quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Reino Unido sela o último capítulo do Brexit com o fim do período de transição

O premiê Boris Johnson promete concluir o Brexit, durante a campanha eleitoral de dezembro de 2019. Em vídeo, suas declarações desta quarta-feira no Parlamento britânico. BEN STANSALL / AFP


 El País

 

Não haverá festa. Apenas uma mistura de euforia contida entre os vencedores e de tristeza e resignação entre os derrotados de uma batalha que durou quatro anos e meio, desde que os cidadãos britânicos decidiram, no referendo de 2016, se desligar da União Europeia. A partir da meia-noite de hoje (hora de Bruxelas; 23h em Londres, 21h em Brasília), os cidadãos e empresas do Reino Unido deixarão de estar sob o marco normativo que condicionou suas vidas e atividades econômicas nos últimos 47 anos. Um acordo comercial mínimo, que necessitará de constante supervisão e desenvolvimento no futuro, lançará as bases da nova relação entre as ilhas e o continente.

 

É revelador que, enquanto nesta quarta-feira a Câmara dos Comuns realizava o último grande debate sobre o assunto que mais feridas e divisões provocou no país nos últimos anos, os principais canais de TV decidam ignorá-lo e transmitir ao vivo a entrevista coletiva dos cientistas que acabavam de autorizar a vacina do coronavírus desenvolvida pela Universidade de Oxford com o laboratório farmacêutico Astrazeneca. O Brexit acabou por cansar os envolvidos. O grande acerto do slogan de Boris Johnson em sua vitoriosa campanha eleitoral de dezembro de 2019 —Get Brexit Done (“concluir o Brexit”)— era que não apelava tanto à obsessão dos eurocéticos, e sim à promessa de acabar com um pesadelo nacional.

 

A “questão europeia” liquidou a carreira da primeira-ministra Margaret Thatcher, torturou seu sucessor, John Major —que se referia aos eurocéticos do seu Partido Conservador como “esses bastardos”—, triturou Theresa May, incapaz de desfazer um nó górdio que herdou a contragosto, e levou Johnson à Downing Street. Foi o único de todos eles a entender que, quando se cavalga uma emoção, os detalhes técnicos e as promessas são facilmente dispensáveis.

 

Johnson prometeu que a Irlanda do Norte acompanharia o resto do Reino Unido, mas a realidade é que este território britânico continuará dentro do espaço alfandegário da UE. Assegurou que seu Governo recuperaria o controle das águas —e agora a indústria pesqueira expressa sua irritação e se considera a grande perdedora do acordo alcançado com Bruxelas. Obteve seu principal objetivo: um pacto comercial que evita a imposição de tarifas ou cotas no comércio entre a ilha e o continente. Em troca, as empresas britânicas serão submetidas, nos próximos anos, a uma papelada e a uma burocracia que encarecerão seus custos e reduzirão sua competitividade.

 

“Jamais perseguimos uma ruptura, e sim uma solução para a velha e polêmica questão de nossa relação política com a Europa, que atormentou toda a nossa história desde o final da Segunda Guerra Mundial”, proclamou Johnson com seu recém-adquirido tom de humildade e respeito pela UE, a adversária contra a qual construiu sua carreira profissional e política. “[Winston] Churchill e [Margaret] Thatcher teriam se mostrado orgulhosos com o feito alcançado. O Reino Unido recuperou sua liberdade e sua independência”, dizia, com anacrônica solenidade, o deputado Bill Clash, um dos mais ativos na defesa do euroceticismo na Câmara dos Comuns.

 

Os cidadãos britânicos recuperaram seu histórico passaporte azul —uma das causas mais histriônicas defendidas pelos tabloides sensacionalistas nos últimos anos—, mas perderam a liberdade de movimento que resultava da filiação à UE. A partir desta sexta, 1º de janeiro, os cidadãos europeus que quiserem trabalhar ou viver no Reino Unido deverão se submeter a um novo sistema de imigração por pontos e competir em igualdade de condições com os imigrantes do resto do mundo. Os estudantes universitários de ambos os lados do canal da Mancha já não poderão mais desfrutar do convívio proporcionado pelo programa de intercâmbio Erasmus, que ajudou a criar uma ideia de espaço compartilhado e inoculou o europeísmo entre os jovens britânicos.

 

Uma amostra do intrincado e complexo rastro deixado pelo debate sobre a Europa em várias gerações de políticos britânicos é o deputado trabalhista Hillary Benn. Filho do histórico líder trabalhista Tony Benn —o bennismo continua sendo uma forte corrente interna dentro da esquerda britânica, como demonstrou o defenestrado Jeremy Corbyn—, é um dos europeístas mais convictos do Parlamento de Westminster. Seu falecido pai semeou a semente do euroceticismo no seio do trabalhismo. “Entre a soberania e o interesse econômico, o Governo pensou que podia conseguir o melhor dos dois lados. Mas sabia que isso era impossível e que chegaria a hora de escolher”, disse Hillary Benn. “A partir de 1º de janeiro, deveremos enfrentar uma nova questão: que tipo de relação queremos construir com nossos sócios e amigos mais próximos?”

 

O Brexit provocou feridas tão profundas no Partido Trabalhista quanto no Conservador. Corbyn, como líder da oposição, optou por uma ambiguidade autodestrutiva, tentando conciliar seu próprio euroceticismo, o sentimento contrário a Bruxelas que o populismo tinha inoculado nos eleitores tradicionais do norte da Inglaterra, e o desejo de seguir na UE por parte da maioria dos eleitores trabalhistas. Fracassou estrepitosamente. E por isso seu sucessor, Keir Starmer, teve que finalmente forçar a sua formação a engolir a amarga pílula de apoiar o acordo alcançado por Johnson. Era isso, ou a alternativa de um Brexit duro. Isso, ou uma nova guerra civil na esquerda britânica.

 

O Reino Unido sai muito menos unido depois da aventura do Brexit. A Escócia votou majoritariamente contra se desligar da UE, e o Governo nacionalista do SNP (Partido Nacional Escocês) disputa as eleições regionais de maio com um único ponto em seu programa: impulsionar um novo referendo de independência. As últimas pesquisas repetem o mesmo resultado: uma clara maioria dos escoceses acredita que seu futuro será melhor se andarem pelas próprias pernas. A chefa do Governo regional, Nicola Sturgeon, já antecipou que, se obtiver a separação, sua primeira medida será solicitar a adesão da Escócia à União Europeia.

 

Johnson negociou contra o relógio para obter um acordo que evitasse acrescentar mais incerteza ao futuro econômico de um país assolado como poucos pela pandemia da covid-19. Seu PIB caiu mais de 11 pontos percentuais em 2020, e a dívida pública disparou a níveis históricos. O setor de serviços (financeiros, jurídicos e de seguros), que representa 80% da economia do Reino Unido, ficou de fora do pacto alcançado com Bruxelas, e a inquietação sobre seu futuro continuará viva quando 2021 chegar.

 

A revista The Spectator, referência obrigatória para os eurocéticos conservadores, celebrou a chegada do Brexit com uma capa já usada em repetidas ocasiões e que virou um clássico. Uma borboleta com as cores da Union Jack (a bandeira do Reino Unido) abre suas asas ao sair de uma caixa decorada com o azul e as estrelas da UE. “Out, and into the world” (“fora, caindo no mundo”). O Governo de Johnson finalmente conseguiu dar esse salto, mas se depara com um mundo muito mais frio e duro, mais difícil de navegar solitariamente, do que o mundo sonhado durante a campanha do referendo, mais de quatro anos atrás.

