domingo, 21 de maio de 2017

NEM A LAVA JATO NEM INQUÉRITOS NO SUPREMO INTIMIDARAM O TUCANO AÉCIO NEVES: ELE PEDIU MAIS PROPINA, EM MARÇO. PODERIA ESTAR PRESO

O senador Aécio Neves em sua casa na quinta-feira. Por POUCO ELE NÃO FOI PRESO (Foto: Jorge William/Agência O Globo)

Por volta de 19h30 da quarta-feira, dia 17, o Senado votava o projeto de socorro financeiro aos estados. O presidente da Casa, Eunício Oliveira, do PMDB, já encerrava a votação quando o senador Benedito de Lira reclamou que não conseguia registrar o voto. Eunício sorriu malicioso, esfregou o indicador no polegar da mão esquerda e mandou um funcionário socorrer o colega: “Ajude ali o Benedito de Lira, que está com dedo gasto de (tanto) contar dinheiro!”. Lira devolveu sorridente: “Era bom que fosse...”. Os dois são alvos da Lava Jato por suspeita de receber propina, mas não se importaram de fazer graça. O senador tucano Aécio Neves também sorria descontraído a uma curta distância de Lira. Alguns minutos depois, o bom humor dos senadores azedou. Aécio leu pelo celular a notícia recém-publicada pelo jornalista Lauro Jardim, de O Globo. O empresário Joesley Batista, dono do frigorífico JBS, afirmara em delação premiada que o tucano lhe pedira R$ 2 milhões em dinheiro vivo, entregues em quatro parcelas em abril. O pagamento ocorreu mesmo após virem à tona as delações da construtora Odebrecht, que resultaram em cinco inquéritos contra Aécio por corrupção e lavagem de dinheiro. Transtornado, Aécio deixou o plenário rapidamente. Não poderá voltar lá por algum tempo.

Na manhã seguinte, a Polícia Federal bateu na porta de Aécio em Brasília para cumprir mandado de busca e apreensão. Os agentes também reviravam seu apartamento no Rio de Janeiro, seu gabinete no Senado e o sítio de sua família em Cláudio, no interior de Minas Gerais. Em seguida, veio a notícia que o desnorteou. Considerada sua principal conselheira política, sua irmã Andrea Neves fora presa em Belo Horizonte, acusada de intermediar o pagamento de R$ 2 milhões. O primo Frederico Pacheco de Medeiros, gravado pela PF recebendo os recursos da JBS, fora detido também.

O conjunto de provas era robusto. Tanto que a Procuradoria-Geral da República pediu a prisão preventiva do tucano. O relator da Lava Jato no Supremo, ministro Edson Fachin, entendeu que, por ser parlamentar, ele só poderia ser preso em flagrante – diante disso, decidiu apenas afastá-lo do cargo. Aécio não pode ir ao Senado e está proibido de manter contato com investigados e viajar para o exterior. Ainda assim, Fachin deixou claro que, pelas provas, o caso do tucano era de  prisão. O ministro, porém, preferiu ser mais cauteloso. “Embora considere imprescindível a decretação da prisão preventiva (de Aécio) para garantir a ordem pública e instrução criminal, reconheço que o disposto da Constituição impõe, ao menos em juízo monocrático, necessidade de contenção.” Ficou claro que, mesmo com a Lava Jato em curso e sete inquéritos nas costas (dois da delação do Delcídio e cinco da Odebrecht), Aécio manteve a prática de buscar propina, um claro sinal de falta de medo da lei.

Andréa Neves irmã do senador Aécio Neves (Foto: FLÁVIO TAVARES/HOJE EM DIA/ESTADÃO CONTEÚDO)

Levantado o sigilo da operação por Fachin, revelou-se um Aécio com linguajar chulo nas conversações com o dono da JBS, ávido por dinheiro e engajado no Congresso em “matar” a Lava Jato, por meio de projetos como o de abuso de autoridade. Nada a ver com o Aécio dos discursos pela ética. Os R$ 2 milhões seriam apenas uma fração de propinas e trocas de favores e interesses espúrios do tucano e sua irmã que vieram à tona nos detalhados depoimentos e gravações dos executivos da holding J&F, que controla, entre outras empresas, a JBS. O senador afastado também se envolvera em operações para abafar no Congresso o avanço da Lava Jato. Os números da empreitada passam da casa dos seis dígitos: propinas de mais de R$ 60 milhões em 2014 por meio de notas frias a empresas indicadas pelo tucano, incluindo R$ 2,5 milhões à empresa do marqueteiro de Aécio, Paulo Vasconcelos, e para comprar os partidos que formaram a coligação da campanha presidencial do tucano naquele ano.

Na conversa recheada de palavrões gravada por Joesley, o tucano disse que estava “trabalhando igual um louco” para que PMDB, PT e PSDB aprovassem uma anistia ao caixa dois das campanhas anteriores e o Projeto de Lei de Abuso de Autoridade, uma das armas para conter a Lava Jato.

