Governo do Estado de Pernambuco

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Gigantes tecnológicos crescem em meio ao desmonte econômico dos EUA

Os logotipos das quatro grandes companhias tecnológicas. LIONEL BONAVENTURE / AFP

El País

As grandes empresas tecnológicas dos Estados Unidos resistem à aposta do coronavírus. Apple, Amazon, Facebook e Google superaram as expectativas em seus resultados do segundo trimestre do ano, período em que a economia norte-americana sofreu uma contração sem precedentes, segundo os dados publicados nesta quinta-feira.

A Apple reportou um aumento de 11% em seu faturamento nos meses de abril, maio e junho com relação ao mesmo período do ano anterior. O crescimento da demanda por aplicativos e hardware para trabalho à distância compensou a perda de receita pelo fechamento de suas lojas no mundo todo, contrariando as expectativas de uma queda no faturamento. A Amazon, cujo negócio de venda e entretenimento on-line saiu fortalecido pelo confinamento, viu seu lucro trimestral duplicar (5,2 bilhões de dólares, 26,8 bilhões de reais).

Também o negócio publicitário do Facebook desafiou a recessão, apesar de ver uma desaceleração de seu ritmo de crescimento, e seu faturamento aumentou 11%, chegando a 18,7 bilhões de dólares. O Google (representado por sua matriz Alphabet), entretanto, registrou o primeiro decréscimo trimestral em seu faturamento em 17 anos de cotação na Bolsa (2% com relação ao mesmo trimestre do ano passado), afetado por uma diminuição no investimento dos anunciantes, embora o faturamento com publicidade no YouTube e seu negócio de computação em nuvem tenham crescido.

Somados seus resultados, as quatro companhias apresentaram mais de 28 bilhões de dólares (144,37 bilhões de reais) em lucros. Os resultados das empresas tecnológicas, que resistem ao desmonte generalizado da economia dos EUA ― num momento em que muitos de seus serviços são mais solicitados do que nunca por consumidores trancados em suas casas ―, foram divulgados apenas um dia depois de seus presidentes deporem ao Congresso numa histórica audiência de cinco horas, que deixou clara a frustração dos poderes constituídos e da opinião pública com o seu crescimento descontrolado e seu papel dominante no mercado.

Somente 24 horas depois de enfrentarem duras críticas e acusações dos congressistas, o valor das quatro companhias cresce ainda mais, empurrado por seus resultados, salientando seu papel central em uma sociedade que tem medo do seu poder incontido.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Uma elite sem modos e sem atitude

Homem banha crianças em uma favela do Rio de Janeiro. FELIPE DANA / AP

Carla Jiménez – El País

Os últimos dias têm sido um festival de arrogância de homens públicos e brasileiros abastados expondo publicamente seu pedantismo diante de pessoas em suposta posição de desvantagem na escala econômica. O mais recente, o desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira, chamando de “analfabeto” um guarda que cobrou dele o uso da máscara enquanto ele caminhava na orla de Santos, é de cair o queixo. Siqueira rasgou uma multa que recebeu e a jogou em cima do guarda municipal que o abordava. O desembargador ainda ligou para um superior para reforçar a ameaça, como mostram as imagens do vídeo que tomou as redes sociais neste final de semana.

Tornar-se alvo de repúdio de parte dos brasileiros não faz corar nenhum integrante desse topo da pirâmide, que só alcançou status por dinheiro, mas são deploráveis em termos de valores. Alguns entregam seu apego a uma etiqueta de opressão, descolados de um mundo que avança em outro sentido. Dias atrás circulou a imagem de um casal reclamando com um fiscal no Rio que cobrava que fossem embora de um bar pelas restrições impostas pela pandemia. Quando o fiscal chamou o rapaz de “cidadão”, a mulher reagiu dizendo: “cidadão não, engenheiro civil”. Também o secretário executivo do Ministério da Saúde, Elcio Franco Filho, mostrou sua hostilidade com quem não pode se defender ao dar ao vivo uma bronca gratuita num garçom que entrou sem querer na visão da câmera que filmava a live da qual participava Franco Filho.