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Pazuello diz que vacinas chegam a Estados 5 dias após aval da Anvisa, mas governadores articulam plano B

Presidente Jair Bolsonaro e seu ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. UESLEI MARCELINO / REUTERS


El País


O Governo brasileiro estima vacinar toda a população contra a covid-19 em um prazo de 16 meses, a partir do registro da Anvisa e da disponibilidade dos imunizantes nos estoques da pasta. Segundo o cronograma apresentado pelo ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, ao Supremo Tribunal Federal (STF), são necessários cinco dias para que a vacina chegue aos Estados a partir do aval da agência reguladora. A partir daí, serão quatro meses para imunizar os grupos prioritários já definidos na estratégia nacional ―o primeiro dos quatro perfis inclui profissionais da saúde, idosos e indígenas. Só depois será iniciada a imunização da população em geral, que deve durar mais 12 meses.

 

“O que dependerá, concomitantemente, do quantitativo de imunobiológico disponibilizado para uso”, explica o documento. Ainda não há uma data definida para iniciar a vacinação, já que nenhuma vacina tem a autorização da Anvisa. Segundo o Ministério da Saúde, após o envio das doses, cabe aos Estados distribuir as vacinas aos municípios, com apoio logístico da pasta, como já acontece em outras campanhas de vacinação. Ao todo, o plano nacional de imunização contra a covid-19 contém cinco fases e deve demorar 16 meses para ser completamente executado.

 

Sob pressão, Pazuello tem sinalizado que deverá começar a campanha de vacinação no Brasil com a primeira vacina a receber o aval da Anvisa. Mesmo assim, gestores estaduais têm mantido suas agendas em busca de um plano B para garantir o início da vacinação nas populações que governam o mais rápido possível. Como mostra reportagem do EL PAÍS, o esboço da estratégia nacional apresentado no fim de semana era vago, previa poucas vacinas e não continha sequer um cronograma. Nesta terça-feira, gestores começaram a se reunir com o governador paulista João Doria para formalizar acordos para a aquisição da Coronavac ―entre eles o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, e o governador do Ceará, Camilo Santana. Segundo o Governo de São Paulo, 4 milhões de doses do imunizante estão sendo disponibilizadas para os profissionais da linha de frente no combate à pandemia em todo o Brasil.

 

“Estamos aqui para um plano B. Todo o Brasil tem o direito de imunizar seus profissionais de saúde”, afirmou o prefeito Kalil. Camilo Santana usou um tom mais ameno e voltou a pregar a necessidade de união para uma campanha simultânea em todo o país, mas seguiu as tratativas para conseguir o medicamento para o seu Estado.

 

“Conversamos sobre a produção da vacina da covid-19 pelo Butantan e sobre o Plano Nacional de Imunização, que discuti ontem com o ministro Pazuello”, afirmou Santana em um vídeo. Ao lado dele, o governador de São Paulo fez questão de dizer que a visita foi para a “definição da quantidade de vacinas necessárias para a primeira etapa de vacinação dos profissionais de saúde do Ceará”. Doria tem elevado a pressão sobre a Anvisa e o Governo brasileiro em favor da Coronavac. Por enquanto, nenhuma vacina solicitou registro emergencial ou definitivo no país.

 

Nesta semana, o presidente Jair Bolsonaro anunciou que assinará uma medida provisória para destinar 20 bilhões de reais à aquisição de vacinas, mas afirmou que pode incluir no texto a exigência de que o usuário assine um termo de consentimento para receber o medicamento. O gestor, que chegou a rejeitar publicamente a Coronavac, empurrou ao centro de uma intensa batalha ideológica a Anvisa ―agência reguladora brasileira responsável por aprovar a aplicação dos imunizantes no território nacional. E vê seu Governo enfrentar uma nuvem de desconfiança depois de apresentar à Justiça uma “prévia” de plano de vacinação com mais de 90 páginas, repleto de lacunas e criticado pelos próprios especialistas da câmara técnica que cooperava na estratégia brasileira.

 

 

Medidas “parciais” e “equivocadas”

 

 

A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) chegou a enviar nesta terça uma carta ao Supremo Tribunal Federal na qual afirma que Pazuello apresentou medidas “parciais” e “equivocadas” sobre a vacinação contra a covid-19 no documento que enviou à Corte no último sábado. A entidade indicou especialistas para a câmara técnica responsável por discutir a estratégia nacional; especialistas que negam ter participado efetivamente de plano do Governo. Por isso, destaca que o texto é de “exclusiva responsabilidade do Governo federal”.

 

A primeira reunião conjunta dos 10 eixos que compõem a câmara técnica para elaborar o plano nacional de vacinação contra a covid-19 aconteceu apenas no dia primeiro de dezembro, com microfones fechados aos pesquisadores que atuam no grupo. Considerações ou perguntas sobre a apresentação dos funcionários do Ministério da Saúde deveriam ser enviadas por um chat, e o prazo para a resposta seria de 7 dias. Questionamentos feitos ―um deles sobre a aquisição da Coronavac― não chegaram a ser respondidos. Nem mesmo o acesso aos slides de apresentação foi concedido.

 

Até a referida reunião, o clima entre o corpo técnico e o Ministério da Saúde era de cooperação, conforme apurou o EL PAÍS com integrantes do grupo. Mas o envio de um documento sem revisão dos especialistas gerou uma série de críticas públicas. Uma nova reunião com a câmara técnica estava marcada para esta terça-feira, às 14h, segundo pesquisadores que integram o grupo. O encontro foi então adiado para as 17h, e depois para esta quarta-feira.

 

Pesquisadores de renome no país têm sido categóricos ao apontar o atraso do país com seu plano de vacinação contra a covid-19, apesar de o Brasil ser referência mundial em campanhas de imunização. O país patinou não apenas nos acordos para adquirir diferentes tipos de vacinas promissoras num cenário pandêmico de aquecimento do mercado global, mas também deixou de tomar providências logísticas, como a aquisição de seringas, agulhas e refrigeradores. “O Brasil está seis meses atrasado em plano para vacina”, afirmou a pesquisadora e pneumologista da Fiocruz Margareth Dalcolmo em uma entrevista nesta segunda ao programa Roda Viva. O Ministério da Saúde agora precisa correr atrás do prejuízo, enquanto enfrenta pressões que vão da Justiça a governadores e prefeitos, passando pelo próprio corpo de especialistas que participam da discussão da estratégia nacional.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Pressionado, Pazuello fala em adiantar vacinação, mas esboço de plano do Governo não prevê datas

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde Eduardo Pazuello participam do lançamento de programa para profissionais da saúde nesta semana. UESLEI MARCELINO / REUTERS


El País

 

O tom do Governo Jair Bolsonaro sobre vacinar a população brasileira contra o coronavírus começa a mudar. Em uma semana marcada pela pressão de governadores e ex-ministros de diferentes Governos para dar celeridade a uma campanha nacional de vacinação e ampliar o leque de vacinas a serem incorporadas à rede do SUS, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, passou a considerar como “provável” que a vacinação contra a covid-19 no Brasil comece “entre janeiro e fevereiro”. Ele chegou a levantar até a possibilidade de iniciar a vacinação em pequena escala já em dezembro, caso o imunizante da Pfizer, já aplicado no Reino Unido e que o Governo brasileiro negocia adquirir, obtenha registro emergencial no país.

 

No entanto, após o general do Exército prometer apresentar o plano oficial plano de vacinação do Governo nesta quarta-feira, ele se limitou a divulgar um arquivo com 18 páginas sem nenhuma data para a campanha ou previsão de quais vacinas devem ser incorporadas no planejamento. De maneira superficial, o esboço apresenta objetivos gerais, faz um compilado das vacinas que estão sendo desenvolvidas e prevê quatro fases iniciais que devem contemplar grupos mais vulneráveis.

 

Mesmo esse esboço traz alterações controversas, retirando a população carcerária dos grupos com prioridade para receber a vacina no país, Nas primeiras diretrizes apresentadas pela pasta, detentos estavam no quarto grupo, depois de profissionais de saúde, idosos, indígenas e pessoas com comorbidades. A nova proposta deixa no quarto grupo apenas professores, trabalhadores da área de segurança e funcionários do sistema prisional. “O Brasil e o mundo ainda carecem de mais estudos quanto à taxa de transmissibilidade e de letalidade para que se justifique a priorização do grupo daqueles privados de liberdade”, justifica a pasta, por meio de nota. E acrescenta que a inclusão de outros grupos prioritários ocorrerá à medida em que mais doses e vacinas sejam disponibilizadas.

