-CoV-2 ―em que um dos objetivos principais da vacina é a espícula com que ataca as células humanas―, para impedir a entrada da gripe são produzidas vacinas que protegem contra a proteína hemaglutinina, aquela da qual o vírus da gripe se vale para aderir às nossas células. Essa proteína, infelizmente, tem grande capacidade de mutação e de evadir as vacinas.

Nesta segunda-feira, em artigo publicado na revista Nature, um grupo de pesquisadores liderados por Ali Ellebedy, da Universidade Washington, em St. Louis (EUA), se concentrou nos esforços para entender por que não se consegue imunizar mais pessoas e quais poderiam ser as estratégias de melhoria. Um dos fatores pode ser precisamente a exposição anterior a um vírus tão comum como o da gripe. Em pessoas que já foram infectadas antes com outras cepas, a vacina, que é criada todos os anos para proteger contra as versões da gripe que são consideradas as mais comuns nesse momento, fomentaria a resposta do sistema imunológico a essas infecções anteriores, e não contra novas cepas.

Em busca de vacinas mais eficazes, os autores analisaram os gânglios linfáticos, estruturas que servem de centros de treinamento para os linfócitos B. Outras células do sistema imunológico levam os vírus para lá, e esses linfócitos geram anticorpos para combater a infecção. Assim que nosso corpo entra em contato com um patógeno, guarda-o na memória para responder com mais rapidez em um contato posterior. Isso geralmente é bom para infecções mais leves, mas pode diminuir a eficácia de uma vacina. “Se nossa vacina contra a gripe estiver direcionada a essas células de memória, essas células responderão às partes do vírus que não mudaram em relação às cepas anteriores”, explicou Ellebedy em um comunicado de sua instituição. “Nosso objetivo é centrar a resposta imunológica nas partes do vírus que são diferentes a cada ano”, acrescentou.

Os autores testaram uma nova vacina em oito voluntários que já haviam sido imunizados contra a gripe na temporada 2018-2019. Na maioria dos casos, a vacina desencadeou a resposta dos linfócitos B já treinados por vacinas anteriores, mas apenas em três dos pacientes houve um treinamento específico de linfócitos B novos com uma resposta específica às novas cepas. “Nosso estudo mostra que a vacina contra a gripe pode provocar uma resposta em ambos os tipos de células nesses centros germinais, mas não sabemos com que frequência isso acontece”, disse Ellebedy, que aponta esses nódulos linfáticos como um lugar-chave para melhorar a porcentagem de pacientes que acabam protegidos pelas vacinas contra a gripe.

Na longa luta contra a gripe, outros pesquisadores buscaram maneiras de evitar a grande capacidade do vírus para alterar as partes de sua estrutura que as vacinas atacam. Para evitar a versatilidade da hemaglutinina, há grupos de pesquisadores que buscam atacar os talos que ligam essa parte-chave ao resto do vírus. Por ser muito menos mutável, uma vacina que o anulasse permitiria produzir vacinas mais duráveis.

Há dois anos, um grupo internacional de cientistas publicou na Science os resultados de um trabalho em que usaram anticorpos de lhamas para criar vacinas tendo como alvo o talo que sustenta a hemaglutinina. Esta vacina ofereceu imunidade quase universal em camundongos. Se esses resultados pudessem ser transpostos para os humanos, uma ou duas injeções proporcionariam proteção geral contra a gripe e não seria necessário criar novas vacinas para se adaptar às mudanças anuais do vírus.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Rússia anuncia primeiro lote de vacinas da Covid-19 para setembro

A foto, do dia 6 de agosto, mostra a vacina desenvolvida na Rússia contra a Covid-19, a primeira a ser registrada em todo o mundo contra a doença. — Foto: Handout / Russian Direct Investment Fund / AFP

Por G1

O ministro da Saúde russo, Mikhail Murashko, anunciou nesta segunda-feira (31) que a entrega do primeiro lote da vacina contra a Covid-19 "Sputnik V", aprovada pelo país este mês, está prevista para setembro.

Os testes de fase 3 da vacina contra o novo coronavírus, com 40 mil voluntários, têm previsão de começar nesta semana, segundo o cronograma publicado on-line. Nesta etapa, a eficácia e a segurança de uma imunização são testadas em larga escala (normalmente com milhares de voluntários).

A expectativa é que 30 mil participantes recebam a vacina, e os outros 10 mil, um placebo (substância inativa), para servir de grupo controle. O intuito do governo russo é priorizar profissionais de saúde e professores nos ensaios; todos terão participação voluntária.

Murashko declarou nesta segunda (31) que já foram recrutadas cerca de 2,5 mil pessoas para os testes, informou o jornal "The Moscow Times".

No início de agosto, o governo russo informou que a vacinação em massa no país tinha previsão de começar em outubro.

Mikhail Murashko disse que a produção da vacina caminha paralelamente ao monitoramento, pós-registro, da eficácia da imunização.

“Quanto à vacinação contra o coronavírus, neste momento, simultaneamente, o aumento da produção e a observação pós-registro estão em andamento. Em primeiro lugar, claro, as vacinas serão fornecidas para profissionais de saúde e professores, e isso [vacinação] será absolutamente voluntária", declarou.

Além da Rússia, outros 5 países devem participar dos testes, informou o RDIF (Fundo de Investimento Direto Russo), que coordena a produção da imunização. O fundo não informou, entretanto, quais países são esses e nem quantos voluntários cada um terá.