Um pouco antes, foi a vez de um empresário no condomínio de luxo Alphaville apelar em alto e bom som para a baixaria quando foi abordado por um policial, chamado pela mulher do empresário. “Você é um bosta, você é um merda de um PM que ganha mil reais por mês. Eu ganho 300.000 por mês. Eu quero que você se..., seu lixo!”, vociferava ele na frente da mulher — e da filha. Este, ao menos acabou algemado, e pediu desculpas publicamente pelo show de horrores que promoveu. Mas estava sendo detido por violência doméstica. Quem é o lixo aqui?

Essa falsa superioridade presente em uma parte da elite mata de verdade. É a mesma que fecha os olhos para a pobreza e a violência policial que executa negros na periferia, colocando o Brasil como um dos campeões em crueldade. É a mesma que despreza o filho da empregada sozinho no elevador, como Sarí Corte Real, mulher do prefeito de Tamandaré. Miguel, filho de Mirtes que passeava os cachorros de Sarí enquanto a patroa fazia as unhas, caiu do alto do prédio e morreu.

Não se pode generalizar a elite brasileira com esses exemplos rastaquera. Há muita gente no topo da pirâmide querendo verdadeiramente dar sua contribuição para garantir um país mais decente. Um PIB que se preocupa com educação dos mais vulneráveis, com o meio ambiente e com o avanço democrático do Brasil. Que não se prestaria, seguramente, a se tornar uma caricatura dos “você sabe com quem está falando?” como o desembargador Siqueira. Mas ainda são poucos os que se erguem com veemência contra injustiças no país que os enriquece. Neste momento, é inacreditável que atores globais, assim como a socióloga Neca Setúbal, tenham de interceder junto ao governador João Doria Jr. para que ele receba movimentos sociais negros que querem ser ouvidos para falar da violência policial das periferias em São Paulo que subiu vertiginosamente.

São poucos os que dão a cara para bater. Num Brasil à flor da pele neste momento tão trágico como o da pandemia, não faltam aqueles que continuam repetindo à exaustão a cantilena do liberalismo econômico como meio de melhorar a vida dos pobres, como sugeriu em entrevista à Folha de S. Paulo Henrique Bredda, da gestora Alaska. Diz Bredda que fica “com o pé atrás” quando ouve falar em desigualdade no Brasil.

Faltaram brios também aos empresários mais poderosos do Brasil diante da “boiada” que está passando na Amazônia. Foram fracos em não se posicionar diante dos ataques à floresta nestes últimos tempos. Foi preciso que fundos estrangeiros trilionários ameaçassem retaliar o Brasil para que fossem bater à porta do general Hamilton Mourão com um manifesto contra o desmatamento. Uma carta assinada inclusive pela Vale, cuja atuação em desprezo ao meio ambiente e aos trabalhadores do grupo deixou sequelas profundas em Minas Gerais.

O desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira fala ao telefone com o secretário da Segurança de Santos, Sérgio Del Bél, enquanto é autuado

No ano passado, o empresário Blairo Maggi, maior exportador de soja, foi um dos poucos a falar publicamente e chamar a atenção para o risco que o Brasil corria diante dos incêndios na Amazônia. Mostrava o perigo para o agronegócio diante da gestão. “O Brasil tinha subido no muro e passado a perna para descer do outro lado, agora fomos empurrados de volta e para bem longe do muro. Não veja como crítica feroz, mas sim como um alerta”, avisou Maggi.

A lista de desconfortos só cresce. Quanto os bancos se empenharam para que houvesse crédito a empresas neste momento de pandemia? Dados do IBGE revelam que somente 12,7% das empresas tiveram acesso ao crédito emergencial do Governo destinado ao pagamento de salários. O recurso, anunciado em março, estaria disponível através dos bancos. Falhou o Governo em repassar? Quantas vozes se insurgiram contra esse quadro? Não por acaso mais de 700.000 empresas já fecharam em definitivo por causa da pandemia.