 

Em audiência no Congresso nesta quarta, o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Arnaldo Medeiros, admitiu que o plano final de vacinação só deverá ser apresentado na próxima semana. “Nossa equipe está fazendo a revisão e a gente acredita que na próxima semana esse plano esteja apresentado”, afirmou, após dizer que Pazuello havia feito uma apresentação “simbólica”.

 

Até semana passada, o ministério da Saúde tinha a previsão de iniciar a vacinação somente em março e trabalhava sobretudo com a vacina de Oxford/Astrazeneca, além de imunizantes do consórcio global Covax Facility, sem considerar o imunizante da Pfizer. Nesta semana, porém, governadores intensificaram a pressão e começaram a se movimentar para adquirir os imunizantes e planejar suas próprias estratégias de vacinação com imunizantes já autorizados internacionalmente. Contudo, ainda não há vacina com registro na Agência Nacional de Saúde (Anvisa) A expectativa é de que os resultados dos testes e as licenças emergenciais comecem a sair em breve.

 

A vacina de Oxford/Astrazeneca, adquirida pelo Governo Federal, deverá ser produzida pela Fiocruz em acordo que prevê transferência de tecnologia, mas enfrenta atraso em seu cronograma por um erro na aplicação de doses na fase três dos testes. Já a Coronavac foi adquirida pelo Governo de São Paulo e deverá ser produzida pelo Instituto Butantan. Esta última só pode entrar nacionalmente no SUS se for adquirida pelo Governo Federal, e o presidente Bolsonaro já demonstrou falta de interesse em comprá-la em meio à narrativa ideológica contra a China e à disputa política com o Doria.

 

O tucano prometeu iniciar a campanha em São Paulo em 25 de janeiro, ainda que a estratégia nacional não tenha começado. Ao contrário do Governo Bolsonaro, apresentou um calendário e um plano para imunizar 9 milhões de pessoas. Para implementá-lo, porém, precisa de pelo menos uma autorização emergencial da Anvisa —onde o Bolsonaro tem colocado cada vez mais aliados em posições estratégicas. Em reunião com Pazuello e outros governadores nesta terça, Doria confrontou o ministro da Saúde: “Seu ministério vai comprar a vacina Coronavac sendo aprovada pela Anvisa? Sim ou não?”. O general então respondeu que “se houver demanda, e houver preço, vamos comprar”.

 

Por sua vez, o governador do Maranhão, Flavio Dino, foi ao Supremo Tribunal Federal para pedir autorização para vacinas com este perfil, caso a Anvisa se negue a fazê-lo. A decisão no momento está nas mãos do ministro Ricardo Lewandowski. Entidades de saúde e de gestores locais também têm se manifestado para pedir uma resposta mais enérgica e ágil do Governo Federal. “O país necessita de um plano sólido, abrangente, que contemple todas as vacinas que consigam registro na Anvisa, sem qualquer tipo de discriminação. E que permita, ao longo do ano de 2021, garantir a vacinação para toda a população brasileira”, escreveram ex-ministros da Saúde manifesto para cobrar uma ação do Governo Federal.

 

 

Novo tom

 

 

A mudança de tom de Pazuello já admite, por exemplo, a autorização especial prevista em lei para a aplicação. Antes, o plano de iniciar a vacinação em março levava em conta os 60 dias necessários para registar um imunizante. Mas a lei da pandemia permite um aval emergencial para medicamentos já aprovados em agências internacionais da China, Europa e Estados Unidos. Esta legislação pode dar celeridade para iniciar a vacinação, já que estabelece que a Anvisa deve se pronunciar em até 72 horas após ser feito o pedido. Para começar a campanha de vacinação antes do que divulgou, o Brasil conta por enquanto com as negociações pelo imunizante da Pfizer, que já começou a ser aplicado no Reino Unido.

 

“Se a Pfizer conseguir a autorização emergencial e nos adiantar alguma entrega, isso (o início da vacinação) pode acontecer no final de dezembro ou em janeiro. Isso em quantidades pequenas, de uso emergencial”, afirmou Pazuello à CNN. Na última terça-feira, o Governo anunciou que avançava na negociação desta vacina. O medicamento estava fora dos critérios elencados na semana passada pelo Governo brasileiro para adquirir uma vacina, já que precisa ser armazenado em temperaturas inferiores àquelas comportadas pela atual rede de frios. Mas nesta segunda o Governo anunciou que o país negocia a compra de 70 milhões de doses, sendo que apenas 8,5 milhões devem chegar ainda no primeiro semestre. Há de se destacar que a previsão para este ano seria mínima diante da população brasileira, e o contrato ainda não está fechado.

 

O próprio ministro admite que a vacinação seria muito pequena em um primeiro momento, mas pelo menos no discurso não fechou as portas para outras vacinas. “Isso pode acontecer com a Pfizer, com o Butantan (referindo-se à vacina CoronaVac), com AstraZeneca (referindo-se à vacina de Oxford), mas é foro íntimo da desenvolvedora, não é uma campanha de vacinação”, declarou, na entrevista. O presidente Bolsonaro, porém, já havia brecado a assinatura de intenção de compra da Coronavac em outubro. O discurso do Governo é de que só irá comprar um imunizante que tenha registro.

 

Referência em políticas de imunização coletiva, o Brasil corre o risco de perder sua expertise na busca pela imunidade coletiva para combater o coronavírus. Pesquisadores estão preocupados com o atraso do país na negociação dos medicamentos e em uma apresentação transparente de um plano concreto, enquanto o país segue imerso na disputa ideológica encampada pelo presidente Bolsonaro e vê a pandemia voltar a ganhar força sobre seu território, com sistemas de saúde de oito Estados já pressionados.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Plano de vacinação contra a covid-19 prevê imunizar primeiro profissionais da saúde, idosos e indígenas no Brasil

Uma voluntária recebe uma vacina contra a covid-19 na Flórida. CHANDAN KHANNA / AFP

 

Do El País

 

O plano de vacinação contra a covid-19 no Brasil deverá ter quatro fases e, num primeiro momento, prevê vacinas para pouco mais da metade da população, anunciou o Ministério da Saúde nesta terça-feira. Segundo a pasta, os primeiros a serem vacinados devem ser trabalhadores da saúde, idosos com mais de 75 anos ou pessoas acima de 60 que vivam em asilos e população indígena. Depois, a prioridade será de pessoas entre 60 a 74 anos. O terceiro grupo é o de portadores de comorbidades (doenças renais crônicas e cardiovasculares). A última fase inclui professores, forças de segurança e salvamento, funcionários do sistema prisional e população privada de liberdade.

 

Um plano final de vacinação contra a covid-19 no Brasil só deverá ser oficialmente apresentado quando houver um medicamento imunizante devidamente registrado pela Anvisa, mas o Ministério da Saúde começou enfim a desenhar a estratégia brasileira. As quatro fases previstas para a campanha preveem 109,5 milhões de pessoas imunizadas em duas doses, o que representa cerca de metade da população brasileira. O cálculo, segundo a pasta, está de acordo com os “esquemas vacinais dos imunizantes já garantidos pelo Ministério da Saúde – Fiocruz/AstraZeneca e por meio da aliança Covax Facility”. O ministério ainda não especificou quais das vacinas promissoras poderão ser incluídas no plano nem se comprará imunizantes que estão fora do consórcio global mencionado, como a Coronavac, já adquirida pelo Governo de São Paulo.

