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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Geneton Moraes Neto: ''Fazer jornalismo é produzir memória''


Jornalista não se intimida com o avanço da tecnologia na profissão: ''A revolução provocada pela internet é bem-vinda. Nós estamos em meio a um tsunami de proporções bíblicas'', diz

Diagnóstico é rápido, preciso, direto. "Sou, obviamente, um caso escandaloso de vocação precoce para jornalismo", define-se Geneton Moraes Neto, repórter profissional desde os 16 anos, do tempo em que trabalhava na redação do Diário de Pernambuco. A vontade insaciável de apurar, descobrir, descrever, narrar o mundo o levou a acumular um extenso portfólio de entrevistas, escrever dossiês, fazer documentários, repensar a profissão. Ao contrário de muitos colegas de ofício, Geneton Moraes Neto não considera o avanço da tecnologia uma ameaça aos jornais. "Quem sabe não é a hora de apostar num jornalismo autoral?", provoca o veterano escriba, defensor de textos que subvertam a ditadura da objetividade e detenham uma marca pessoal. A reverência ao jornalismo de qualidade motivou a produção do documentário Garrafas ao mar: a víbora manda lembranças, sobre a trajetória de Joel Silveira, considerado o maior repórter brasileiro. "O documentário não é a biografia oficial de Joel. É apenas a "crônica" " se é que posso chamar assim " da convivência de um aprendiz com um mestre". Garrafas ao mar: a víbora manda lembranças será exibido, hoje, às 20h30, na GloboNews.

Como e quando foi a decisão de optar por jornalismo? E o período no Diário de Pernambuco? Quais suas lembranças dessa época?

Sou, obviamente, um caso escandaloso de vocação precoce para jornalismo. Aos 16 anos, era repórter da editoria Geral do Diário de Pernambuco. Os primeiros textos (se é que assim podem ser chamados) foram publicados quando eu tinha 13 anos, no suplemento infantil do jornal. Mas, para ser 100% sincero, não planejava "fazer carreira". Uma semana antes de fazer vestibular, em 1974, hesitava entre jornalismo e história, por exemplo. Mas, ao vasculhar a memória, tento identificar sinais da vocação. Descubro alguns. Exemplo: quando tinha meus 10 anos, ficava às vezes no muro da minha casa, no bairro da Torre, no Recife, com um caderno na mão anotando a placa dos carros que passavam na rua. Ao participar dos campeonatos de futebol de botão na minha rua (para mim, o acontecimento mais importante do planeta, naquele tempo), fazia um "jornal": recortava fotos da recém-lançada revista Placar, colava numa folha de papel pautado e escrevia sobre as partidas.

Quanto tempo durou a sua carreira de "editor" e dono de jornal?

Mas minha carreira de "editor" e dono de jornal de um só exemplar durou pouco. Uma vez, depois de empatar um jogo, tasquei a manchete: "Incrível! Fantástico ! Extraordinário ! Vasco empata com Palmeiras!". O Palmeiras era meu time de botão. Meu amigo, dono do Vasco, reclamou, com toda razão: "Assim não pode! Quem disse que empatar com Palmeiras é alguma coisa demais !". O jornal deixou de circular, por tendenciosismo.

O que acontece com a gente no início da profissão fica para o resto da vida. Eu me lembro do barulho coletivo das máquinas de escrever, as mãos sujas de carbono, o cheiro de tinta, o ruído das impressoras, a fumaceira de cigarro. Comecei a trabalhar como repórter. Desde então, para mim, jornalismo virou sinônimo de reportagem. E vice-versa. Ainda bem. Não tenho vocação para outras tarefas.

O senhor acha que a internet vai matar o jornal impresso? Como será o jornalista do futuro, na sua opinião?

A revolução provocada pela internet é bem-vinda. Nós estamos em meio a um tsunami de proporções bíblicas. O surgimento da internet é um fenômeno comparável à invenção da imprensa. Os jornais impressos precisam se adaptar, com urgência, aos novos tempos. Quem sabe não é hora de apostar num jornalismo mais "autoral"? A informação imediata quem dá hoje é a internet: em alguns casos, é o próprio internauta quem veicula a notícia, sem a intermediação dos bravos rapazes da imprensa. Isso muda tudo.

Muda para melhor ou para pior?