A elite brasileira precisa se envergonhar da sua cumplicidade com um Brasil perverso. Em outros países, milionários estão fazendo campanha para aumentar os próprios impostos, contribuindo com movimentos por justiça social. O silêncio dos que detêm dinheiro e poder permitiu que o país se tornasse pária no exterior. Nada mais constrangedor do que ter a chance de evoluir, e calar. Tenham modos, tenham coragem para deixar que o Brasil tenha orgulho de si mesmo.

domingo, 12 de julho de 2020

Assessor de braço direito de Bolsonaro é investigado por suspeita de incitar ameaças contra Debora Diniz

Guilherme Julian em reunião com o vereador Carlos Bolsonaro. REPRODUÇÃO
El País

Vivendo fora do Brasil desde 2018 por causa de seguidas ameaças de morte, a professora e antropóloga da Universidade de Brasília (UnB), Debora Diniz, processou o secretário parlamentar Guilherme Julian Victor Freire, 28, por injúria, difamação e ameaça. Ele trabalha no gabinete do deputado federal Helio Lopes, braço direito do presidente Jair Bolsonaro, e é integrante do grupo que coordena redes sociais bolsonaristas, investigado na CPI das Fake News como “gabinete do ódio”.

No processo a que o EL PAÍS teve acesso, Guilherme Julian é apontado como criador da página União Nacional dos Estudantes da Direita (UNED), que, em junho de 2018, publicou um post em que chamava Debora Diniz de “monstro” por defender a descriminalização do aborto. Por ordem judicial, o Facebook forneceu os dados dos administradores da página à Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam), do Distrito Federal. Em depoimento à polícia, Julian disse que, na época da postagem, já não controlava mais a página e citou que um amigo, André Luiz Ferraz Pereira, conhecido como Dell, teria sido o autor da publicação.

Além de Dell e Julian, também é acusado na representação criminal, protocolada em fevereiro deste ano, o pai do secretário parlamentar, José de Arimateia Souza Freire, que mora em Caucaia, região metropolitana de Fortaleza, pelo fato do provedor de internet utilizado para fazer postagens da UNED estar em seu nome. No inquérito policial, apenas Dell acabou indiciado por crimes de injúria e difamação. Porém, a Justiça acatou pedido do Ministério Público do Ceará para incluir Julian e seu pai no processo e apurar suposto envolvimento em incitação de ameaças contra Debora Diniz.

No fim de 2018, a ativista por direitos das mulheres, que é colunista do EL PAÍS, foi incluída no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos do Governo federal e deixou o país após receber dezenas de ameaças de morte. Os ataques via redes sociais começaram em maio daquele ano, quando ela idealizou uma ação no STF pela descriminalização do aborto até a 12ª semana de gravidez. Em agosto, as ameaças se tornaram mais contundentes, com e-mails anônimos que expunham seus dados pessoais e endereços de familiares. “Não saí do Brasil porque fui ameaçada, mas para proteger outras pessoas. Se as ameaças fossem somente contra mim, eu jamais sairia”, conta Diniz, que, mesmo exilada em Nova Iorque, teve seu paradeiro descoberto por agressores e continua sendo ameaçada.

A reportagem tentou falar com Guilherme Julian, mas ele não retornou aos contatos. Depois de sofrer uma operação de busca e apreensão em sua casa de Caucaia, em dezembro de 2018, ele alegou no depoimento à polícia que, um ano antes da postagem contra Debora Diniz, havia deixado de ser administrador da página União Nacional dos Estudantes da Direita. Por ter admitido a autoria da publicação, Dell foi o único indiciado pelas autoridades policiais. A investigação identificou ainda outro usuário acusado de ameaçar a ativista: H. G. M., 44, do Paraná, denunciado pelo Ministério Público por injúria e ameaça devido a uma mensagem intimidatória enviada pelo Facebook. “É preciso saber quem faz a movimentação desse ecossistema de ódio”, afirma Diniz. “Infelizmente, os agressores não costumam deixar rastros nem indícios de uma célula de articulação do movimento.”


De agitador da direita cearense ao “gabinete do ódio”


Em publicações de suas redes sociais, Guilherme Julian sempre se engajou em campanhas que intituladas “antiabortistas” e manifestou oposição ao feminismo. Mas foi criando e alimentando páginas de extrema direita que o estudante de administração ganhou notoriedade no Ceará. Depois de uma visita do então deputado federal Jair Bolsonaro à capital cearense, em 2015, e de se aproximar do filho do parlamentar, Carlos Bolsonaro, ele fundou no fim daquele ano o movimento Endireita Fortaleza. Os memes que faziam sucesso nas redes extrapolaram a militância e se converteram em um negócio.