 

Por enquanto, as autoridades de saúde sinalizam que, para entrarem no plano nacional, as vacinas devem poder ser armazenadas em temperaturas de 2°C a 8°C ―a capacidade dos sistemas de câmaras de frios já existentes no país. Na manhã desta terça-feira, o secretário de Vigilância, Arnaldo Medeiros, definiu o perfil de vacina desejado pelo Governo: um imunizante com elevada eficácia, possível de ser usada em diversas faixas etárias e grupos populacionais, idealmente de dose única e “fundamentalmente termoestável por longos períodos em temperaturas de 2°C a 8°C”. Apesar de nenhum laboratório ter sido citado, a descrição excluiria, por exemplo, o imunizante da Pfeizer, que pediu já registro nos Estados Unidos e na União Europeia, mas que precisa de equipamentos capazes de armazená-las abaixo de -70°C. “Por quê? Porque a nossa rede de frios é montada e estabelecida com uma rede de frios de aproximadamente 2°C e 8°C”, justificou o secretário.

 

A declaração foi dada no mesmo dia em que se reuniram integrantes da câmara técnica criada em setembro pelo Ministério para discutir um plano preliminar de vacinação. O encontro aconteceu a portas fechadas e durou mais de duas horas. E dele saiu novas informações, repassadas à imprensa apenas por um comunicado, sem margem para questionamentos às autoridades. O planejamento de população vacinada e fases ainda pode sofrer alterações, caso haja novos acordos de aquisição de vacinas com outras farmacêuticas. Neste momento, o Ministério da Saúde também negocia novas aquisições de seringas e agulhas para atender à demanda para vacinação contra o coronavírus.

 

“Este plano de operacionalização só definitivamente ficará pronto quanto tivermos uma vacina ou mais de uma vacina que esteja registrada na Anvisa”, disse Medeiros, antes da reunião. Por enquanto, ainda paira no país pouca transparência sobre a estratégia nacional de vacinação, empurrada ao centro da disputa política travada pelo presidente Jair Bolsonaro e o governador João Dória. O presidente já rejeitou publicamente a Coronavac, uma vacina promissora adquirida pelo Governo paulista.

 

O Governo Federal vem sofrendo há meses pressões para indicar mais informações sobre o plano. Na segunda-feira (31), o governador de São Paulo João Dória voltou a pedir que o Ministério de Saúde informe, por exemplo, quais as vacinas que está considerando para o seu plano. Ações neste sentido foram parar no Supremo Tribunal Federal, que deve começar a julgar na sexta-feira (4) várias questões sobre o plano. A corte vai decidir desde o pedido para que o Governo seja obrigado a apresentar seu cronograma para a campanha de vacinação a cada 30 dias à Justiça e ao Congresso para ser fiscalizado. Também será decidido se o Governo deve dizer quais vacinas pretende incluir no seu plano. O ministro Ricardo Lewandowski, que é relator de uma das ações, já declarou que, na iminência de aprovação de várias vacinas, “constitui dever incontornável da União considerar o emprego de todas elas no enfrentamento do surto da covid-19”. Na semana que vem, a Corte também julgará ações sobre a obrigatoriedade da vacina contra o coronavírus, prevista em lei, mas que não tem a simpatia do presidente.

 

Alguns países já haviam começado a dividir as populações em grupos e estabelecer uma ordem de vacinação entre eles. No Brasil, o Ministério da Saúde tinha apenas adiantado que o objetivo da vacinação no país será contribuir para a redução da mortalidade e da mortalidade pela covid-19, bem como o controle de transmissão da doença.

 

O Plano Nacional de Imunizações do Brasil é referência mundial na vacinação. O país possui um exército de 114.000 pessoas aptas a aplicar vacinas distribuídas em 38.000 salas de vacinação, segundo o Ministério da Saúde. Mas as poucas informações publicizadas até agora e a guerra ideológica protagonizada pelo presidente Bolsonaro sobre a corrida por uma vacina já vinham preocupando especialistas. O receio de que a população futuramente rejeite a vacina do laboratório chinês Sinovac, adquirida por São Paulo, levou o Governo estadual a iniciar nesta terça (1º) uma campanha de TV para promover o Instituto Butantan, que atua no desenvolvimento do imunizante.

 

Ex-diretor do Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde e pesquisador da Fiocruz, Julio Croda, defende a necessidade de dar mais transparência à construção do futuro plano de vacinação, tanto para ampliar o debate sobre as estratégias com a sociedade quanto para começar um processo de comunicação à população e evitar que usuários se aglomerem em postos e pressionem pela vacina quando não haverá disponibilidade para todos em um primeiro momento. Croda não vê problemas que o plano seja ajustado nas próximas semanas e que uma versão final seja apresentada oficialmente apenas após o registro das vacinas. “Se não comunica, poderá haver pressões internas e individuais da população querendo se vacinar de qualquer jeito. Esta é uma doença que todos temem, que já matou bastante gente.”

 

Uma questão sensível que ainda permeia as decisões sobre a estratégia nacional é quais vacinas são consideradas para serem incluídas na distribuição nacional. Vacinas da Moderna e da Pfizer já pediram registro nos Estados Unidos e podem tê-lo aprovado já em algumas semanas. Não há boa perspectiva para o Brasil adotá-las pelas dificuldades de logística que exigem e também pela ausência até agora de acordos de reserva de compra. O Brasil já tem um acordo para a transferência de tecnologia da vacina da AstraZeneca e participa de um consórcio global para ter prioridade na aquisição de outras nove vacinas, o Covax Facility. Alguns Estados já realizaram seus próprios acordos de aquisição de vacinas, como por exemplo São Paulo com a Coronavac e a Bahia com a Sputinik V.

 

“Se a vacina tiver à disposição do Estado de São Paulo antes do Governo Federal, como vai acontecer isso? A vacina do Butantan vai ter seus resultados parciais em breve. Se forem positivos, pode pedir o registro. Sem um plano nacional, São Paulo fará o seu próprio?”, questiona Croda. Por enquanto, o Governo de São Paulo não diz se trabalha com um plano próprio ou se esperará as diretrizes do Governo Federal. Afirma apenas que trabalha nas estratégias de vacinação e que elas serão divulgadas no momento oportuno. Mas o Governo do Piauí já anunciou nesta terça-feira que tem um plano estadual. O receio é que a falta de coordenação nacional que já prejudicou o enfrentamento da pandemia se estenda à estratégia de vacinação. “Sem coordenação, pode gerar muito tumulto na busca pela vacina e dessa forma faltar vacina pra quem precisa”, alerta Croda.

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

PT não conquista nenhuma capital pela primeira vez desde 1985 e volta ao tamanho ‘pré-Lula’

Marília Arraes, derrotada no segundo turno em Recife, durante a campanha. ARTHUR MARROCOS


Do El País


O Partido dos Trabalhadores (PT) não elegeu nenhum candidato próprio nas capitais brasileiras nestas eleições até agora ― está ainda na disputa em Macapá, onde as eleições foram adiadas. É a primeira vez que isso acontece desde a redemocratização do país, em 1985. Em todo o Brasil, o partido conquistou apenas 183 prefeituras, enquanto outras siglas tiveram resultados muito superiores, como MDB e PP, que superaram as 600 prefeituras cada uma. Seguiu o encolhimento que já protagonizava desde 2016, quando fez 254 prefeitos e voltou, neste ano, a um tamanho semelhante ao que tinha antes dos Governos de Luiz Inácio Lula da Silva, iniciados em 2003 - cerca de 200 cidades com comando do partido.

 

Por um lado, é uma amostra que o antipetismo segue como uma força política significativa. De outro, trata-se do resultado de uma estratégia que optou por, quase sempre, lançar chapas próprias em detrimento de alianças com outras siglas de esquerda. É o caso de São Paulo, onde o candidato Jilmar Tatto amargou menos de 10% dos votos no primeiro turno, assistindo à ida de Guilherme Boulos, do PSOL, à segunda rodada eleitoral. O resultado foi a fragmentação dos votos e a consolidação de partidos como o PDT e o próprio PSOL como novas opções ao eleitorado de esquerda.