Frederico Neves recebe propina (Foto: Agência O Globo)

“Não vai parar essa m...?”, diz Joesley. Aécio reclama que Eunício Oliveira, presidente do Senado, e Rodrigo Maia, que comanda a Câmara, são “caras frágeis” na condução dos projetos. Afirma que pressiona os dois para aprovação das medidas contra a Lava Jato. Em determinado momento, Aécio  chega a criticar o ministro da Justiça, Osmar Serraglio, e sugerir a necessidade de interferir na Polícia Federal. “O ministro é um b... de um c..., que não dá um alô, peba, está passando mal de saúde pede pra sair. Michel tá doido. Veio só eu e ele ontem de São Paulo, mandou um cara lá no Osmar Serraglio, porque ele errou de novo de nomear essa p... desse (...). Porque aí mexia na PF. O que que vai acontecer agora? Vai vim um inquérito de uma porrada de gente, c..., eles são tão b... mole que eles não (têm) o cara que vai distribuir os inquéritos para o delegado. Você tem lá 100, sei lá, 2 mil delegados da Polícia Federal. Você tem que escolher dez caras, né?, do Moreira, que interessa a ele vai pro João”, disse. Sim, é Aécio falando.

Na conversa, Aécio e Joesley tratam ainda de indicações para a Vale e, mais uma vez, vêm à tona negociações na sombra. O tucano deixa em aberto a oportunidade para Joesley indicar seu amigo Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras, para alguma diretoria da mineradora. A moeda de troca? Um pedido de R$ 40 milhões da irmã de Aécio feito na conversa com Joesley em fevereiro, para comprar um apartamento para a mãe dos irmãos Neves. Segundo revelou o empresário, ficou acertado que o pagamento seria feito caso Aécio conseguisse emplacar seu indicado na mineradora.

Aécio não é novato na Lava Jato. A delação de 77 executivos da Odebrecht conta uma história de parceria desde 2003. A Odebrecht bancou caixa dois e desembolsou propina de ao menos R$ 35 milhões ao longo dos anos para o tucano. Com Marcelo Odebrecht na cadeia, a construtora estava fora de combate para aproveitar a situação. Outro financiador de caixa dois, Joesley apostou que o tucano defenderia seus interesses com Temer.

Dinheiro e a mala da JBS eram rastreados pela polícia Federal (Foto: Agência O Globo)

No período em que Aécio governou Minas Gerais, entre 2003 e 2010, sua irmã Andrea Neves comandou o serviço de assistência social. Sua principal função, porém, era ficar à frente da política de comunicação para blindar o irmão contra críticas da imprensa e de adversários. Também atuava nas campanhas eleitorais com certa truculência. Após ser presa, Andrea Neves ficou em silêncio na Polícia Federal. Ouviu xingamentos de manifestantes ao sair do Instituto Médico-Legal, onde fez os exames obrigatórios antes de ser levada à prisão. Algumas horas depois, vazaram pelas redes sociais fotos suas vestida de uniforme de presidiária, com uma placa com número de identificação pendurada ao pescoço. A direção da penitenciária promete apurar o vazamento. O advogado Marcelo Leonardo afirmou que não havia motivo para prender Andrea. Segundo ele, o repasse de dinheiro de Joesley foi uma transação privada.

Advogado de Aécio, José Eduardo Alckmin afirma que a negociação de R$ 2 milhões com Joesley foi “uma relação entre pessoas privadas, em que o senador solicitou apoio para cobrir custos de sua defesa, já que não dispunha de recursos para tal”. Segundo Alckmin, Aécio propôs vender um apartamento da família ao empresário. “Mas o delator propôs emprestar recursos lícitos, o que ocorreu sem qualquer ato que possa ser considerado ilegal ou mesmo que tenha qualquer relação com o setor público”, afirma o advogado. “O senador vai demonstrar a farsa de que foi vítima, montada pelo delator de forma premeditada e criminosa, induzindo as conversas para alcançar seus objetivos de obter os benefícios da delação”, disse. Aécio “manifesta seu inconformismo pela prisão preventiva de sua irmã Andrea Neves, que nada mais fez do que atender a seu pedido de levar ao empresário a proposta de venda do apartamento da família, uma vez que o senador se encontrava em Brasília”.

A operação da semana passada arrasa a carreira de Aécio Neves. A Lava Jato mostrou que o ex-candidato à Presidência pelo PSDB, que tinha a imagem de derrotado por um PT turbinado pelo caixa dois da Odebrecht e outros, é um suspeito de crimes graves, que usava sua posição para atrapalhar investigações capazes de revelar seus crimes. O político de futuro está proibido de ir ao Senado. Por pouco não está preso. (Por Hudson Corrêa e Mateus Coutinho –Revista Época)

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