Julian, que vivia de clicar ensaios fotográficos, abriu a empresa “Mituz”, que comercializava camisetas com estampas favoráveis a Bolsonaro e lemas da direita ultraconservadora. Sua capacidade de mobilização na internet rapidamente seria reconhecida pela família do pré-candidato à Presidência. Em um vídeo, o próprio Bolsonaro admitiu que o Endireita Fortaleza foi “um dos pioneiros nessa criação dos grupos de WhatsApp”.

No início de 2017, Carlos Bolsonaro reuniu integrantes do movimento ao recrutar mobilizadores digitais que se mostrariam decisivos na campanha presidencial do ano seguinte. Ao celebrar a adesão a manifestações de rua convocadas pelo grupo em Fortaleza, Julian se referia a Bolsonaro como “chefia” e gaba-se de ser seguido pelo perfil do candidato a presidente, que vez ou outra, inclusive, curtia e comentava seus posts no Instagram.

Julian conheceu Bolsonaro antes do início da campanha presidencial. REPRODUÇÃO

Além de atos a favor de Bolsonaro, o Endireita também divulgava entrevistas com militantes antiabortistas e organizava eventos de promoção da extrema direita no Ceará. Em um deles, levou a Fortaleza uma palestra do influenciador bolsonarista Bernardo Küster, realizada no ano passado. O youtuber é apontado no inquérito policial da Deam como autor de vídeo, publicado em novembro de 2017, “que atribui fato ofensivo à honra” de Debora Diniz. Embora o documento indique que o vídeo tenha desencadeado os primeiros ataques e ameaças à ativista, Küster não chegou a ser investigado pela polícia.

Já formado em administração e com Bolsonaro eleito, Julian, mesmo alvo de operação de busca e apreensão em sua cidade natal, recebeu no fim de 2018 o convite para integrar o gabinete de Helio Lopes. Ele tem salário de 6.181 reais no cargo de secretário parlamentar. Outros cearenses de Caucaia que administram páginas bolsonaristas no Facebook também ganharam emprego em Brasília, casos de Henrique Rocha, outro assessor de Lopes, e José Mateus Sales Gomes, que, antes de compor o gabinete presidencial, assessorou diretamente o vereador Carlos Bolsonaro, alvo da CPI das Fake News como suposto articulador do gabinete do ódio. A atuação coordenada em rede, de acordo com investigações no Congresso, seria responsável por direcionar ataques de milícias digitais a opositores e ex-aliados do presidente.

Em que pese o expediente em Brasília, Julian permanece influente no Endireita Fortaleza. Atualmente, o principal alvo do grupo é o governador Camilo Santana (PT-CE), chamado de ditador pelo movimento que se opõe às medidas de isolamento social decretadas por causa da pandemia de coronavírus. Em alusão ao rótulo popularizado pela CPI, apelidou a articulação pró-Bolsonaro no Ceará de “gabinete do amor”. Na época da campanha, ele se orgulhava das mensagens de deferência que recebia de Carlos Bolsonaro, a quem define como “meu ídolo”. Fazia questão, entretanto, de negar que o engajamento visasse lucro. “Não tem dinheiro de partido, de político, nada. É o clamor da população”, afirmou ao liderar uma das carreatas bolsonaristas em Fortaleza às vésperas das eleições.

sábado, 11 de julho de 2020

Se o coronavírus circula pelo ar, e agora?


Do El Pais

Por trás de cada resolução da Organização Mundial da Saúde (OMS) está a ciência, mas não só a ciência. Suas recomendações são universais e, apesar de os países não serem obrigados a cumpri-las, cada palavra presente em seus documentos é medida milimetricamente porque pode provocar mudanças nas políticas de saúde em todo o planeta. Essa é uma das razões pelas quais, apesar de numerosas evidências mostrarem há meses que a transmissão aérea do coronavírus é possível, a OMS só reconheceu nesta semana essa possibilidade. Na prática, o que isso muda?