 

Apesar do resultado das urnas, analistas políticos afirmam, no entanto, que é prematuro falar em uma derrocada política completa. O PT ainda demonstra alguma força. Foi novamente às urnas em 20 das 57 cidades que tiveram segundo turno ― todas elas com colégios eleitorais significativos. E venceu em quatro delas: Contagem, Juiz de Fora, Diadema e Mauá.

 

Na maioria das cidades, o PT apostou em candidaturas de ex-prefeitos que contavam com a marca da experiência. O objetivo do partido era retomar espaço dentre os 96 maiores colégios eleitorais brasileiros, grupo que inclui as 26 capitais de estados e 70 cidades de interior com mais de 200 mil eleitores, um contingente em que, há quatro anos, o partido venceu apenas em Rio Branco (AC). A maior cidade que será governada por um petista a partir do ano que vem é Contagem, a terceira maior de Minas Gerais, onde a ex-prefeita Marília Campos venceu o advogado Felipe Saliba (DEM) por margem estreita (51,35% dos votos).

 

“Não posso cravar uma derrocada do PT, mesmo porque esteve em 15 das 57 grandes cidades que tiveram segundo turno. Não é porque perdeu em 11 que vou desconsiderar esta força e dizer que vão esquecer o partido”, declara o cientista político Rudá Ricci. Feita esta ponderação, Ricci avalia que o partido sai diferente destas eleições e prevê que deverá enfrentar um embate interno pela mudança de perfil de seus filiados com mandato. Isso porque candidaturas que tiveram êxito nas urnas, como por exemplo em Contagem e Juiz de Fora, não representam a ala majoritária do PT, ligada ao ex-presidente Lula. “Acho que vai ter um embate interno muito importante porque a corrente majoritária saiu derrotada. Mudou a conjuntura política de quem tem mandato no PT. E não dá pra fazer mais a narrativa que coloca a culpa nos outros”, analisa Ricci.

 

Já Wilson Gomes, filósofo, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital, diz que “o PT estancou a sangria de 2016, mas teve uma grande perda nos dez maiores colégios eleitorais do país [São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Fortaleza, Curitiba, Manaus, Recife, Porto Alegre e Belém]”, explica

 

A presidente nacional do partido, Gleisi Hoffmann, tentou defender os resultados alcançados. Destacou que o PT venceu em quatro das 15 cidades que disputava neste domingo e que teve mais de 40% dos votos em nove delas. “Vencemos com o PSOL em Belém, lutamos ao lado de Boulos e Manuela. E o Brasil viu o q fizeram p/ barrar Marília em Recife. O PT segue junto com o povo”, acrescentou. E arrematou dizendo que o “segundo turno mostrou que a esquerda sabe lutar”.

 

 

Mudança de perfil

 

 

Neste ano, o eleitor que votou nas candidaturas de centro-esquerda não mais associou este campo diretamente ao PT, pontua Ricci. Este eleitorado votou de forma mais plural, em candidatos do PSOL e do PDT, por exemplo. “O PT vinha crescendo desde os anos 1980 e fez quatro vezes a presidência, então ofuscava estes partidos, que agora cresceram”, avalia. O cientista político vê uma transição se formando no campo de centro-esquerda brasileiro, cujas inovações estariam sendo protagonizadas especialmente por mulheres e suas candidaturas coletivas às câmaras municipais. O campo começa, ainda, a apresentar uma pluralidade de lideranças. Ele cita como exemplo nomes como Manuela D’Ávila (PCdoB), Guilherme Boulos (PSOL) e Marília Arraes (PT). Embora nenhum deles tenha vencido no segundo turno, ganharam destaque e foram competitivos. Seria, portanto, uma pluralidade de lideranças que o cientista político não vê no campo de centro-direita.

 

O Partido dos Trabalhadores começou a crescer nos anos 1980, mas a partir do final dos anos 1990 afastou-se do “modo petista de governar” no âmbito local, representado, por exemplo, pela ideia de um orçamento participativo, conselhos e inversão de prioridades. Com a chegada de Lula ao poder, em 2002, o partido montou um modelo de coalizão ampla que o aproximou do modelo de centro-direita que tradicionalmente domina as prefeituras brasileiras. Nunca chegou a ser um partido majoritário nas municipais, mas ganhou fôlego. Em 2008, fez 557 prefeitos e se tornou a terceira força política do país. Em 2012, chegou a 632 prefeituras. No âmbito nacional, se afastou das bases e dos movimentos sociais e foi se parlamentarizando, com deputados em postos de liderança interna. A partir de 2016, voltou a encolher nos municípios. “Lula não mudou essa lógica do centro-direita da política brasileira. Ele a reforçou. É como se tivéssemos uma cabeça de esquerda e o corpo todo de centro-direita”, compara Ricci. Esta trajetória, para o cientista político, soma uma sucessão de erros estratégicos.

 

Para Wilson Gomes, um dos maiores equívocos é a resistência a olhar o espelho. “O PT está muito envelhecido, sua cúpula está envelhecida, mas o partido não faz nenhuma mudança em sua autoimagem, nenhuma autocrítica, nada”, diz.

 

“O PT se tornou um partido com a lógica tradicional, mas que tinha relações com a base marginalizada. É um partido funcional do sistema, mas a base não romperia com este sistema porque tinha o PT e as instituições como canal. Chegou um momento que este canal ficou interditado”, aponta Ricci. Gomes, que considera que o “antipetismo foi o maior eleitor em 2016 e em 2018″, avalia que esse sentimento demonstrou ter ainda grande poder eleitoral em 2020. “Vimos, por exemplo, até um vídeo de Silas Malafaia apoiando João Campos, um candidato supostamente progressista, só para fazer oposição ao PT de Marília Arraes, mesmo em um estado em que ele não tem interesses diretos”.

 

Mas os resultados deste ano pouco apontam para a discuta de 2022, considera Ricci. “O eleitor está procurando outros caminhos”, analisa. Após uma decepção com o bolsonarismo, o eleitor médio voltou à moderação e ao conhecido e fez dos partidos de centro-direita os grandes vitoriosos desta eleição. “Ele está em transição, abandonando a extrema direita e o totalmente novo de 2016 e de 2018. Ao mesmo tempo, o campo do centro-esquerda também está tendo uma transição importante”, diz.

 

O antibolsonarismo cresceu e tornou-se uma força política. Prova disso é que 11 dos 13 candidatos apoiados pelo presidente da República não foram eleitos. “Mas isso não significa que o antipetismo diminuiu”, pondera Gomes. “A questão é que o que demorou 13 anos para chegar para o PT chegou em apenas dois para Bolsonaro. Não sei se o que mais prejudicou ele foram as eleições nos Estados Unidos ou as municipais brasileiras”, acrescenta.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Pfizer solicita autorização de emergência para sua vacina contra a covid-19 nos Estados Unidos

Voluntário nos Estados Unidos recebe a vacina desenvolvida pela Pfizer e a BioNTech. AP

 

Do El País

 

A agência de medicamentos dos Estados Unidos (FDA na sigla em inglês) estava avisada: a empresa farmacêutica Pfizer e sua parceira alemã BioNTech solicitaram nesta sexta-feira uma autorização de emergência para sua vacina contra a covid-19, tornando-se os primeiros fabricantes a fazê-lo nos Estados Unidos ou na Europa. A vacina poderia estar disponível em meados ou no final de dezembro para grupos de risco, segundo afirmou a empresa em um comunicado.

 

O anúncio era esperado há vários dias, depois da publicação dos resultados do teste clínico da fase 3 da vacina, que está em andamento desde julho com 44.000 voluntários em vários países e segundo os quais a vacina contra a covid-19 não teria efeitos colaterais graves. Na quarta-feira, a Pfizer anunciou que a vacina tem 95% de eficácia a partir de 28 dias após a primeira dose.