Mas esta pode ser uma chance de ouro para que o chamado "jornalismo impresso" se reinvente. Faz décadas, em nome do combate ao "beletrismo" e ao "academicismo" na linguagem jornalística, instalou-se uma espécie de ditadura da objetividade. É o que ocorreu quando a imprensa brasileira adotou o "lead": os textos deveriam sempre responder, já no primeiro parágrafo, "quem", "o que", "quando", "onde" e "por que". Agora, quem sabe, pode ser hora de mandar para o espaço a ditadura da objetividade e voltar a valorizar os textos com uma marca pessoal mínima que seja....Vi recentemente uma entrevista em que um diplomata cita uma pichação genial vista num muro do México: "Chega de realizações! Queremos promessas!". O pichador sentia falta do sonho, num mundo dominado por "realizações". Quero deixar minha pichação no muro imaginário do jornalismo: "Chega de objetividade! Chega de textos burocráticos! Queremos o prazer do texto!".

E as redes sociais? Elas estão aí para deixar o homem cada vez mais solitário? Com relações apenas virtuais, cada vez mais distante da realidade e fácil de ser manipulado? Ou esse é um discurso reacionário?

Não acho que as redes sociais deixem o homem cada vez mais solitário. Pelo contrário: podem funcionar como uma inédita praça planetária, onde todos podem se encontrar, trocar mensagens, dizer algo. É óbvio que há uma enorme quantidade de lixo virtual. Mas há, também, uma inacreditável quantidade de belos territórios, a serem descobertos e percorridos.

Quais são os principais pecados de um jornalista? O distanciamento dos leitores e o preconceito estão entre eles?

Há um punhado de pecados capitais. Um dos mais graves: jornalista fazer patrulhagem ideológica. Não pode! Estou fora dessa! Como personagem, um general "linha dura" me interessa tanto quanto um guerrilheiro que até hoje pegaria em armas. Não por acaso, aliás, fiz longas entrevistas com o general Newton Cruz e com o ex-guerrilheiro Carlos Eugênio Paz, o Clemente. Quero ouvir os dois. Fazer jornalismo é produzir memória. Eis aí uma boa missão. É o que tento fazer. Lugar de exercer patrulhagem ideológica é na cabine de votação ou na mesa do bar, jamais numa redação. Mas há jornalistas que se recusariam a entrevistar um general de "direita" " ou um guerrilheiro de "esquerda". Repito: minha tribo é outra. Não é a da patrulhagem.

Qual é a sua tribo ou o seu partido?

Pertenço ao PPB: Partido dos Perguntadores do Brasil. Sem pretensões risíveis, sem delírios megalomaníacos (tão comuns em jornalistas...), penso que posso, como jornalista, dar uma contribuição mínima ao meu país: fazer do jornalismo que pratico uma fonte de produção de memória. Se uma matéria que eu fizer ajudar um telespectador ou um leitor a entender melhor o que aconteceu, estarei satisfeito. Outro pecado do jornalista: deixar-se contaminar pela Síndrome da Frigidez Editorial (SFE). Batizei assim uma doença terrível. É assim: por natureza, o jornalista passa a vida lidando com o que é extraordinário. O problema é que, depois de lidar com o extraordinário durante anos a fio, o jornalista corre o sério risco de achar que o extraordinário é ordinário. Transforma-se, então, numa figura triste: a do derrubador de matérias. Ou seja: o sujeito que joga no lixo as matérias que o repórter levantou. Já vi coisas inacreditáveis. Sempre digo que não existe assunto desinteressante. O que existe é jeito desinteressante de tratar de um assunto. Conclusão: desinteressante é o jornalista entediado, não é a vida! A experiência de vida " inclusive de gente anônima " é, em geral, extraordinária.

O jornalismo e a literatura andaram por muito tempo juntos até meados do século 1920, quando o modelo americano (lead e sub lead) invadiu nossas redações. Há um retorno ao texto mais  refinado? A poesia é um ingrediente para o jornalismo do "futuro"?

Reli recentemente os textos de Joel Silveira e Rubem Braga, por exemplo. Os despachos que eles enviaram da Itália para o Brasil, na segunda guerra, não ficam devendo nada aos mestres do Novo Jornalismo americano. É só ler livros como O inverno da guerra, coletânea de textos de Joel. Ou Crônicas da guerra na Itália, de Rubem Braga. Não é questão de fazer poesia. É uma questão de qualidade de texto. O jornalismo precisa voltar a ser um terreno fértil para que novos Joéis e novos Rubens possam florescer.

O que é preciso fazer?

