quarta-feira, 24 de julho de 2013

“Não sei como fui ter isso. Nunca fumei”, disse Dominguinhos sobre câncer. Confira entrevista completa

Eu estava no Exu em dezembro de 2011, quando foram abertas as comemorações pelo centenário de Luiz Gonzaga. Dominguinhos era a principal atração.

No palco montado na praça do centro da cidade, ele cantou e tocou seus sucessos para uma plateia dispersa, que preferia conversar a dançar ao som da sanfona mágica de Dominguinhos. Em certo momento, o show foi até interrompido pelo forró eletrônico que saía das caixas de som de um carro. Dominguinhos reclamou.

O show acabou tarde, quando já passava das 2h, e, cansado, o músico não deu entrevistas. Cinco horas depois do show, fui fazer plantão na pousada simples que Dominguinhos estava hospedado em Exu para tentar uma entrevista. Para se ter uma ideia da simplicidade: a diária em quarto de casal custava R$30. Quando todo mundo já tinha tomado café da manhã, lá pelas 9h, Dominguinhos apareceu.

Tranquilo, falando devagar e com um sorriso tímido, ele falou sobre Luiz Gonzaga, medos (de avião, de mar e de floresta), Exu, família e o tratamento contra o câncer de pulmão que faz desde 2007. “Não sei como fui ter isso. Nunca fumei, nem muito menos bebi…”, disse.

Elogiou os sanfoneiros Cezzinha, Mestrinho, Beto Hortiz, Gennaro. E disse o que um sanfoneiro tem que ter para ser bom. “Persistência. Tocar muito e sempre. Variar de gênero, não ficar só tocando forro”, disse. “De sanfona, Gonzaga não me ensinou muito. Eu que via e aprendia. Mas ele disse que só venceu quando cantou. Enquanto ele foi um grande solista de valsa, de choro e de tango, ele não conseguiu muita coisa. Esse foi um grande conselho que ele me deu, o de começar a cantar”, lembrou Dominguinhos.


Confira a entrevista que foi publicada em dezembro de 2011

Dos sanfoneiros novos, quem pode se destacar?
Tem muitos. Um que toca com Genival Lacerda, um garoto novo, Papaleo, tem Mestrinho, que é um grande músico, assim como o pai e o irmão dele. Isso sem falar em Gennaro, Cezzinha, Beto Hortis…

O que um sanfoneiro tem que ter para ser um bom tocador?
Persistência. Estudar muito, tocar sempre, sempre, sempre… variar muito de gênero. Ele ficar num gênero só ele fica amarrado. Tem que tocar choro, samba, bossa nova, bolero, samba-canção, xote, forró, baião… aí se solta.

E o que o senhor aprendeu de sanfona com Luiz Gonzaga?
De sanfona não foi muita coisa, porque ele não ensinava nada. Ele fazia e eu ficava de olho, né. Aprendi vendo. Gonzaga era muito criativo. Fazia coisa com a sanfona que pouca gente faz. Ele foi um dos maiores sanfoneiros do mundo. Mas ele disse que só venceu quando cantou. Enquanto ele foi um grande solista de valsa, choro, tango, ele não conseguiu muita coisa. Mas quando começou a cantar e gravar, tudo mudou. E esse conselho ele me dava também. Por conta desses conselhos, comecei a cantar. Meu nome era Neném do Acordeão e depois ele começou a me chamar de Dominguinhos, que era uma homenagem a Domingos Ambrósio, um professor dele, de Juiz de Fora. Isso eu tinha uns 16 anos, cheguei lá (no Rio de Janeiro) aos 13 anos.

O senhor lembra a primeira vez que viu Luiz Gonzaga?
Foi com 8 anos de idade, lá em Garanhuns, mas eu não sabia quem ele era. Aos 13 anos, fui para o Rio de Janeiro com meu pai e um irmão – já tinha outro lá, em Nilópolis. Aí, nós procuramos imediatamente o Gonzaga, que nos deu uma sanfona. A gente não tinha nem o instrumento… Então foi bom, muito bom. Era uma sanfoninha vermelha de 80 baixos.

Essa rotina de tantas viagens o senhor pretende levar até quando?
É uma corrente muito difícil de superar porque faz parte da minha vida. Desde que eu comecei que é assim. Parar de fazer isso… Não vai ter mais o que fazer. Eu fico teimando… filho tem mania de querer mandar.

O senhor teve três filhos, somente Liv Morais seguiu a carreira artística?
Tive três filhos… digo ‘tive’ porque a Lena (Madalena) teve uma depressão muito forte no Rio… Morreu quando eu tinha 49 anos, deixou dois filhos. Mauro é técnico de som, trabalha bem em estúdio. E atualmente está no Rio, dirigindo táxi para não ficar parado, porque não tem mais estúdio para trabalhar. Depois eu boto ele pra trabalhar comigo.

E tem quantos netos?
Sete netos. Dois rapazinhos de Lena, quatro de Mauro e um com a Liv, o Luquinhas, que está com 3 anos. Sempre que estou em São Paulo passo tempo com ele. Nenhum deles toca, só a Liv que enveredou nesse caminho. Lucas respira música. Quer tocar bateria, guitarra, baixo… Acho que ele está perdido (risos). Mas música é coisa muito boa.

O senhor está preparando algum projeto para o centenário de Luiz Gonzaga?
Tive um convite para fazer um disco com Raimundo Fagner. Ele andou gravando umas coisas com Gonzaga e agora quer fazer uma lembrança comigo. Nós somos amigos velhos, ele canta muito bem.

Como está sua saúde?
Estou tomando um monte de remédio, equilibrando as coisas. para não entupir veia, coisas assim. Mas tá tudo dando certo, não posso reclamar. Operei de câncer no pulmão em 2007. Não sei como fui ter isso. Nunca fumei. Mas são coisas que acontecem e a gente não explica. Aí fui operado e de lá pra cá faço quimioterapia, tomo remédio, faço tudo que mandam. Agora mesmo fiz químio em Fortaleza e vou fazer de novo, no Recife.

O senhor tem vontade de se mudar para Recife ?
Tenho. Não sei o que eu estou fazendo lá em São Paulo. Não tenho mais nada pra querer. Lá ainda tem Liv, meu netinho, Guadalupe (mãe de Liv)… Aí a gente tem dificuldade de cair fora. Do Blog Play

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