Governo do Estado de Pernambuco

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Lula volta ao ringue político e se prepara para testar influência nas municipais

O ex-presidente Lula participa de debate em Berlim, Alemanha, em 10 de março. RICARDO STUCKERT/INSTITUTO LULA

Do El País

Na semana em que se comemorou a independência do Brasil, um movimento atraiu as atenções. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) claramente mostrou que estava de volta ao ringue político-eleitoral. Aproveitou a data patriótica do 7 de Setembro para, em um vídeo divulgado nas redes sociais, fortalecer a polarização com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Apostou como nunca num discurso pró-minorias, teceu críticas ao Governo e ao manejo da pandemia, falou de economia e política externa. Ensaiou apontar soluções. Fez questão de publicar versões do discurso em espanhol, inglês e francês. Com seus 23 minutos de vídeo, lançou de vez um questionamento: Lula será candidato à sucessão presidencial em 2022? A pergunta foi feita até pela consultoria de risco político internacional Eurasia. No que depender do Judiciário, a resposta hoje seria não. Ele tem condenações por corrupção em segunda instância na Justiça e, portanto, é considerado ficha-suja. Pelas regras atuais, quem for condenado por um colegiado de juízes não pode disputar o pleito.

E os embates com a Justiça estão longe de acabar. Além de ser réu em seis processos, nesta segunda a força-tarefa da Operação Lava Jato resolveu fazer uma nova denúncia contra Lula, acusando-o de lavagem de dinheiro ao receber doação da Odebrecht para seu instituto. A defesa do petista rebateu: disse que os procuradores não têm nenhuma prova nas mãos e apenas reagem aos reveses recentes que a Lava Jato sofreu no Supremo Tribunal Federal.

De fato, o clima tem estado mais hostil para a Lava Jato na mais alta Corte. O que eleva a esperança dos petistas de que Lula possa sonhar com a candidatura é uma possível vitória no Supremo nos processos que pedem que o ex-juiz Sergio Moro, que deixou a magistratura para se tornar ministro de Bolsonaro, seja considerado suspeito por ter condenado pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Um deles, que deve ser julgado até novembro, trata da sentença de nove anos e meio de prisão que Moro emitiu contra Lula no caso do tríplex do Guarujá ―a condenação foi aumentada para 12 anos posteriormente pela segunda instância. Esse processo tramita na Segunda Turma do STF, já tem dois votos contrários a Lula (Cármen Lúcia e Edson Fachin) e duas sinalizações de apoio ao petista (Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski). Mendes pediu vistas do processo e prometeu levá-lo a julgamento antes de novembro, quando o outro ministro da turma e potencial voto de minerva, Celso de Mello, deverá se aposentar compulsoriamente.

Para o cientista político Paulo Cesar Nascimento, professor da Universidade de Brasília (UnB), a fala do ex-presidente serve para incentivar o clima de radicalização e polarização com Bolsonaro, num momento em que o presidente vive um momento de alta de popularidade. O sucesso da estratégia ainda é incerto. “O Lula está de volta ao ringue. Mas ele já não depende mais só de si mesmo. Sua vida está presa ao que o Judiciário decidir. Enquanto isso, o PT continua se prendendo a figura de seu principal líder”. E essa polarização é que os dois lados querem.

Na direção petista, há a forte defesa da candidatura do ex-presidente. “Não há outra liderança que faça um contraponto ao Bolsonaro como ele faz. Por isso insistimos no nome do Lula”, diz a presidenta da legenda, a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR). A aparição de Lula nas redes sociais estava sendo programada há alguns meses. E a ideia era de parecer com um discurso de estadista, preocupado com a população. “Há tempos ele queria falar do Brasil, para o Brasil. E principalmente da questão da soberania, da democracia e da liberdade. Queria fazer um discurso que tivesse começo, meio e fim”, afirmou a deputada.


Prova de fogo


Um teste para saber se seu discurso ainda está reverberando junto aos seus eleitores será nas eleições municipais de novembro próximo. Lula será cabo eleitoral nas principais cidades em que o PT tiver candidato. Com a pandemia de coronavírus, sua participação será virtual, com a gravação de vídeos para seus aliados. Como estratégia de fortalecer sua hegemonia na esquerda, o PT prevê lançar concorrentes às prefeituras de 1.531 dos 5.568 municípios brasileiros ―mas,mesmo em bastiões tradicionais como São Paulo, enfrenta problemas, com candidatos pouco competitivos. A legenda deve fazer poucas alianças com outras siglas, como o próprio Lula sinalizou no discurso de 7 de setembro. Em nenhum momento ele tratou do tema em sua fala. O mais próximo que chegou disso, conforme a própria presidenta da legenda, foi quando disse: “Não contem comigo para qualquer acordo em que o povo seja mero coadjuvante”.

Ao decidir fazer um longo discurso exclusivo nas redes sociais, Lula tenta expandir sua influência para uma rede até então dominada por bolsonaristas. Até esta segunda-feira, dia 14, o longo discurso de Lula tinha cerca de 740.000 visualizações ―quase sete vezes mais que os quatro minutos da fala de Bolsonaro em rede nacional no mesmo dia 7. Em seu discurso, o atual mandatário falou que é a favor da liberdade das pessoas, que defende a Constituição e a democracia, e citou, entre outros temas, a “sombra do comunismo”.

Um comparativo feito por Pedro Bruzzi, sócio da consultoria de análise de mídias sociais Arquimedes, e publicado no site da revista Piauí, mostra que Lula conseguiu o raro feito de superar Bolsonaro no YouTube. Mas ambos perderam para o neófito deputado André Janones (AVANTE-MG) que em duas lives no Facebook no mesmo 7 de setembro obteve quase 4 milhões de visualizações, ultrapassando Bolsonaro e Lula ao falar do alto preço do arroz, um fantasma que vem assombrando o Governo e que não aparece no radar do petista. Ainda é cedo para dizer o quanto de estrago a inflação dos alimentos fará na recém reforçada popularidade de Jair Bolsonaro, que angariou mais simpatia nas classes mais pobres justamente por causa do amplo programa de transferência de renda iniciado durante a pandemia, cujo futuro no ano que vem ainda é incerto. O auxílio emergencial pago também aos beneficiários do Bolsa Família, uma marca dos anos Lula, pode ser o atalho perfeito para os planos de Bolsonaro de rebatizar de vez o programa e apagar o que resta da memória de bonança dos anos de seu maior adversário.

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