Para que volte a ser fértil, o jornalismo precisa ser menos burocrático. Precisa apostar na diferença. Não tenho a pretensão de ficar "pontificando" sobre a profissão. Falo como leitor e como espectador. O jornalismo brasileiro precisa levar um choque de jornalismo. É minha modesta impressão. Um choque de jornalismo, para que descubra, por exemplo, que entrevista não pode ser, sob hipótese alguma, instrumento de congratulação com o entrevistado. Entrevista é instrumento de prospecção e de descoberta " e não de congratulação. Basta ver as entrevistas coletivas de presidentes americanos, por exemplo. Há perguntas duríssimas. Aqui, especialmente as entrevistas com celebridades, são um festival constrangedor de congratulações. A chance de uma entrevista congratulatória produzir uma informação interessante é de zero vezes zero vezes zero, elevado ao cubo. Ou seja: nenhuma. Nunca. Never.

Quando jovem, o senhor partiu rumo a Paris para estudar cinema. Foi lá que se encontrou com Glauber Rocha. Como foi essa aproximação? E o cinema? É apenas um quadro na parede?

Não fui a Paris especificamente para estudar cinema. Um belo dia, em 1980, joguei tudo para o alto, pedi demissão do trabalho, comprei uma passagem Recife-Paris e bye, bye, Brasil. É sempre bom de vez em quando zerar as contas. Lá, terminei aceito num curso de cinema, uma espécie de pós-graduação. Meu projeto de tese "Cinema e subdesenvolvimento: o caso brasileiro" foi aceito pela Sorbonne. Mas logo vi que minha vocação para escrever teses acadêmicas era nula. De qualquer maneira, o tema da tese que nunca escrevi poderia ser interessante. Renderia, quem sabe, um artigo: um país subdesenvolvido economicamente pode produzir um cinema esteticamente desenvolvido? Eu iria estudar o conceito de subdesenvolvimento: é algo passageiro, um estágio para o desenvolvimento, ou pode ser uma condição permanente, como alguns economistas importantes acreditavam? Depois, partiria para o cinema, a partir dos filmes de Glauber Rocha.

O que lhe interessava?

A busca por um cinema que não se rendesse aos cânones de Hollywood me pareceu fascinante, desde sempre. Faz parte da louvável busca " às vezes, desesperada " por originalidade, algo que faz parte do caráter brasileiro. Terminei tendo um encontro marcante com o próprio Glauber, em Paris, numa sessão privê de A idade da Terra, o último filme que ele fez. Fui com Marcos de Souza Mendes, à época também estudante de cinema, colega meu de classe numa matéria que a gente cursava na Universidade de Nanterre, hoje professor de cinema da Universidade de Brasília. Terminado o filme, Glauber se virou para nós e perguntou: "Como é? Fez as ligações? Fez as ligações?". Queria saber se a gente tinha entendido a novidade formal do filme. "Fazer as ligações": eis aí uma bela bandeira. Por que não fazer as ligações entre jornalismo e memória, por exemplo? O cinema jamais foi apenas um retrato na parede, para mim. Agora mesmo, estou retomando meu trabalho como documentarista. Fazia Super-8 nos anos 1970, no Recife. Hoje, tento fazer documentários para a tevê.

O senhor preparou um documentário sobre Joel Silveira, um grande escritor, jornalista e pensador. É um recorte de um momento complicado da vida política brasileira.O país tem memória curta?

Tirei na loteria do jornalismo: convivi durante 20 anos com aquele que é considerado o maior repórter brasileiro, Joel Silveira. Gravei horas e horas de entrevistas e conversas nossas, em áudio ou vídeo. O resultado é um documentário que vai ser exibido neste sábado, às 20h30, pela Globonews. Chama-se Garrafas ao mar: a víbora manda lembranças. Víbora porque era assim que Assis Chateaubriand, fundador dos Diários Associados, chamava Joel, um grande exemplo de como já se fez jornalismo literário de alto nível no Brasil. Se o documentário chamar a atenção de um estudante para a qualidade do texto de gente como Joel Silveira, já estará de bom tamanho. Por falar em víbora, Joel tem uma definição engraçada sobre nossa capital: "Brasília: esotérica e festeira comunidade, onde todo mundo vive a dar medalha a todo mundo". A frase entrou no documentário.

Como foi a produção desse documentário? Encontrar as pessoas, ouvi-las...