 

A Pfizer informou em um comunicado que, caso o pedido seja aprovado, sua vacina poderia começar a ser distribuída em dezembro em fases, começando pelos grupos de alto risco, incluindo profissionais de saúde, idosos e pessoas com problemas de saúde. Os trabalhadores essenciais, professores e pessoas sem-teto, bem como as que vivem em abrigos e prisões, provavelmente seriam os seguintes, e depois crianças e adultos jovens.

 

O Governo de Donald Trump planejou vacinar 20 milhões de pessoas pertencentes a esses grupos de risco, e depois entre 25 e 30 milhões de pessoas por mês. A velocidade desse processo não tem precedentes na história das vacinas. Em média, foram necessários oito anos para desenvolver as vacinas autorizadas na última década nos Estados Unidos.

 

Em março, a BioNTech propôs à Pfizer usar sua tecnologia inédita de RNA mensageiro no momento em que o mundo passava pelo primeiro confinamento. O primeiro voluntário recebeu a vacina no dia 23 de abril, na Alemanha, na primeira fase de testes. A fase 3, e última, começou em 27 de julho. Metade dos voluntários recebeu um placebo e a outra metade a vacina experimental, sem saber quem recebeu o quê. Os voluntários continuaram suas vidas normalmente, tomando os mesmos cuidados que a população em geral e progressivamente —com a explosão da pandemia nos Estados Unidos no outono— o número de casos de covid-19 entre o grupo placebo cresceu, mas não entre o grupo dos vacinados. Dos 170 casos registrados entre os participantes, 162 receberam o placebo e 8 a vacina, de acordo com comunicados dos fabricantes. As estatísticas indicam que uma pessoa vacinada tem 95% menos risco de contrair a doença do que uma não vacinada.

 

 

Uma vacina para o mundo

 

 

Espera-se que o processo de controle da FDA deve levar algumas semanas, e uma reunião do comitê assessor para analisar a vacina foi agendada para o início de dezembro. “A apresentação nos Estados Unidos representa um marco fundamental em nossa viagem para entregar uma vacina contra a covid-19 ao mundo, e agora temos uma imagem mais completa da eficácia e do perfil de segurança da nossa vacina, o que nos dá confiança em seu potencial”, disse o presidente e diretor executivo da Pfizer, Albert Bourla, em um comunicado.

 

O anúncio acontece dois dias depois de a Pfizer ter informado que em sua última avaliação da fase 3 a eficácia da vacina “era consistente segundo a idade, o gênero, a raça e a etnia” e que “a eficácia observada em adultos com mais de 65 anos era superior a 94%”. De acordo com a Pfizer, os dados demonstram que a vacina foi bem tolerada em todas as populações de seus participantes inscritos e que nenhum problema de segurança grave foi observado. Os únicos efeitos colaterais importantes foram fadiga (3,8%) e dor de cabeça (2%).

 

A Pfizer anunciou em 22 de julho que os Estados Unidos fizeram um acordo para comprar 100 milhões de doses de sua vacina por um total de 1,95 bilhão de dólares (cerca de 10,49 bilhões de reais) e a possibilidade de comprar 500 milhões de doses adicionais. A empresa espera produzir até 50 milhões de doses em nível mundial em 2020 e até 1,3 bilhão de doses até o final de 2021. Os Estados Unidos registraram 11.698.661 casos confirmados de coronavírus nesta quinta-feira e 252.419 mortes por covid-19, de acordo com a contagem independente da Universidade Johns Hopkins. O balanço representa um recorde absoluto de novos contágios, com 200.146 a mais em um dia, e também o maior número de mortes em 24 horas (2.239) desde o início de maio, em plena explosão da pandemia.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Democracia em suspense

O presidente dos EUA, Donald Trump, na Casa Branca nesta quarta-feira. MANDEL NGAN / AFP

 

Do El País

 

A democracia norte-americana, a principal potência mundial, enfrenta um de seus momentos mais importantes desde a Segunda Guerra Mundial. Donald Trump e Joe Biden lutam voto a voto em uma eleição presidencial com potencial para deixar uma marca duradoura no futuro do país e das relações internacionais, em uma tensa apuração que mantém em suspenso uma sociedade muito dividida e o mundo inteiro. A eleição parece que vai se tornar o maior teste em décadas para a solidez dos equilíbrios institucionais norte-americanos ―admirados desde os tempos de Alexis de Tocqueville―, cada vez mais questionados hoje.

 

Estão em jogo interesses de importância quase incomensurável. Certamente, um novo mandato para o projeto Trump, para o seu nacional-populismo incendiário, a explosão da multipolaridade como base das relações internacionais, o negacionismo climático e a polarização social como tática política; ou um retorno, pelas mãos de Biden, a políticas moderadas de progresso, inclusão e relações internacionais construtivas. Mas, antes de qualquer coisa e principalmente, estão em jogo a união da sociedade norte-americana e a estabilidade de sua democracia, que encara o tremendo desafio de um processo eleitoral questionado sem nenhum argumento ou escrúpulo pelo líder instalado na Casa Branca.

 

A desfaçatez e a temeridade do presidente em se considerar vencedor ―"francamente, nós ganhamos estas eleições"– quando havia milhões de votos a apurar, ou em acusar os adversários de “tentarem roubar” as eleições sem prova alguma, evidencia a falta de qualquer sentido de Estado por parte do presidente. Trata-se de um comportamento que não atende aos mínimos padrões democráticos. No entanto, nem essas características, amplamente mostradas ao longo dos últimos quatro anos, nem a péssima gestão da pandemia erodiram o enorme empuxo de seu projeto radical entre os cidadãos norte-americanos. Ganhe quem for, o ponto de partida do novo período político é novamente um país fraturado, onde a preferência radical conta com a dedicação de metade dos eleitores. É uma mensagem que ultrapassa as fronteiras da potência americana e da qual tomam nota os nacional-populistas de outros países do Ocidente, bem como os regimes autoritários que gozam diante do espetáculo da autodegradação das democracias liberais.

 

Trump construiu conscientemente este momento de tensão máxima ao longo dos últimos meses, desacreditando seguidamente o processo eleitoral. A gasolina que agora acrescenta a esse fogo bem preparado tem um perigo enorme, considerando a tensão acumulada na sociedade norte-americana. Uma nação dividida ―em grande parte pela própria ação polarizadora do presidente―que assistiu nos últimos meses protestos maciços pela situação insustentável da violência policial contra a população negra e pela discriminação que essa violência evidencia. Uma sociedade marcada por profundas desigualdades, pela explosão das pontes de diálogo político e que, além disso, sofre o terrível ataque da pandemia, em boa medida devido à gestão temerária desta realizada pela atual Administração norte-americana. A incerteza destas horas obviamente não contribuirá para fechar estas divisões; provavelmente irá ampliá-las, o que desperta grandes preocupações em um país muito armado.

 

Muito provavelmente o papel decisivo agora será desempenhado pelos juízes. Trump já anunciou que recorrerá à Suprema Corte, bastião ultraconservador graças às nomeações que o presidente fez ao longo de seu mandato. Não é a primeira vez que os Estados Unidos vivenciam apurações disputadas. Podem ser lembradas as eleições do ano 2000, disputadas por George Bush Filho e Al Gore. O braço de ferro foi resolvido pela Suprema Corte, que suspendeu a apuração. A solução não esteve isenta de polêmica, mas foi acatada de maneira exemplar. Hoje a situação é diferente: um dos adversários está na Casa Branca e a fratura no seio da sociedade parece enorme.

 

A tentativa deliberada de dividir seus concidadãos para fins partidaristas será um dos principais capítulos do julgamento da história sobre Trump. No aspecto internacional, o veredito versará sobre a sistemática explosão ou erosão de alianças, tratados e instituições globais: da saída do acordo contra a mudança climática à erosão da OTAN; da quebra da relação histórica com a Europa ao rompimento de pactos comerciais ou do acordo nuclear com o Irã; do questionamento da ONU aos ataques à OMC e à OMS. Em um novo período de quatro anos, caberia esperar mais do mesmo; mais protecionismo, mais negacionismo climático, mais xenofobia, mais unilateralismo. Possivelmente em doses reforçadas em relação ao primeiro mandato, graças à valentia insuflada pela reeleição.