É muito provável que pouco ou nada, segundo vários especialistas consultados. O documento no qual a OMS admite a possibilidade de que as gotículas exaladas por alguém com o coronavírus fiquem no ar, outra pessoa as respire e seja infectada tem tantas nuances que não acarreta medidas adicionais às já recomendadas. “Basicamente, significa três coisas: reforçar o uso de máscaras em espaços fechados, e sempre que não for possível manter a distância de segurança, ventilar ainda mais os espaços fechados e realizar muita limpeza e desinfecção nos sistemas de ar-condicionado de circuito fechado dos edifícios de escritórios, empresas etc. Na verdade, nada que não tenha sido dito antes”, assinala Alberto Infante, especialista em saúde pública.

Nuances também são ciência. Juan Ayllón, virologista da Universidade de Burgos, explica da seguinte forma: “A OMS admite a possibilidade de transmissão pelo ar, em parte, porque um grupo de cientistas vinha pedindo isso. Eles são, na maioria, químicos, que não sabem muito sobre vírus, mas sim sobre como as partículas são transmitidas no ar. Do outro lado estão os epidemiologistas, mais preocupados com a influência real desse tipo de transmissão. E no meio está a OMS, de quem se exige que transmita informações a toda velocidade”.

Ayllón lembra o que diz o próprio documento da organização: que o fato de que seja possível uma transmissão pelo ar em determinadas circunstâncias (ambientes médicos com manipulação de pacientes ou lugares fechados com muitas pessoas e má ventilação) não significa que seja esse o maior foco de contágio. Pelo contrário, o consenso científico continua apontando o contato próximo com pessoas infectadas como o maior risco. Os casos documentados em lugares com recirculação de ar (como ônibus e restaurantes), corais e aulas de aeróbica seriam, segundo a teoria da OMS, exceções, não a regra geral. Porque mesmo sabendo que o SARS-CoV-2 pode ficar suspenso, cada gotícula tem uma quantidade viral muito pequena, de modo que, para inalar o suficiente para que haja uma infecção deve ocorrer uma série de circunstâncias não muito frequentes.

Isso é demonstrado observando como as medidas adotadas para conter a epidemia em todos os países do mundo funcionaram sem precauções que levassem em conta uma transmissão aérea significativa, assinalou quinta-feira Fernando Simón, diretor do Centro de Coordenação de Alertas e Emergências Sanitárias da Espanha. “Há evidências de que possa ocorrer em alguma situação específica, mas não muitas nem muito sólidas. Se isto fosse demonstrado, seria necessário tomar muitas medidas que não foram adotadas até agora”, explicou Simón.

No entanto, os cientistas estão abertos a novas evidências que os façam mudar de opinião. “Pesquisas urgentes de alta qualidade são necessárias para elucidar a importância relativa das diferentes vias de transmissão; o papel da transmissão aérea na ausência de procedimentos [médicos] geradores de aerossóis; a dose de vírus necessária para que ocorra a transmissão; a configuração e os fatores de risco para eventos de superdisseminadores; e a extensão da transmissão assintomática e pré-sintomática”, diz o novo documento da OMS.

Jesús Molina Cabrillana, da Sociedade Espanhola de Medicina Preventiva, é a favor de manter a vigilância e não adotar medidas mais restritivas. “Já foram tomadas muitas; diante de um avanço do vírus, o que deve ser feito, como está previsto, é recuar e voltar a limitar certos movimentos ou capacidades de público”, ressalta.

Os especialistas insistem que devem ser respeitadas as precauções já recomendadas, sem a necessidade de adotar outras. Segundo María del Mar Tomás, microbiologista da Sociedade Espanhola de Doenças Infecciosas e Microbiologia, se o documento da OMS serve de alerta para algo, é quanto à necessidade de ser especialmente cuidadoso em ambientes fechados, manter a máscara e evitar lugares com má ventilação. E as reuniões sociais devem ser preferentemente ao ar livre, onde o risco de contágio diminui bastante, já que, mesmo que o vírus permaneça suspenso no ar, a dispersão dificulta muito a infecção.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Após dez dias de isolamento rígido, Caruaru e Bezerros retornam para 2ª etapa do Plano de Convivência com a Covid-19


A partir da desta segunda-feira (06/07), os municípios de Caruaru e Bezerros, ambos no Agreste, retornam para a 2ª etapa do Plano de Convivência com a Covid-19 de Pernambuco. Depois de dez dias cumprindo isolamento social rígido - por determinação do Governo do Estado, as duas cidades registraram redução no número de casos graves de SRAG. Dessa forma, além do funcionamento dos serviços essenciais, da construção civil (com 50% da capacidade) e do segmento industrial, será permitido o retorno do comércio atacadista.