Não ouvi ninguém sobre Joel Silveira. Usei, basicamente, o material que eu mesmo gravei com ele, ao longo de 20 anos de convivência. Fizemos dois livros juntos, Hitler-Stalin: o pacto maldito e Nitroglicerina pura. O documentário não é a biografia oficial de Joel. Não traz informações biográficas clássicas nem depoimentos sobre ele. É apenas a "crônica" " se é que posso chamar assim " da convivência de um aprendiz com um mestre.

Quais as grandes lições que o senhor aprendeu ao lado de Joel Silveira?

Eu poderia fazer uma lista. Mas posso citar uma: se você é repórter, não pode perder o fogo da paixão pela profissão. Já perto dos 80 anos, ao responder a uma pergunta minha sobre quais os assuntos que ele sugeriria para um jovem repórter, ele listou umas oito pautas, uma atrás da outra, na hora. E também: se você se considera jornalista de verdade, então jamais deixe de olhar o mundo com olhos jornalísticos. Ou seja: com olhos curiosos, observadores, inquisidores, treinados para captar cada detalhe. Joel teve um encontro rápido com Getúlio Vargas, no Palácio do Catete, para uma frustrada entrevista. Se fosse um jornalista burocrata, Joel nem se daria ao trabalho de escrever sobre o encontro. Afinal, Getúlio Vargas não lhe deu a chance de fazer qualquer pergunta. Mas, a partir da frustração, Joel escreveu um texto que considero um clássico. Depois de descrever o encontro, com detalhes como as mãos lisas e bem tratadas do presidente, Joel termina o texto assim: "Lá para a meia-noite entrei no Danúbio Azul, um bar que não existe mais numa Lapa que também não existe mais; e lá fiquei até que a manhã me fosse encontrar " uma das mais radiosas manhãs de abril já neste mundo surgidas, desde que existem mundo e manhãs de abril".

O senhor entrevistou os quatro ex-presidentes do Brasil. Conseguiu ver semelhanças entre eles?

As entrevistas com quatro ex-presidentes, originalmente feitas para o Fantástico, foram publicadas na íntegra no livro Dossiê Brasília " que, para minha alegria, chegou a ocupar o primeiro lugar nas listas dos mais vendidos nas semanas seguintes ao lançamento.

O projeto era: tentar com que cada ex-presidente revelasse pelo menos um fato que, na época em que eles estavam no poder, não podiam revelar. José Sarney disse que foi informado, logo no início do governo, de que os militares queriam, sim, que o Brasil tivesse uma arma atômica. O tal buraco aberto na Serra do Cachimbo iria ser usado para testes. O governo fez malabarismos para não dizer, com todas as letras, o que se sabia, nos bastidores. Havia uma "corrida atômica" em marcha entre Brasil e Argentina. Um queria "passar a perna" no outro. Sarney se orgulha de ter, junto com o presidente da Argentina, Raul Alfonsin, estancado esta corrida. Fernando Collor descreveu uma cena que parece saída de um filme: disse que, no exato momento em que a Câmara votava o pedido de impeachment, ele preferiu não ver tevê nem ouvir rádio. Nada. Ficou no gabinete presidencial, sozinho, na penumbra. Só havia uma luz acesa: a que iluminava a mesa do presidente.

E por que cena de cinema?

Collor disse que ouvia, ao longe, os gritos da multidão " que vibrava a cada voto pelo impeachment. Quando ele sentiu que o som vindo da rua parecia a comemoração de um gol numa partida de futebol, viu que estava tudo perdido: era a multidão vibrando com voto decisivo. A descrição que Collor fez foi surpreendente, porque se esperava que, naquele momento, o mais dramático que ele viveu, ele estivesse de olho grudado na tevê, cercado de assessores. Mas não. Itamar Franco disse que tomou um choque ao receber " de políticos " a sugestão de fechar o Congresso, à época enfrentando denúncias de corrupção praticada pelos chamados "anões do Orçamento". Itamar deixou um mistério no ar: disse que recebeu uma proposta ainda mais tenebrosa do que fechar o Congresso. Insisti, mas ele não me disse qual era. Qual seria? Fernando Henrique Cardoso disse que Bill Clinton " de quem é amigo pessoal " insinuou que o Brasil poderia intervir militarmente na Colômbia, no combate às drogas. Clinton não fez essa proposta com "todas as letras". Mas a intenção pareceu ser essa. Fernando Henrique desconversou.

Quem o senhor gostaria de entrevistar?

Deus, é claro. Apontaria para o planeta Terra e perguntaria: "Seja sincero: era isso o que o Senhor queria?". (Via Diário de Pernambuco.com)

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