 

Mesmo que acabem ganhando a presidência, Biden e o Partido Democrata, por sua vez, terão de refletir sobre como o projeto moderado do candidato e sua coalizão de voto urbano e minorias não consegue uma vitória convincente mesmo contra um oponente tão extremo como Trump. O Partido Republicano, mais cedo ou mais tarde, deverá refletir sobre como o furacão Trump o deixou desfigurado e irreconhecível.

 

A incerteza obviamente também mantém a comunidade internacional no suspense. As democracias liberais desejam uma vitória de Biden; os regimes autoritários, os partidários do Brexit, o Israel de Netanyahu e os nacional-populistas de todo o mundo, que Trump seja o vencedor. O resultado final, evidentemente, mas também a maneira como a democracia norte-americana irá administrá-lo, deixará uma marca profunda. O momento é grave e muita coisa está em jogo: sete décadas de florescimento desses valores democrático-liberais estão ameaçados por algo mais do que nuvens escuras. Os Estados Unidos e o Ocidente precisam de um desenlace à altura de sua história e de seu futuro.

Argentinos olham para o futuro com poucas esperanças, mergulhados em sua enésima crise econômica

Homem caminha em frente a uma casa de câmbio de Buenos Aires. JUAN IGNACIO RONCORONI / EFE


Do El País

 

“A situação econômica é catastrófica, as pessoas estão muito tristes”, diz Luis, atrás do balcão de sua loja de comida para animais de estimação em um bairro de classe média de Buenos Aires. A Argentina está acostumada a crises econômicas recorrentes, mas a pandemia de covid-19 agravou a enésima recessão que o país sofre, desta vez desde meados de 2018. O Produto Interno Bruto (PIB) da Argentina caiu 19,1% no segundo trimestre do ano, o maior colapso trimestral desde o início da série estatística em 1981. Entre janeiro e março de 2002, no pior momento da crise do corralito, que eclodiu no final de 2001, a economia havia retrocedido 16,3%.

 

A recessão atual teve um impacto severo sobre a parte inferior da classe média e, é claro, sobre os pobres. O Governo de Alberto Fernández protegeu o emprego formal com leis e subsídios, mas o golpe para quem não tinha contrato foi duro. Numerosos pedreiros, empregadas domésticas, garçons e trabalhadores do comércio, entre outras profissões com elevada proporção de trabalho informal, perderam os seus rendimentos ou os viram reduzidos a um valor abaixo do limiar da pobreza. O número de pobres cresceu mais de cinco pontos percentuais na primeira metade do ano: de 35,5% para 40,9%. Em 2017, último ano de crescimento da economia argentina, a pobreza era de 25,7%.

 

A pandemia também acabou com muitas empresas. Restaurantes, bares, salões de festas e academias baixaram as portas após meses de fechamento obrigatório para evitar a propagação da covid-19. Outros se transformaram em quitandas, lojas de ferragens ou de brinquedos. É o caso do negócio administrado por Federico Cillarroca. As piscinas de bolinhas e escorregadores que recebiam as crianças nesse salão de festas infantis de aniversário desapareceram e ele passou a colocar à venda brinquedos de todos os tipos. “Estamos fazendo o possível para superar o choque. Continuamos pagando os empregados, o que não é pouco. Há muitas famílias que dependem disso, animadores, garçons, maquiadores, mágicos, a moça que faz os bolos, os fornecedores de salgadinhos ... São 20 ou 30 famílias, por aí”, diz. Cillarroca.

 

“Estar na Argentina significa ter muitas crises, com quedas e altas no consumo, quedas e altas na lucratividade, e é preciso ir lidando com tudo isso, temos alma de empreendedores. Mas isto agora é diferente, todo fechou. Receita zero e as despesas se mantiveram”, lamenta Cillarroca. É a mesma opinião da gerente de uma academia próxima, Carolina Vielman. Reabriram as portas nesta semana, após 222 dias de fechamento obrigatório, e estão de volta à atividade com menos de um terço dos clientes que tinham em março: passaram de 1.400 para 400.

 

O subsídio que o Governo deu a milhares de empresas contribuiu para que pagassem parte dos salários aos empregados, mas muitos negócios acumulam grandes dívidas com a Receita ou com as empresas que fornecem luz, água e luz, e não sabem como vão saldá-las. “Está tudo muito tranquilo, não se vende quase nada”, lamenta Miriam, dona de uma papelaria que não se lembra de um momento mais difícil nos cinco anos em que está com a loja aberta.

 

Julio Cabrera escolheu o caminho oposto de muitos: crescer para sobreviver. “Cresci porque este item não caiu com a pandemia. Além disso, tinha que deixar as instalações anteriores e baixar as portas seria fechar definitivamente e parar de vender”, diz este vendedor de brinquedos de 44 anos, pai de três filhos.

 

Sem acesso aos mercados de crédito até que o Governo renegocie a dívida com o FMI, a Argentina financia a paralisação econômica da pandemia com a emissão de moeda. Somente no primeiro semestre, o Banco Central emitiu mais de 1,35 trilhão de pesos (98,3 milhões de reais) para cobrir o déficit fiscal e financiar subsídios como a Renda Familiar de Emergência, distribuída a nove milhões de pessoas. O nível de emissão é tão alto que a Argentina teve que importar 400 milhões de notas do Brasil.

 

 

À espera de uma desvalorização

 

 

A emissão aumenta a pressão inflacionária —em setembro houve alta de 37% em relação ao mesmo período do ano anterior—, mesmo neste contexto de crise e com severos controles do mercado de câmbio. O dólar é vendido a 83,50 pesos no mercado oficial, no qual há cada vez mais obstáculos para acesso, e a mais do que o dobro —169 pesos por dólar, mas chegou a 200 pesos há uma semana— no mercado paralelo.

 

Ninguém acredita que a defasagem cambial possa permanecer tão elevada, por isso há o temor de uma desvalorização que acelere ainda mais os preços.

 

“Não posso comprar dólares, então, estoco mercadorias”, diz Luis, mostrando um lugar por onde mal consegue se mover tantos são os sacos enormes de comida para cães e gatos. “No ano passado já vimos isso, o peso desvalorizou-se em 20% e de um dia para o outro essa perda foi transferida para os preços”, argumenta para justificar a compra antecipada.

 

“Há muita gente querendo trabalhar, mas tudo está parado por vários motivos. Um, porque as prefeituras não estão funcionando e não emitem alvarás de construção. Quando trabalharem, vai haver uma grande quantidade de licenças e um funil aí também. Depois, acontece que há obras que estão sendo feitas, mas não há nem ferro nem concreto porque as cimenteiras e as siderúrgicas não estão entregando, estão açambarcando, esperando a desvalorização. Mesmo se você quiser construir, não pode”, afirma Roberto Barcala, arquiteto autônomo.

 

Além da transformação de muitos negócios, este arquiteto acredita que a pandemia também trará mudanças urbanísticas importantes, como se vê no súbito interesse pelos countries, que é como chamam na Argentina os condomínios privados na periferia das cidades. Muitos escritórios do centro da cidade ficaram desertos e, pelo contrário, o teletrabalho obrigou a reorganizar o interior das casas.