Nos dez dias de restrições mais rígidas, o Governo de Pernambuco realizou um reforço nas ações de fiscalização, de apoio social e de estruturação da rede pública de saúde voltado para o enfrentamento à Covid-19. Essas medidas permitiram a ampliação do isolamento social, a sensibilização o cumprimento de etiquetas de higiene e cuidado pessoal e capacidade de atendimento aos pacientes que precisam de tratamento.

Ao longo dos dez dias de isolamento rígido, o Governo de Pernambuco enviou para o Hospital Mestre Vitalino, em Caruaru, mais 20 respiradores, que estão possibilitando a abertura de novas vagas de terapia intensiva na unidade. Já para Bezerros, foram encaminhados, após assinatura de termo de cessão, cinco respiradores, cinco monitores multiparamétricos e cinco camas hospitalares, que estão proporcionando a abertura de 10 novos leitos exclusivos para o tratamento de pacientes com Covid-19 na cidade. A IV Gerência Regional de Saúde já conta com 143 leitos dedicados à Covid-19, sendo 78 de UTI e 79 de enfermaria.

Além de respiradores, o também foram encaminhados, mais de 85 mil Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) para as secretarias de Saúde dos dois municípios. Entre os itens, foram entregues máscaras cirúrgicas (70 mil); máscaras do tipo N95 (14 mil), que são indicadas para uso de profissionais que estão em contato direto com os pacientes em procedimentos com risco de geração de aerossol; protetores faciais (1.400) e óculos de proteção (210).

A Operação Quarentena, coordenada pela Secretaria de Defesa Social (SDS), chegou a colocar 593 profissionais nas ruas dos dois municípios. Foram mais de 3,5 mil postos ativados nas duas cidades, entre policiais militares, policiais civis e bombeiros militares, além de profissionais de órgãos parceiros, como Detran, Procon, IPEM, guardas municipais e agentes municipais de Saúde.

Esse efetivo abordou mais de 1.400 veículos e orientou cerca de sete mil pessoas, além de terem fiscalizado mais de 3.5 mil estabelecimentos comerciais. Além dos pontos de bloqueio, cerca de 40 ações de choque de ordem são colocadas em práticas, por dia, em parques, feiras, bancos, pontos de ônibus e áreas comerciais.

Também foram distribuídas 12.300 máscaras de pano e aferida temperatura das 13 mil pessoas.  As máscaras foram compradas pela Agência de Desenvolvimento AD Diper do polo de confecções do Agreste. Todos servidores e voluntários utilizaram equipamento de proteção individual composto de máscara, protetor facial, avental e luvas.  Ainda foi realizado um trabalho de mobilização com o objetivo alertar as pessoas sobre a necessidade do isolamento social e dos cuidados que todos devem ter, em especial, no período de quarentena rígida.

Como resultado dessas restrições, o município de Caruaru conseguiu sair de um índice médio de isolamento social de 35%, chegando a atingir 50.2%. Já Bezerros, que mantinha um distanciamento médio de 32% na pré-quarentena, chegou a atingir 41%. O índice é medido pela empresa de georreferenciamento Inloco.

Com o retorno de Caruaru e Bezerros para a etapa 2 do Plano de Convivência com a Covid-19, todos os municípios que compõem a Microrregião de Saúde II agora estão no mesmo estágio. A partir desta segunda-feira, entram na etapa 5 todas as cidades da Macrorregião I, incluindo a região de Palmares. Entre alguns dos municípios que avançarão para a 5ª etapa estão Recife, Olinda, Paulista e Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife; Limoeiro, Goiana, Carpina e Bom Jardim, na Zona da Mata Norte. Já as macrorregiões III e IV seguem na etapa 4.