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sábado, 20 de outubro de 2012

Quem disse que cachaça não é assunto delas?

Juliana Cavalcanti, 28, conta que passou a apreciar a bebida à medida em que o mercado foi ampliando a variedade de rótulos. Foto: Roberto Ramos/DP/D.A Press
Os fabricantes da bebida genuinamente brasileira não têm números oficiais para atestar o crescimento do público feminino entre os seus consumidores, mas produzir especificamente para as mulheres já virou um diferencial de mercado.

“Cachaça é coisa boa, ninguém pode duvidar. Ela é filha do alambique, neta do ‘canaviá’”. Concorda? Se ficou na dúvida, pergunte às mulheres. Talvez sua mãe, tia, esposa, prima ou amiga possam responder melhor. Branquinha, “marvada”, venenosa, não importa o sinônimo: a velha e boa cachaça caiu no gosto da mulherada. Ou melhor, na boca. 

Se você ainda duvida que a cachaça deixou de ser “coisa de macho”, talvez mude de ideia ao olhar na mesa do lado no bar onde está bebendo. Nos últimos anos, cresceu o consumo desse gênero de bebida e o certo é que nunca antes na história deste país (parafraseando o ex-presidente Lula, apreciador de uma boa cachaça), o público feminino tomou tanta pinga. De boa qualidade, diga-se de passagem. 

A funcionária pública Juliana de Souza Uchoa Cavalcanti, 28, conta que sempre gostou de apreciar a bebida e fortaleceu o hábito à medida em que o mercado foi ampliando a variedade de rótulos. “Os sabores foram se adequando ao gosto popular. Hoje em dia é muito mais fácil tomar cachaça, pois existem aquelas mais fracas, mais doces. E isso aumentou meu consumo”, explica.

Fenômeno anormal? Não. Justiça seja feita. Assim como a vodca é tradição na Rússia, a cerveja na Alemanha ou a tequila no México, nada mais normal que a cachaça ocupe o posto de bebida-símbolo no Brasil, embora, de acordo com o Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac), não haja estatísticas sobre o perfil de consumo feminino no Brasil. O órgão agrega associações e produtores da bebida. 

Também não há estudos oficiais sobre a frequência com que as mulheres consomem cachaça, principalmente as refinadas, mais procuradas. Parte-se do princípio de que elas bebem em ocasiões especiais ou para degustar o produto. “Tomo mais quando estou com amigos e existe aquele brinde especial. Mas às vezes bebo para apreciar e prefiro as medianas, com gosto mais doce”, destaca Juliana.

Quem é produtor, confirma que o consumo da bebida entre as mulheres vem crescendo nos últimos anos. “Diria que hoje a proporção de mulheres e homens que gostam de cachaça é de 50% para cada. Como elas são mais atentas a detalhes, acabam provando para atestar a qualidade”, diz Pedro Gomes de Oliveira Júnior, proprietário da Agroindústria São Pedro. Ele é fabricante da Cachaça Triumpho, produzida no Engenho São Pedro, em Triunfo, no Sertão do Pajeú. 

Segundo o empresário, boa parte das vendas do produto no engenho, cujas garrafas custam entre R$ 18 e R$ 28, é creditada ao público feminino. A tendência, na sua avaliação, é de que a cachaça vai aumentar ainda mais sua participação no consumo entre as mulheres. “A bebida já foi reconhecida como um produto genuinamente brasileiro. Tanto que temos uma produção especial de apenas 20 mil litros por ano, que é mais requintada e selecionada”, destaca.

Opinião semelhante tem José Moisés de Moura, proprietário do conhecido Museu da Cachaça, na cidade de Lagoa do Carro, na Zona da Mata Norte. “Hoje a cachaça está mais elitizada e as mulheres têm consumido mais, buscado conhecer as marcas do mercado”, atesta. No museu, Moura conta que há mais de 12 mil rótulos em exposição e mais de 150 marcas comerciáveis. Valores? Entre R$ 20 e R$ 500 por garrafa, dependendo do rótulo, ano de produção e processo de fabricação.

Foco no mercado

O aumento no consumo de cachaças refinadas pelas mulheres não acontece por acaso. Engana-se quem pensa que o gosto delas pela pinga de alambique ocorreu por mera influência masculina. Ao contrário. Agora, as empresas têm investido pesado na busca por variações da bebida que atraiam as mulheres. Um bom exemplo é a cachaça Santa Dose, lançada recentemente pelo grupo Carvalheira. 

“De um modo geral, acreditamos que o aumento no consumo pelas mulheres deve-se ao mercado, que tem investido no setor de bebidas premium, incluindo a cachaça mista, que é o caso da Santa Dose. É uma cachaça mais branda, com 17° de graduação alcoólica e misturada ao mel e limão. Pode ainda ser consumida gelada”, pontua Victor Carvalheira, diretor comercial do grupo Carvalheira.

Nos supermercados, segundo ele, uma garrafa da Santa Dose custa, em média, R$ 24. Nas cachaçarias e bares do Recife, por exemplo, a marca é uma das preferidas entre as mulheres. Acaso? Não para a Carvalheira. “A proposta ao criarmos a Santa Dose foi atrair jovens e mulheres. Se o consumo de outras bebidas tem diminuído, parte disse se deve às boas variações de cachaças do mercado.”

Daniel Barbosa, mâitre da Cachaçaria Tradição, uma das mais movimentadas da Zona Norte do Recife, comunga da opinião de Victor. No local, uma cachaça conhecida pelo sugestivo nome de “Chicletinho” (Jurubeba Nordestina) e sabor de tutti-frutti é a preferida da mulherada. A bebida, inclusive, literalmente bomba nas baladas. A dose custa R$ 4,90 e ele diz que às quintas e aos sábados o consumo é ainda maior. “São mulheres entre os 20 e 40 anos que gostam mais por que é feita com cachaça de cabeça. O sucesso é tanto que criamos uma variação raspa-raspa, que custa R$ 7,60.” 

Como cachaça faz parte da vida dos nordestinos, nada como conhecer um pouco mais sobre este universo. Tanto que o espaço Santander Cultural vai promover, a partir do dia 5 de novembro, uma exposição cultural que vai mostrar cerca de 400 rótulos de cachaças fabricadas e comercializadas nas cidades ribeirinhas do Rio São Francisco. Gostou? Então, aprecie com moderação e se beber não dirija. (Do Diário de Pernambuco.com)

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