No dia 11, a Rússia se tornou o primeiro país no mundo a aprovar uma vacina contra a doença causada pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2), mas a aprovação foi criticada pela comunidade internacional, pois não foram publicados estudos que mostrassem a eficácia da vacina. O país rejeitou as preocupações e anunciou, no dia seguinte, que começaria a vacinar médicos dali a duas semanas.

De acordo com o governo russo, ao menos 20 países solicitaram mais de 1 bilhão de doses da Sputnik V, apesar das preocupações com a segurança.

A vacina deve entrar em circulação civil em 1º de janeiro de 2021, conforme um certificado de registro no site do Ministério da Saúde russo, apurou o "The Moscow Times".


Segunda vacina


Na semana passada, a Rússia anunciou que preparava a aprovação de uma segunda vacina contra a Covid-19, ainda em fase inicial de testes. A autorização de ensaios clínicos da vacina foi concedida em julho, e a previsão é de que ela fique pronta em setembro, segundo o presidente russo, Vladimir Putin.

Esta segunda imunização está sendo desenvolvida pelo centro de pesquisa Vektor, em Koltsovo. Já a "Sputnik V" foi desenvolvida pelo Instituto Gamaleya, em Moscou.

Nesta segunda, o ministro da Saúde afirmou acreditar que, por causa das vacinas que ainda estão em andamento, o país vai alcançar níveis máximos de produção delas entre novembro e dezembro.

"É por isso que acho que atingiremos os volumes máximos em novembro-dezembro. Precisamos separar a inoculação contra a gripe e contra a infecção por coronavírus", afirmou Mikhail Murashko.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Auxílio federal para Pernambuco supera em R$ 821 milhões queda de arrecadação durante pandemia, aponta Priscila Krause


A deputada estadual Priscila Krause (DEM) publicou em suas redes sociais resultado de estudo do seu gabinete apontando que o conjunto de repasses e suspensões de pagamento de dívidas concedidas pelo governo federal em favor da administração estadual, desde o início de março, resultaram até aqui num incremento de R$ 821 milhões aos cofres públicos estaduais – deduzidas as quedas dos principais componentes da receita corrente estadual. Enquanto o reforço fiscal da administração central somou R$ 2,033 bilhões, a queda de arrecadação foi de R$ 1,202 bilhão. As ações federais são resultantes de medidas provisórias assinadas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e de leis aprovadas pelo Congresso Nacional.

De acordo com Priscila, que realiza o acompanhamento dos cofres públicos nesse período através da ferramenta “Painel Covid-19”, o esforço agora é acompanhar de que forma o governo Paulo Câmara está empregando os recursos, já que até o momento os gastos específicos com o coronavírus, no âmbito do governo de Pernambuco, somam R$ 483,9 milhões (despesas liquidadas). “É preciso que os recursos repassados pelo governo federal resultem, além do reforço ao coronavírus, numa melhoria efetiva dos serviços públicos, especificamente de saúde. O problema é que o grave quadro fiscal de Pernambuco, há tempo negligenciado pela gestão do PSB, ofusca investimentos em detrimento de tentar tapar um rombo que vem se avolumando sem solução. Por aqui só há sinalização de reclamar e buscar mais recursos, enquanto questões fundamentais, de iniciativa da gestão estadual, não ocorrem”, registrou.

Priscila Krause propõe, por exemplo, que se busque a utilização de parte desses recursos para a conclusão de obras importantes na Saúde, como o Hospital da Mulher de Caruaru e a ampliação do Hospital Agamenon Magalhães, no Recife, intervenções que receberam recursos do Ministério da Saúde em administrações anteriores, mas que nunca ficaram prontas. Outras obras prometidas desde a primeira campanha do atual governador, em 2014, nunca saíram do papel, apesar de sua importância, como no caso do Hospital Regional Mestre Dominguinhos, em Garanhuns. “O primeiro momento, emergencial, é de atender os casos do coronavírus, claro, sem esquecer de que o passo seguinte é reforçar a estruturação da rede. Não podemos ter obras paradas, símbolo de dinheiro indo para o ralo”, reforçou.

De acordo com estudos preliminares da equipe técnica do gabinete da parlamentar, até dezembro os reforços extras do governo federal em prol dos cofres estaduais devem alcançar cerca de R$ 2,7 bilhões. Até o momento, os principais repasses foram realizados pelos ministérios da Economia e da Saúde: R$ 808,2 milhões do Programa Federativo (livre aplicação), R$ 474,9 milhões exclusivos para ações Covid-19 depositados pelo Ministério da Saúde, R$ 324,5 milhões referentes ao Auxílio Federal vinculado à queda de repasses do Fundo de Participação Estadual (FPE) e R$ 202,2 milhões exclusivos para gastos com saúde (Programa Federativo). As suspensões de pagamento das dívidas com a União, BNDES e Caixa somam, até agosto, folga de caixa de R$ 228 milhões.

Do ponto de vista da queda da arrecadação estadual, o mais impactado foi o ICMS (R$ 769 milhões), seguido do FPE (R$ 327 milhões), Taxas (R$ 78 milhões) e IPVA (R$ 55,3 milhões). O ICD, por sua vez, teve incremento de R$ 17,1 milhões no período. Os dados foram comparados com a arrecadação realizada no mesmo período do ano passado, única metodologia que possibilita conclusões a respeito de incremento ou queda da receito, visto que realizar comparativos com expectativas de receita apontam nada mais que frustrações ou aumentos acima do esperado.