 

O futuro imediato preocupa os argentinos. O aumento do preço das matérias-primas ajudou a Argentina a sair da crise de 2001-2002, mas o contexto internacional agora é muito diferente, com uma recessão mundial. "Ano que vem será pior, estou com muito medo. Acho que se não tivesse família iria morar no exterior ", prevê Luis, pai de dois filhos adolescentes. Outros, como Cabrera, o vendedor de brinquedos, confiam na recuperação do país: “Sempre penso para cima, senão, fecho e começo a vender sanduíches. A situação é muito complicada, mas sou muito otimista. No ano que vem estaremos melhor. O que mais podemos pensar? É preciso seguir de alguma maneira”.

sábado, 31 de outubro de 2020

Sean Connery, o ator que se consagrou como James Bond, mas não ficou refém do personagem

Sean Connery em um evento em Washington, em 2001. MARK WILSON / GETTY

 

Do El País

 

A fuga mais espetacular estrelada por Sean Connery foi associar sua imagem à de James Bond para a eternidade e conseguir deixar para trás o personagem para consolidar uma carreira artística de prestígio incomparável. O ator escocês (Edimburgo, 1930) morreu neste sábado, aos 90 anos, “pacificamente, enquanto dormia, em sua casa nas Bahamas, após um breve período de doença”, explicou seu filho Jason. Connery nunca esqueceu os dois traços principais que o marcaram desde o início: sua origem humilde e escocesa. E ele estava determinado a pagar as duas dívidas.

 

Nascido em um bairro da classe trabalhadora de Edimburgo, o filho de um motorista de caminhão e de uma faxineira tornou-se o ícone por excelência de elegância, classe e sucesso. E não precisava se livrar do forte sotaque escocês, embora durante anos tenha camuflado sua calvície: quando deixou Bond para trás, ele não dedicou mais nenhum minuto de suas preocupações ao personagem. A revista People o escolheu em 1999 como “o homem mais sexy do século”. O ator Alec Baldwin diz que, quando foi convidado para estrelar The Hunt for Red October e compartilhar o pôster com Connery, respirou aliviado. O escocês tinha então 60 anos. “Foi na primeira cena que filmamos, quando ele apareceu com aquele cabelo prateado e sua voz foi ouvida, e eu percebi que não tinha nada para fazer, meu papel já havia impregnado por todo o filme”.

 

O jovem Sean não imaginava que seu futuro estivesse no cinema. Ele se alistou na Marinha Real Inglesa em 1946 e, em seu retorno, trabalhou como leiteiro, praticou fisiculturismo e ganhou um terceiro lugar honroso em um concurso de Mister Universo. Até que ele se juntou a uma companhia de teatro itinerante e começou a conseguir papéis cada vez mais relevantes. Antes de ser o Agente 007, ele seduziu Lana Turner em Mists of Restlessness e foi o amante de Anna Karenina, o Conde Vronski, na adaptação da peça para a BBC em 1961. James Bond, então, mudaria sua vida. Era difícil pensar em um ator escocês personificando o sofisticado agente secreto da imaginação de Ian Fleming, um escritor culto, elegante e esnobe, educado em uma escola particular em Eton, o berço das elites britânicas. Fleming ficou horrorizado com a escolha, para a qual nomes como Cary Grant ou David Niven haviam sido cogitados.

 

James Bond, seu personagem mais marcante


Quando viu Connery em Agente 007 vs. Doutor No, o escritor refez partes de seus romances e roteiros para dar ao protagonista uma ancestralidade meio escocesa. "Foi um privilégio conhecer o Sean. A última vez que falei com ele, ficou claro que sua saúde estava falhando, mas a voz, o espírito e a paixão que todos nós amamos nele ainda estavam lá. Eu vou sentir falta dele. A Escócia vai sentir sua falta. O mundo vai sentir falta dele ", escreveu o ministro-chefe escocês Nicola Sturgeon ao ouvir a notícia de sua morte. Apenas mais uma entre a enxurrada de vozes públicas que se somaram às condolências. Atores, produtores, políticos e até mesmo a montadora britânica Aston Martin, cujo nome sempre esteve associado à imagem de Bond, mas principalmente de Connery. “Descanse em paz, Sean Connery. Antes de interpretar James Bond, ele serviu seu país quando jovem, na Marinha Real, a bordo do HMS Formidable”, tuitou o Ministério da Defesa do Reino Unido.

 

Connery posa com um Aston Martin DB5, de 1964


A encarnação do espião “a serviço de Sua Majestade”, que consolidou a imagem do personagem ao longo de sete filmes, foi paradoxalmente escocesa e profundamente britânica. “Não somos deuses, mas somos ingleses, que é o mais próximo que você pode ser”, disse Peachy Carnehan, O Homem Que Poderia Reinar, na adaptação premiada do diretor John Huston do conto de Rudyard Kipling. Sean Connery e Michael Caine. Dois deliciosos iconoclastas que provaram que a elegância não tem outra receita senão a autenticidade.

 

Enquanto o resto da humanidade debatia quem era o melhor Bond, Connery continuou a criar personagens humanos com incrível virilidade e firmeza. Ou com um magnetismo tão poderoso quanto a própria voz do ator. A busca do conhecimento, da ternura e da habilidade de detetive de Guillermo de Baskerville, em O Nome da Rosa (1987); a honestidade e dureza de Jim Malone, o veterano policial de Os Intocáveis (1987); o terno e crepuscular Robin Hood de Robin e Marian (1976); ou Henry Jones, o excêntrico, travesso e sedutor pai de Indiana Jones em Indiana Jones e a Última Cruzada (1989).

 

'Os Intocáveis', dirigido por Brian de Palma e interpretado por Andy García, Sean Connery, Kevin Costner y Charles Martin Smith


Connery nunca se esqueceu da Escócia. Em 1967, dirigiu pela primeira e última vez um documentário em preto e branco intitulado The Bowler And The Bunnet, no qual o ator narrava em primeira pessoa as ruínas deixadas pela reconversão dos estaleiros escoceses. E ele mostrou seu apoio ao movimento pela independência durante o referendo de 2016 e em anos anteriores. Parte de sua imensa fortuna como ator foi destinada para ajudar jovens escoceses com o Scottish International Educational Trust, que ele fundou em 1971. “Eles me pediram para fazer outro filme de James Bond, e eu disse que não, porque estava farto do personagem. Mas então percebi que seria uma boa ideia dedicar 14 semanas de trabalho a 007, os Diamantes são Eternos em troca do milhão de dólares do contrato indo direto para a fundação”, explicou o próprio ator em um documentário sobre sua vida produzido pela BBC.

 

“Ele tinha um carisma extraordinário”, diz a atriz Julia Ormond, que interpretou Guinevere em Lancelot, o primeiro cavaleiro diante de Connery como Rei Arthur. “E não sei se tem a ver com ter uma vagina ou não, porque conheço muitas pessoas sem vagina que consideram isso incrivelmente sexy.” Sua capacidade de sedução correspondia a uma época, agora muito distante, em que se tolerava certa condescendência verbal em relação à violência contra a mulher. E Connery tinha algo disso. Seu primeiro casamento, com a atriz Diane Cilento, durou 11 anos e foi marcado por acusações de maus-tratos. Seu segundo matrimônio, com a pintora franco-marroquina Micheline Roquebrune, durou até o fim de sua vida.

 

Sean Connery relaxa entre as filmagens de 'Diamantes são Eternos', em 1971.ANWAR HUSSEIN / GETTY


Frequentador de Marbella, paraíso turístico do litoral espanhol, o glamour do ator acabou maculado por uma questão judicial envolvendo a reclassificação irregular de terras. A essa altura, ele já havia estabelecido sua residência em Nassau e nunca compareceu ao julgamento alegando problemas de saúde. Hoje, o James Bond representado por Daniel Craig é um personagem complexo e atormentado que duvida da própria vida amorosa, mas o ator britânico definiu Connery como o homem que marcou uma época e um estilo, “com um brilho e elegância em tela que poderiam ser medidos em megawatts”. Ele sempre manteve as duas tatuagens de seu tempo na Marinha: “Mum and Daf” (mamãe e papai) e “Scotland Forever” (Escócia sempre). As duas origens que sempre o acompanharam, “agitadas, não mexidas”, como o Dry Martini de Bond.